História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 86 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 85

Num primeiro momento pensou em ir embora de noite e voltar para Forio, mas compreendeu que o marido logo a encontraria. Então pensou em perguntar a Alfonso se Marisa sabia quando o irmão iria voltar de Ischia, mas temeu que o cunhado tocasse no assunto com Stefano e deixou para lá. Achou na lista telefônica o número da casa dos Sarratore e ligou. Donato atendeu. Ela disse que era uma amiga de Nino, ele desconversou com voz irritada e desligou. Em desespero, ela voltou à ideia de retornar à ilha e estava prestes a partir quando, numa tarde do início de setembro, Nino apareceu na soleira da charcutaria lotada, barba comprida e totalmente bêbado.

Lila deteve Carmen, que já se preparava para expulsar o jovem vagabundo — a seus olhos, um desconhecido fora de si. “Deixe comigo”, disse a ela, e o arrastou para fora. Gestos precisos, voz fria, a certeza de que Carmen Peluso não tinha reconhecido o filho de Sarratore, agora bem diferente do menino que frequentara a escola fundamental com elas.

Agiu depressa. Olhando para ela, parecia a mesma de sempre, a que sabe resolver qualquer problema. De fato, não sabia mais onde estava. As paredes cheias de mercadorias tinham desbotado, a rua tinha perdido toda definição, dissolveram-se as fachadas pálidas dos novos prédios, sobretudo não sentia mais o perigo que estava correndo. Nino, Nino, Nino: percebia apenas a alegria e o desejo. Lá estava ele diante dela, de novo finalmente, e cada traço seu proclamava de modo evidente que tinha sofrido e estava sofrendo e a procurara e a queria, tanto que tentava agarrá-la e beijá-la em plena rua.

Ela o arrastou para sua casa, pareceu-lhe o local mais seguro. Passantes? Não viu nenhum. Vizinhos de casa? Não viu nenhum. Começaram a fazer amor assim que ela fechou a porta do apartamento atrás de si. Não sentia nenhum escrúpulo. Experimentava apenas a exigência de agarrar-se a Nino, imediatamente, segurá-lo, detê-lo. E essa necessidade não se aplacou nem mesmo quando eles sossegaram. O bairro, a vizinhança, a charcutaria, as ruas, os rumores da ferrovia, Stefano, Carmen numa espera quem sabe ansiosa, tudo foi voltando lentamente, mas apenas como objetos a serem arrumados às pressas, evitando não só que fossem um estorvo, mas também cuidando para que, empilhados de qualquer jeito, não desmoronassem de repente.

Nino censurou-a por ter ido embora sem nem lhe avisar, a apertou, a queria mais uma vez. Exigia que fossem embora imediatamente, juntos, mas não sabia dizer para onde. Ela lhe respondia que sim, sim, sim, e compartilhava inteiramente sua loucura, ainda que, à diferença dele, sentisse o tempo, os segundos e os minutos verdadeiros que, escoando, aumentavam enormemente o risco de serem descobertos. Por isso, abandonada junto a ele sobre o assoalho, observava a luminária que pendia do teto justo acima deles como uma ameaça, e, se antes ela só se preocupara em ter Nino imediatamente, e que tudo depois caísse, agora ela refletia sobre como mantê-lo colado a si sem que a luminária se desprendesse do teto, sem que o pavimento se abrisse e ele se precipitasse para sempre de um lado, e ela, de outro.

“Vá embora.”

“Não.”

“Você é louco.”

“Sou.”

“Por favor, eu imploro, vá embora.”

Por fim o convenceu. Esperou que Carmen lhe dissesse alguma coisa, que os vizinhos fofocassem, que Stefano voltasse da outra charcutaria para espancá-la. Nada disso aconteceu, e ela se sentiu aliviada. Aumentou o salário de Carmen, tornou-se afetuosa com o marido, inventou desculpas que lhe permitissem encontrar Nino às escondidas.

 

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