História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 16 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 15

Não consegui convencê-la a desistir. Num domingo, dia em que Stefano dormia até meio-dia, saímos juntas para um passeio e ela me impeliu até o bar Solara. Quando apareceu na rua nova ainda esbranquiçada de cal, fiquei boquiaberta. Vestira-se e maquiara-se de modo muito vistoso, não parecia nem a desleixada Lila de antigamente nem a Jacqueline Kennedy das revistas, mas, para ficar nos filmes de que gostávamos, talvez uma Jennifer Jones em Duelo ao sol, ou Ava Gardner em E agora brilha o sol.

Caminhando ao lado dela senti certo constrangimento e, também, uma sensação de perigo. Pareceu-me que, além da maledicência, ela ainda estava se arriscando ao ridículo, e que ambas as coisas estivessem por tabela atingindo a mim, uma espécie de cadelinha apagada, mas leal, que lhe servia de acompanhante. Tudo nela, do penteado aos brincos, da camisa cintada à saia justa e ao modo de caminhar, era inadequado às ruas cinzentas do bairro. Os olhares masculinos, ao vê-la, pareciam palpitar, como ofendidos. As mulheres, especialmente as mais velhas, não se limitavam apenas a uma expressão desorientada: uma delas chegou a parar na beira da calçada para olhar, com um risinho entre o divertido e o incomodado, como quando Melina fazia suas bizarrices pela rua.

No entanto, quando entramos no bar Solara lotado de homens que tinham ido comprar as guloseimas dominicais, houve apenas uma respeitosa troca de olhares, alguns gestos claros de cumprimento, o olhar realmente admirado de Gigliola Spagnuolo atrás do balcão, a saudação de Michele, que estava no caixa, um bom-dia exagerado que pareceu uma exclamação de júbilo. As trocas verbais que se seguiram foram todas em dialeto, quase como se a tensão impedisse que se dessem os filtros cansativos da pronúncia, do léxico, da sintaxe italiana.

“Em que posso servir?”

“Uma dúzia de doces.”

Michele gritou a Gigliola, dessa vez com uma leve tonalidade irônica:

“Doze doces para a senhora Carracci.”

Àquele nome, a cortina que dava para a cozinha se abriu e Marcello apareceu. Ao ver Lila bem ali, em seu bar-confeitaria, empalideceu e se retraiu. Mas, poucos segundos depois, se reapresentou e veio nos cumprimentar. Murmurou, virando-se para minha amiga:

“Acho estranho ouvir esse senhora Carracci.”

“Eu também”, disse Lila, e o meio sorriso divertido mais a falta total de hostilidade surpreenderam não só a mim, mas também aos dois irmãos.

Michele a reexaminou bem, com a cabeça inclinada de lado, como se estivesse observando um quadro.

“Vimos você”, disse, gritando a Gigliola: “Não é verdade, Giglió, que a avistamos justamente ontem à tarde?”

Gigliola fez sinal que sim, mas sem muito entusiasmo. Marcello também concordou — vimos, sim, vimos —, mas sem a ironia de Michele, como se ainda estivesse sob hipnose num espetáculo de mágicos.

“Ontem à tarde?”, perguntou Lila.

“Ontem à tarde”, confirmou Michele, “no Rettifilo.” Marcello tratou de abreviar, irritado com os modos do irmão:

“Você estava exposta na vitrine da costureira, havia uma foto sua vestida de noiva.”

Então passaram a falar sobre aquela foto, Marcello com devoção, Michele com ironia, ambos reiterando com formulações diversas que nela se fixara o melhor da beleza de Lila no dia de seu casamento. Ela se mostrou contrariada, mas com certa coqueteria: a costureira não lhe dissera que poria a foto na vitrine, do contrário ela jamais lhe teria dado uma cópia.

“Também quero uma foto na vitrine”, gritou Gigliola do balcão, arremedando a voz caprichosa de uma menina.

“Se alguém se casar com você”, disse Michele.

“Você vai se casar comigo”, respondeu ela enfezada, e a coisa prosseguiu assim até que Lila disse séria:

“Lenuccia também quer se casar.”

A atenção dos irmãos Solara se desviou desinteressadamente para mim, que até aquele momento me sentira invisível e não dissera uma só palavra.

“Que nada”, respondi enrubescendo.

“Como não, eu me casaria com você mesmo com esses seus óculos”, disse Michele, levando outro olhar fulminante de Gigliola.

“Tarde demais, ela já é noiva”, disse Lila. E, pouco a pouco, conseguiu conduzir a conversa com os dois irmãos até Antonio, evocando sua situação familiar e fazendo um vívido retrato de como ela se agravaria ainda mais caso ele prestasse o serviço militar. Não me espantou apenas sua habilidade com as palavras, essa eu já conhecia. O que me espantou foi o novo tom que usava, uma dosagem bem calibrada de petulância e dignidade. Lá estava ela, a boca chamejante de batom. Fazia Marcello acreditar que tinha posto uma pedra sobre o passado, fazia Michele crer que sua arrogância esperta a divertia. E, para minha grande surpresa, usava com ambos as maneiras de uma mulher que sabe perfeitamente o que é um homem, que nesse quesito não tem mais nada a aprender, ao contrário, teria muito a ensinar: ao fazê-lo, não recitava como fazíamos quando éramos novinhas, imitando romances onde apareciam damas perdidas, mas se via que seus conhecimentos eram autênticos, e isso não lhe causava vergonha. Depois, bruscamente, se tornava intratável, lançava sinais de desdém, eu sei que vocês me querem, mas eu não quero vocês. E assim se retraía, desorientando-os, tanto que Marcello ficava sem ação e Michele se preocupava, incerto sobre o que fazer, com um olhar cintilante que queria dizer: fique atenta porque, sendo ou não a senhora Carracci, lhe dou um par de tabefes, sua puta. Naquele ponto ela alterava de novo o tom, voltava a seduzi-los, mostrava-se alegre e os alegrava. O resultado? Michele não se abalou, já Marcello disse:

“Antonio não merece, mas, para contentar Lenuccia, que é uma boa garota, posso perguntar a um amigo e saber se é possível fazer alguma coisa”.

Fiquei contente, agradeci a ele.

Lila escolheu os doces, foi cordial com Gigliola e também com o pai, o confeiteiro, que apareceu da cozinha para dizer: lembranças a Stefano. Quando tentou pagar, Marcello fez um gesto decidido de recusa, e o irmão, ainda que de modo menos enfático, o apoiou. Já estávamos saindo quando Michele lhe disse sério, com a fala pausada que adotava quando queria algo e excluía qualquer discussão:

“Você está muito bem naquela foto.”

“Obrigada.”

“Dá para ver bem seus sapatos.”

“Não me lembro.”

“Mas eu me lembro, e queria lhe pedir uma coisa.”

“Quer uma foto também, quer colocá-la aqui no bar?”

Michele balançou a cabeça com um risinho frio.

“Não. Mas você sabe que estamos decorando a loja da Piazza dei Martiri.”

“Não sei nada das coisas de vocês.”

“Bem, você deveria se informar porque são coisas importantes, e todos nós sabemos que você não é tonta. Acho que, se aquela fotografia serve à costureira para fazer propaganda do vestido de noiva, nós podemos utilizá-la bem melhor para fazer publicidade dos sapatos Cerullo.”

Lila caiu na risada e disse:

“Você quer pôr a foto na vitrine da Piazza dei Martiri?”

“Não, quero colocar uma grande, enorme, dentro da loja.”

Ela pensou um instante e depois fez uma expressão de indiferença.

“Vocês não devem pedir a mim, mas a Stefano: é ele quem decide.”

Notei que os dois irmãos trocaram um olhar perplexo e compreendi que já tinham conversado entre si sobre aquela ideia, dando por certo que Lila jamais concordaria, de modo que não conseguiam acreditar que ela não tivesse feito um escândalo, que não tivesse dito imediatamente que não, mas se submetesse sem discussões à autoridade do marido. Simplesmente não a reconheciam, e naquele momento eu mesma já não sabia quem ela era.

Marcello nos acompanhou até a porta e, uma vez do lado de fora, assumiu um tom solene e disse, palidíssimo:

“É a primeira vez que conversamos depois de tanto tempo, Lina, e estou muito emocionado. Eu e você não ficamos juntos, e tudo bem, aconteceu assim. Mas não quero que fiquem coisas pouco claras entre nós. Sobretudo não quero carregar culpas que não tenho. Sei que seu marido anda dizendo por aí que, por afronta, eu quis ficar com aqueles sapatos. Mas lhe juro diante de Lenuccia: os sapatos, foram ele e seu irmão que quiseram me dar como sinal de que não havia mais nenhum rancor entre nós. Não tenho nada a ver com isso”.

Ela ficou ouvindo sem o interromper em momento algum, com uma expressão benévola no rosto. Então, assim que ele terminou, voltou a ser a mesma de sempre. E disse com desprezo:

“Vocês são como crianças, se acusando entre si.”

“Não acredita em mim?”

“Não, Marcé, eu acredito. Mas sobre isso que você disse, sobre o que eles disseram, estou cagando e andando.”

 

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