História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 21 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 20

Para aplacar minha mãe, precisei arranjar um trabalho de verão. Naturalmente fui até a dona da papelaria. Ela me recebeu como quem recebe uma professora de escola ou o médico, chamou as filhas que estavam brincando nos fundos da loja, as meninas me abraçaram, me encheram de beijos, queriam que eu brincasse um pouco com elas. Quando lhe revelei que estava procurando trabalho, ela me disse que estava pronta a mandá-las ao Sea Garden imediatamente, sem esperar até agosto, só para permitir que suas filhas passassem o dia com uma garota bondosa e inteligente como eu.

“Imediatamente quando?”, perguntei.

“Na semana que vem?”

“Perfeito.”

“Posso lhe pagar um pouco mais que no ano passado.”

Aquilo finalmente me pareceu uma bela notícia. Voltei para casa contente e não mudei de humor nem quando minha mãe me disse que eu tinha muita sorte, como sempre, já que tomar banho de mar e de sol não era um trabalho.

Mais animada, no dia seguinte fui visitar a professora Oliviero. Estava chateada por ter de lhe dizer que naquele ano eu não me destacara particularmente na escola, mas tinha necessidade de encontrá-la, devia recordá-la delicadamente de me conseguir os livros do segundo ano de liceu. De resto, imaginava que ela gostaria de saber que Lila, agora que fizera um bom casamento e tinha muito tempo livre, talvez voltasse a estudar. Ler em seus olhos a reação àquela notícia me teria ajudado a apaziguar o incômodo que ela causara em mim.

Bati várias vezes, a professora não abriu. Perguntei aos vizinhos, perguntei pelo bairro e voltei uma hora depois, mas nada de a porta abrir. No entanto ninguém a tinha visto sair, e não a encontraram nem nas ruas do bairro, nem nas lojas. Como era uma mulher sozinha, idosa e que não estava bem, voltei a perguntar na vizinhança. Uma senhora que morava porta a porta com a professora se decidiu a pedir ajuda ao filho. O jovem entrou no apartamento passando pela varandinha de sua casa para uma das janelas da professora. Encontrou-a no assoalho da cozinha, de camisola, desmaiada. Chamaram o médico, que decidiu interná-la imediatamente no hospital. Levaram-na para baixo nos braços. Pude vê-la enquanto saía pelo portão, desarrumada, com o rosto todo inchado, ela, que sempre ia à escola com o maior apuro. Tinha olhos assustados. Fiz-lhe um sinal de saudação, abaixou o olhar. Ajeitaram-na em um carro que partiu à toda, buzinando ferozmente.

O calor daquele ano deve ter tido um péssimo efeito sobre os organismos mais frágeis. À tarde se ouviram no pátio os chamados dos filhos de Melina, que procuravam pela mãe com um tom cada vez mais preocupado. Como os apelos não cessavam, decidi ir ver o que estava acontecendo e topei com Ada. Ela disse nervosa, os olhos brilhando, que Melina não estava em lugar nenhum. Logo em seguida Antonio chegou ofegante, palidíssimo, nem sequer olhou para mim e partiu correndo. Logo metade do bairro procurava por Melina, até mesmo Stefano que, ainda com o avental de salsicheiro, se pôs ao volante do conversível, acomodou Ada a seu lado e explorou as ruas lentamente. Eu fiquei atrás de Antonio, corremos para cá e para lá sem nos dirigir a palavra. Por fim nos encontramos na área dos pântanos e ambos fomos caminhando pela relva alta, chamando por sua mãe. Ele estava com o rosto encavado, olheiras azuis. Peguei sua mão, queria lhe dar algum conforto, mas ele me rechaçou. Disse uma frase odiosa, disse: me deixe em paz, você não é uma mulher. Senti uma dor no peito, forte, mas justo naquele momento encontramos Melina. Estava sentada na água, estava se refrescando. O pescoço e o rosto despontavam da superfície esverdeada, os cabelos estavam encharcados, os olhos vermelhos, os lábios manchados de lama e folhinhas. Estava em silêncio, ela que há dez anos vivia gritando ou cantando seus ataques de loucura.

Então a levamos para casa, Antonio a sustentando de um lado, eu do outro. As pessoas pareceram aliviadas, a chamavam, ela cumprimentava debilmente com a mão. Ao lado da cancela vi Lila, que não tinha participado das buscas. Isolada na casa do bairro novo, a notícia só lhe chegara quando já era tarde. Eu sabia de sua forte relação com Melina, mas estranhei que, enquanto todos davam sinais de simpatia, e lá vinha Ada correndo e gritando mamãe, seguida por Stefano, que deixara o carro com as portas abertas no meio do estradão e tinha o ar feliz de quem tivera maus pensamentos e no entanto descobre que agora está tudo bem, ela estivesse à parte, com uma expressão difícil de definir. Parecia comovida pelo penoso espetáculo apresentado pela viúva, suja, o sorriso embotado, as roupas de baixo ensopadas de água e lama, sob o tecido os traços do corpo chupado, o gesto cansado com que saudava amigos e conhecidos. Mas ela também estava ferida com aquilo, até aterrorizada, quase como se sentisse dentro de si o mesmo desconcerto. Fiz-lhe um sinal, ela não retribuiu. Então passei Melina para sua filha e tentei alcançá-la, queria falar também da professora Oliviero, queria lhe contar a frase terrível que Antonio me dissera. Mas não a encontrei mais, tinha ido embora.

 

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