História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 89 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 88

Então ela descobriu a gravidez e decidiu acabar com o imbróglio da Piazza dei Martiri. Num domingo de fins do outono de 1963 ela se recusou a ir ao habitual almoço na casa da sogra e se dedicou à cozinha com muito esmero. Enquanto Stefano passava nos Solara para pegar os doces que levaria à mãe e à irmã a fim de ser perdoado pela deserção, Lila meteu na mala comprada para a viagem de núpcias um pouco de roupa íntima, alguns vestidos, um par de sapatos de inverno, e a escondeu atrás da porta da sala. Depois lavou todas as panelas que tinha sujado, arrumou com capricho a mesa da cozinha, tirou de uma gaveta uma faca para carne e a colocou sobre a pia, coberta por um trapo. Por fim, à espera de que o marido voltasse, abriu a janela para ventilar o cheiro de comida e ficou no parapeito olhando os trens e os trilhos reluzentes. O frio eliminava a mornidão do apartamento, mas não a incomodava, lhe dava energia.

Stefano voltou para casa, os dois se sentaram à mesa. Irritado porque tivera de privar-se da boa cozinha da mãe, não disse uma palavra de elogio pelo almoço e foi mais duro que de costume com o cunhado, Rino, e mais afetuoso que o habitual em relação ao sobrinho. Referiu-se várias vezes a ele como o filho de minha irmã, como se a contribuição de Rino tivesse sido irrelevante. Quando passaram aos doces, ele comeu três, ela, nenhum. Stefano limpou cuidadosamente a boca suja de creme e lhe disse:

“Vamos deitar um pouco.”

Lila respondeu:

“A partir de amanhã não vou mais à loja.”

Stefano logo entendeu que a tarde estava indo por um mau caminho.

“Por quê?”

“Porque não quero mais.”

“Você brigou com Michele e Marcello?”

“Não.”

“Lina, não fale bobagens, você sabe muito bem que eu e seu irmão às vezes nos desentendemos com aqueles dois, não complique as coisas.”

“Não estou complicando nada. Mas não vou mais para lá.”

Stefano ficou em silêncio, e Lila percebeu que estava alarmado, que queria desviar o assunto sem aprofundar a questão. O marido temia que ela estivesse a ponto de lhe revelar alguma ofensa por parte dos Solara, uma afronta imperdoável, à qual, uma vez que se tornasse pública, ele precisaria reagir com uma ruptura insanável. Coisa que não podia se permitir.

“Tudo bem”, disse a ela quando decidiu falar, “não vá mais lá, volte para a charcutaria.”

Ela respondeu:

“Também não quero voltar à charcutaria.”

Stefano a olhou perplexo.

“Quer ficar em casa? Perfeito. Foi você quem quis trabalhar, nunca lhe pedi isso. É verdade ou não?”

“É verdade.”

“Pois então fique em casa, só vai me dar prazer.”

“Também não quero ficar em casa.”

Ele esteve prestes a perder a calma, o único meio que conhecia de expulsar a ansiedade.

“Se não pretende ficar nem em casa, pode-se saber que merda você quer?”

Lila respondeu:

“Quero ir embora.”

“Embora para onde?”

“Não quero mais ficar com você, vou deixá-lo.”

Stefano não teve outra reação senão começar a rir. Aquelas palavras lhe pareceram tão colossais que por uns minutos pareceu aliviado. Deu-lhe um beliscão na bochecha, disse com o meio sorriso de sempre que eles eram marido e mulher, e que marido e mulher não se deixavam, prometeu até que no domingo seguinte a levaria para a costa amalfitana, assim relaxariam um pouco. Mas ela respondeu com calma que não havia razão para continuarem juntos, que tinha se enganado desde o início, que mesmo quando estavam noivos ela só sentira por ele um pouco de simpatia, que agora sabia com clareza que nunca o amara e que ser mantida por ele, ajudá-lo a ganhar dinheiro, dormir juntos eram coisas que não conseguia mais suportar. Ao final dessa fala, recebeu uma bofetada que a fez cair da cadeira. Levantou-se depressa enquanto Stefano se lançava para agarrá-la, correu até a pia, pegou a faca que escondera sob o trapo. Virou-se para ele justamente quando estava para lhe dar outro tapa.

“Faça isso e eu te mato como mataram seu pai”, disse.

Stefano se deteve, aturdido por aquela menção ao destino do pai. Murmurou coisas do tipo: “Claro, me mate, faça o que quiser”. Fez um gesto de tédio e lhe veio um longo bocejo, um bocejo incontrolável, de boca escancarada, que o deixou com os olhos brilhando. Virou-lhe as costas e, sempre balbuciando frases descontentes — “Vá, vá, eu lhe dei tudo, permiti tudo, e você me agradece assim, eu, que lhe tirei da miséria, que enriqueci seu irmão, seu pai, toda sua família de merda” —, foi até a mesa e comeu mais um doce. Depois saiu da cozinha e se retirou no quarto de dormir, de onde lhe gritou de repente:

“Você nem pode imaginar como eu te amo.”

Lila apoiou a faca na pia e pensou: não acredita que o estou deixando; não acreditaria nem mesmo que tenho outro, ele não consegue. No entanto fez força e foi ao quarto para lhe confessar sobre Nino, para dizer que estava grávida. Mas o marido estava dormindo, caíra sobre ele o sono como um manto mágico. Então ela vestiu o casaco, pegou a mala e deixou o apartamento.

 

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