História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 3 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 2

Eu não conseguia acreditar que Stefano, tão gentil, tão apaixonado, tivesse presenteado Marcello Solara com um sinal da Lila criança, a marca de seus esforços nos sapatos que tinha inventado.

Esqueci Alfonso e Marisa conversando entre si com os olhos brilhantes, sentados à mesa. Não dei mais atenção às risadas bêbadas de minha mãe. A música murchou, a voz do cantor, os casais que dançavam, Antonio, que saíra ao terraço e, vencido pelo ciúme, parava além da vidraça, fixando a cidade violácea, o mar. Até a imagem de Nino desbotou enquanto saía da sala como um arcanjo sem anunciação. Agora eu via apenas Lila falando ansiosamente ao ouvido de Stefano, ela palidíssima no vestido de noiva, ele sem um sorriso, uma mancha esbranquiçada de incômodo que descia da fronte aos olhos como uma máscara de Carnaval sobre o rosto aceso. O que estava acontecendo? O que teria ocorrido? Minha amiga puxava para si o braço do marido com ambas as mãos. Puxava com força, e eu, que a conhecia a fundo, sentia que, se tivesse podido, ela o teria arrancado de seu corpo e atravessado o salão carregando-o acima da cabeça, gotas de sangue sobre a cauda, e se serviria dele como de uma clava ou mandíbula de asno para arrebentar a cara de Marcello com um golpe certeiro. Ah, sim, ela teria feito isso, e só de pensar meu coração batia furioso, a garganta ressecava. Depois extrairia os olhos dos dois homens, descolaria suas carnes dos ossos da face, os morderia. Sim, sim, eu senti que queria, queria que acontecesse. Fim do amor e daquela festa insuportável, nada de afagos numa cama de Amalfi. Arrasar imediatamente qualquer coisa ou pessoa do bairro, fazer um massacre, escaparmos eu e Lila, ir embora para longe, descendo juntas com alegre desperdício todos os degraus da abjeção, sozinhas, em cidades desconhecidas. Pareceu-me o justo resultado daquele dia. Se nada podia nos salvar, nem o dinheiro, nem um corpo masculino, nem os estudos, tanto melhor destruir tudo de uma vez. Em meu peito cresceu a raiva que era dela, uma força minha e alheia que me encheu do prazer de perder-me. Desejei que aquela força se expandisse. Mas me dei conta de que também estava amedrontada. Só em seguida compreendi estar condenada a ser quietamente infeliz porque sou incapaz de reações violentas, porque as temo, prefiro ficar imóvel cultivando o rancor. Lila, não. Quando deixou seu lugar, ergueu-se com tal decisão que fez a mesa tremer, os talheres nos pratos sujos, derrubando uma taça. Enquanto Stefano se apressava mecanicamente em deter a língua de vinho que corria para o vestido da senhora Solara, ela saiu a passos rápidos por uma porta secundária, puxando a cauda toda vez que se enroscava.

Pensei em correr atrás dela, segurar sua mão, sussurrar-lhe vamos, vamos embora daqui. Mas não me movi. Quem se moveu foi Stefano, que, após um instante de incerteza, a alcançou passando entre os casais que dançavam.

Olhei ao redor. Todos tinham notado que algo contrariara a esposa. Mas Marcello continuava conversando de modo cúmplice com Rino, como se fosse normal estar calçando aqueles sapatos. Os brindes cada vez mais grosseiros do comerciante de metais prosseguiam. Quem se sentia no fundo da hierarquia das mesas e dos convidados continuava tentando fazer cara de paisagem. Enfim, ninguém, exceto eu, parecia perceber que o casamento apenas celebrado — e que provavelmente duraria até a morte dos cônjuges, entre muitos filhos, numerosíssimos netos, alegrias e dores, bodas de prata, bodas de ouro —, para Lila, não importa o que o marido fizesse para obter seu perdão, já estava acabado.

 

OceanofPDF.com