História do novo sobrenome
Capítulo 95
Como Nino não voltou depois de dez minutos, nem de uma hora, nem no dia seguinte, Lila ficou uma fera. Não se sentiu abandonada, mas humilhada, e, se intimamente ela mesma admitira não ser a mulher certa para ele, por outro lado achou insuportável que ele, desaparecendo de sua vida depois de apenas vinte e três dias, o tivesse confirmado de maneira brutal. Por raiva, jogou fora tudo o que ele tinha deixado: livros, cuecas, meias, um pulôver, até um toco de lápis. Fez isso, se arrependeu, desandou a chorar. Quando finalmente as lágrimas acabaram, se viu feia, inchada, estúpida, amesquinhada por sentimentos ásperos que Nino, justamente Nino — que ela amava e acreditava ser correspondida —, estava suscitando nela. De repente o apartamento se revelou como de fato era, um espaço esquálido, com paredes atravessadas por todos os barulhos da cidade. Se deu conta do mau cheiro, das baratas que chegavam da porta pelas escadas, das manchas de umidade no teto, e sentiu pela primeira vez a infância que a arrebatava, não a das fantasias, mas a infância das cruéis privações, das ameaças e das surras. Aliás, descobriu de chofre que uma fantasia que tinha nos confortado desde meninas — se tornar rica — se dissipara de sua cabeça. Embora a miséria dos Campi Flegrei lhe parecesse mais negra que a do bairro de nossas brincadeiras, embora sua situação tivesse se agravado por causa da criança que esperava, embora tivesse consumido em poucos dias todo o dinheiro que levara, descobriu que a riqueza não lhe parecia mais um prêmio e uma reparação, mas já não lhe dizia nada. A substituição na adolescência das arcas de nossa infância, repletas de moedas e ouro e pedras preciosas, pelas cédulas gastas, entranhada de cheiros ruins, que se amontoava na gaveta do caixa quando trabalhava na charcutaria ou na caixa de metal colorido da loja na Piazza dei Martiri não funcionava mais, qualquer brilho residual se exaurira. A relação entre o dinheiro e a posse das coisas a decepcionara. Não queria nada nem para si, nem para o filho que iria ter. Ser rica, para ela, significava ter Nino, e, como Nino tinha ido embora, se sentiu pobre de uma pobreza que não havia dinheiro capaz de apagar. E, como não havia remédio para sua nova condição — tinha cometido muitos erros desde pequena, e todos tinham confluído para aquele erro maior: acreditar que o filho de Sarratore não pudesse prescindir dela assim como ela não podia viver sem ele, que eles estivessem fadados a um único e excepcional destino, que a fortuna de se amar duraria para sempre e tiraria a força de qualquer outra necessidade —, se sentiu culpada e decidiu não sair mais, não procurá-lo, não comer, não beber, mas esperar que sua vida e a do bebê perdessem qualquer contorno, qualquer definição possível, e ela não tivesse mais nada na cabeça, nem uma migalha do que a deixava mais amarga, vale dizer, a consciência do abandono.
Então bateram na porta.
Ela pensou que fosse Nino, abriu: era Enzo. Não se decepcionou ao vê-lo. Achou que ele tivesse vindo lhe trazer um pouco de fruta, como tinha feito muitos anos atrás, ainda pequeno, depois que tinha sido derrotado na competição promovida pelo diretor e pela professora Oliviero, depois de a ter acertado com uma pedra, e começou a rir. Enzo considerou a risada um sinal de mal-estar. Entrou, mas deixando a porta aberta por respeito, não queria que os vizinhos pudessem pensar que ela recebia homens como uma prostituta. Olhou ao redor, lançou um olhar ao estado desmazelado dela e, mesmo não vendo o que ainda não se via, ou seja, a gravidez, deduziu que ela precisava mesmo de ajuda. Com seu modo sério, completamente isento de emoções, falou antes que ela conseguisse se acalmar e parar de rir:
“Agora vamos indo.”
“Aonde?”
“Para o seu marido.”
“Foi ele que o mandou aqui?”
“Não.”
“E quem mandou?”
“Ninguém me mandou.”
“Não vou.”
“Então vou ficar aqui com você.”
“Para sempre?”
“Até você se convencer.”
“E o trabalho?”
“Já encheu.”
“E Carmen?”
“Você é muito mais importante.”
“Vou dizer a ela, assim ela te deixa.”
“Eu mesmo vou dizer, já decidi.”
A partir dali, falou com distanciamento, em voz baixa. Ela respondeu zombando, de modo debochado, como se nenhuma das palavras que diziam fosse verdadeira e só estivessem falando para escárnio de um mundo, de pessoas, de sentimentos que não existiam há tempos. Enzo percebeu e por um instante não disse mais nada. Circulou pela casa, achou a mala de Lila, encheu-a com o que havia nas gavetas, no armário. Lila deixou-o agir porque o considerava não o Enzo de carne e osso, mas uma sombra colorida, como no cinema, que, apesar de falar, era de todo modo um efeito da luz. Fechada a mala, Enzo tornou a encará-la e fez um discurso particularmente surpreendente. Disse em seu modo concentrado e distante:
“Lina, eu gosto de você desde que éramos pequenos. Nunca lhe disse porque você é muito bonita e muito inteligente, já eu sou baixinho, feio e não valho nada. Agora você vai voltar para o seu marido. Não sei por que você o deixou nem quero saber. Só sei que aqui você não pode ficar, você não merece viver nesta imundície. Eu a acompanho até o portão de casa e espero: se ele a tratar mal, eu subo e acabo com ele. Mas ele não vai fazer isso, ao contrário, vai ficar contente por você voltar. Mas vamos fazer um pacto: caso você e seu marido não cheguem a um acordo, eu a levei para ele e eu volto para te buscar. Tudo bem?”
Lila parou de rir, apertou os olhos, o ouviu pela primeira vez com atenção. As relações entre ela e Enzo tinham sido raríssimas até aquele momento, mas nas vezes em que estive presente sempre me causaram surpresa. Havia algo de indefinível entre eles, que nascera na confusão da infância. Em Enzo, acho, ela confiava, sentia que podia contar com ele. Quando o rapaz pegou a mala e se dirigiu para a porta que tinha ficado aberta, hesitou um instante e depois o seguiu.
OceanofPDF.com