História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 20 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 19

A professora de química foi generosa comigo (ou talvez tenha sido Galiani que interferiu nisso) e me deu uma nota suficiente. Fui aprovada com sete em todas as matérias literárias, seis em todas as científicas, suficiente em religião e pela primeira vez com oito em conduta, sinal de que o padre e boa parte do conselho de classe não me perdoaram realmente. Fiquei mal, agora sentia o velho conflito com o professor de religião sobre o papel do Espírito Santo como um ato de presunção de minha parte e lamentava não ter dado ouvidos a Alfonso, que, na época, tentara me segurar. Não tive naturalmente a bolsa de estudos e minha mãe ficou com raiva, gritou que era culpa do tempo que eu perdera atrás de Antonio. A coisa me exasperou, disse que não queria estudar mais. Ela ergueu a mão para me dar uma bofetada, temeu por meus óculos e correu atrás do batedor de tapete. Em suma, dias ruins, cada vez piores. A única novidade que me pareceu positiva foi que o bedel, na manhã em que fui ver os murais, veio até mim e me entregou um pacote deixado por Galiani. Eram livros, mas não romances: livros cheios de raciocínios, um sinal delicado de confiança, mas que não bastou para me pôr para cima.

Eu estava ansiosa demais e com a impressão de estar sempre errada, não importa o que fizesse. Procurei meu ex-namorado, tanto em casa quanto no trabalho, mas em todas as ocasiões ele conseguiu me evitar. Dei um pulo na charcutaria para pedir a ajuda de Ada. Ela me tratou com frieza, disse que o irmão não queria mais me ver e a partir daquele dia, quando nos cruzávamos na rua, virava o rosto para o outro lado. Agora que eu estava sem escola, acordar de manhã se tornou algo traumático, uma espécie de choque doloroso na cabeça. No início me esforcei para ler umas páginas dos livros da Galiani, mas logo me entediava, não entendia quase nada. Voltei a pegar emprestados romances da biblioteca circulante, li um atrás do outro. Mas depois de um tempo perdi o ânimo. Propunham vidas intensas, diálogos profundos, um fantasma de realidade mais fascinante que minha vida real. Assim, para me sentir como se não fosse verdadeira, às vezes me dirigia até o colégio com a esperança de ver Nino, que estava às voltas com os exames de maturidade. No dia da redação de grego esperei-o por horas, pacientemente. Mas justo quando os primeiros candidatos começaram a sair com o Rocci debaixo do braço, surgiu a bela e impecável menina que eu tinha visto oferecendo-lhe os lábios. Ela ficou aguardando a poucos metros de mim, e no mesmo instante passei a imaginar de que modo nós duas — como figurinhas expostas num álbum — pareceríamos aos olhos do filho de Sarratore no momento em que ele saísse pelo portão. Me senti feia, desleixada, e fui embora.

Corri para a casa de Lila em busca de conforto. Mas sabia que também tinha errado com ela, tinha feito uma coisa estúpida: não lhe dissera que havia ido com Stefano recuperar a foto. Por que me mantive calada? Estava satisfeita com o papel de pacificadora que seu marido me atribuíra e pensava que poderia exercê-lo melhor silenciando sobre a ida de carro ao Rettifilo? Tinha temido trair a confiança de Stefano e então, sem me dar conta, acabei traindo a ela? Não sabia dizer. O certo é que não tinha sido realmente uma decisão minha, muito mais uma incerteza que de início se tornou fingida distração, depois a convicção de que não ter falado logo como as coisas se passaram tornava tudo ainda mais complicado, e talvez àquela altura fosse inútil remediar. Como era fácil fazer mal. Eu buscava justificativas que pudessem lhe parecer convincentes, mas não era capaz de encontrá-las nem sequer para mim. Intuía um fundo deteriorado em meus comportamentos e me calava.

Por outro lado, ela nunca demonstrou saber da existência daquele encontro. Sempre me acolhia com gentileza, deixava que eu tomasse banho em sua banheira, que usasse sua maquiagem. Mas quase não fazia comentários sobre as histórias que eu lhe contava dos romances, preferia me passar informações frívolas sobre a vida de cantores e atores que lia nas revistas. E não me comunicava mais nenhum pensamento seu, ou projeto secreto. Se eu notava algum roxo nela, se partia dali para levá-la a interrogar-se sobre as razões daquela horrível atitude de Stefano, se lhe dizia que ele talvez se tornasse cruel porque pretendia que ela o ajudasse, o amparasse em todas as adversidades, ela me olhava ironicamente, dava de ombros, escapava. Em pouco tempo entendi que, mesmo não querendo romper relações comigo, ela decidira não me fazer mais confidências. Então será que ela sabia e já não me considerava uma amiga confiável? Cheguei a espaçar minhas visitas esperando que ela sentisse minha ausência, me pedisse explicações e chegássemos a nos entender. Mas tive a impressão de que ela nem sequer se dava conta. Então não resisti e voltei a encontrá-la com assiduidade, com o que ela não se mostrou nem contente, nem descontente.

Naquele dia tórrido de julho cheguei à casa dela especialmente abatida, mas não lhe disse nada de Nino, da namorada de Nino, porque sem querer — sabe-se como são essas coisas — eu também acabei reduzindo meu jogo de confidências com ela a quase nada. Foi receptiva como sempre. Preparou uma orchata, e fiquei encolhida sorvendo a garapa gelada de amêndoas no sofá da sala de jantar, irritada com o estridor dos trens, com o suor, com tudo.

Observei-a em silêncio enquanto se movia pela casa, senti raiva por sua capacidade de percorrer os labirintos mais deprimentes apegada ao fio de sua decisão belicosa sem o dar a ver. Pensei no que o marido dissera, nas palavras sobre a potência que Lila detinha como a mola de um dispositivo perigoso. Olhei sua barriga e imaginei que de fato ali dentro, todo dia, toda noite, ela se empenhasse em sua batalha para destruir a vida que Stefano queria por força inocular-lhe. Por quanto tempo vai resistir, me questionei, mas sem ousar fazer perguntas explícitas, pois sabia que ela não acharia nada agradável.

Dali a pouco chegou Pinuccia, aparentemente uma visita entre cunhadas. Na verdade, dez minutos depois Rino também apareceu, e ambos ficaram se beijando diante de nós de maneira tão excessiva que eu e Lila trocamos olhares irônicos. Quando Pina disse que queria ver o panorama, ele a acompanhou e os dois se fecharam no quarto por uma boa meia hora.

Isso acontecia com frequência, Lila me disse com uma mistura de fastio e sarcasmo, e senti inveja da desenvoltura dos dois noivos: nada de medos, nada de desconforto, quando reapareceram estavam mais contentes que antes. Rino foi à cozinha pegar algo para beliscar, voltou, falou de sapatos com a irmã, disse que as coisas estavam indo cada vez melhor, tentou tirar sugestões dela para depois ir se exibir com os Solara.

“Você sabe que Marcello e Michele querem botar sua foto na loja da Piazza dei Martiri?”, perguntou de repente com um ar cativante.

“Não acho que seja o caso”, interveio imediatamente Pinuccia.

“Por quê?”, indagou Rino.

“Que pergunta é essa? Se Lina quiser, ela pode colocar a foto na charcutaria nova: é ela quem vai gerenciar a nova loja, não é? No entanto, se a loja da Piazza dei Martiri ficar sob meus cuidados, você permite que eu decida o que vai lá dentro?”.

Falou como se estivesse defendendo antes de tudo os direitos de Lila contra a intromissão do irmão. Na verdade, todos sabíamos que defendia a si mesma e ao próprio futuro. Estava cansada de depender de Stefano, queria largar a charcutaria e gostava de se imaginar a dona de uma loja no centro. Por isso, há um certo tempo entre Rino e Michele se combatia uma pequena guerra em cujo centro estava a gestão da sapataria, uma guerra atiçada pelas pressões das respectivas noivas: Rino insistia para que Pinuccia ficasse à frente da loja, Michele, para que fosse Gigliola. Mas Pinuccia era a mais agressiva e não tinha dúvidas de que levaria a melhor, estava consciente de poder somar a autoridade do noivo e a do irmão. Sendo assim, em toda oportunidade ela se vangloriava como se já tivesse dado um salto de qualidade, o bairro já tinha ficado para trás, e agora era ela quem estabeleceria o que era ou não adequado à elegância dos clientes do centro.

Percebi que Rino temia que a irmã passasse ao ataque, mas Lila mostrou a máxima indiferença. Então ele checou o relógio para dar a entender que estava muito ocupado e disse com o tom de quem enxerga longe: “A meu ver, aquela foto tem grandes potencialidades comerciais”, depois deu um beijo em Pina, que logo se retraiu fazendo-lhe um sinal de discordância, e foi embora.

Ficamos só nós três. Pinuccia me perguntou enfezada, esperando poder usar minha autoridade para encerrar a questão:

“Lenu, o que você acha? Concorda que a foto de Lina deva ficar na Piazza dei Martiri?”

Respondi em italiano:

“É Stefano quem deve decidir, e, como ele foi expressamente à costureira para tirar a foto da vitrine, duvido que ele dê a permissão.”

Pinuccia vibrou de satisfação, quase gritou:

“Nossa, como você é inteligente, Lenu.”

Esperei que Lila manifestasse sua opinião. Houve um longo silêncio, até que ela falou apenas para mim:

“Quanto quer apostar que você se engana? Stefano vai dar a permissão.”

“Claro que não.”

“Vai sim”.

“O que você quer apostar?”

“Se você perder, nunca mais vai poder ser aprovada com média menor que oito.”

Olhei para ela embaraçada. Não tínhamos falado de minha aprovação medíocre, achava que ela nem soubesse disso, no entanto estava informada sobre o assunto e agora me recriminava. Você não se mostrou à altura, estava dizendo, tirou notas muito baixas. Pretendia de mim o que ela teria feito em meu lugar. Queria de fato me ver presa ao papel de quem passa a vida sobre os livros, ao passo que ela tinha dinheiro, belas roupas, a casa, a televisão, o automóvel, tomava tudo para si, pretendia tudo.

“E se você perder?”, perguntei com uma nota de irritação.

De repente ela armou aquele seu olhar disparado de escuras seteiras.

“Me inscrevo numa escola particular, volto a estudar e juro que consigo o diploma junto com você e melhor que você.”

Junto com você e melhor que você. Era isso que tinha em mente? Senti como se tudo o que se agitava em mim naquele terrível período — Antonio, Nino, o descontentamento pelo nada que era minha vida — tivesse sido tragado por um suspiro de grande amplidão.

“Está falando sério?”

“E desde quando fazemos apostas de mentirinha?”

Pinuccia atalhou muito agressiva.

“Lina, não comece a bancar a louca de novo: você tem a charcutaria nova. Stefano não consegue fazer tudo sozinho.” Mas logo se conteve, acrescentando com falsa doçura: “Além do fato de que eu queria saber quando você e Stefano vão me dar um sobrinho.”

Apesar daquela fórmula adocicada, seu tom me pareceu rancoroso, e senti os motivos daquele rancor se misturarem irritantemente aos meus. Pinuccia queria dizer: você se casou, meu irmão lhe dá tudo, agora faça o que tem que fazer. De fato, qual o sentido de ser a senhora Carracci e enquanto isso fechar todas as portas, barricar-se, obstruir-se, alimentar um furor envenenado no ventre? Será possível que você sempre tenha de causar danos, Lila? Quando vai parar com isso? Quando sua energia vai se reduzir, se distrair, vai ruir finalmente como uma sentinela adormecida? Quando vai acontecer de você ceder e se sentar ao caixa, no bairro novo, com a barriga cada vez mais inchada, fazendo de Pinuccia uma tia, e a mim, e a mim, quando vai me deixar seguir meu caminho?

“Quem sabe”, respondeu Lila, enquanto voltavam a seu rosto olhos grandes e profundos.

“Será possível que vou ser mãe primeiro?”, disse a cunhada rindo.

“Se continuar assim, grudada em Rino, é possível.”

Tiveram um pequeno entrevero, e não fiquei para ouvi-las.

 

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