História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 47 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 46

Pouco depois conheci o amigo dele, Bruno Soccavo, um rapaz baixinho, de seus vinte anos, testa estreita, cabelo muito preto e encaracolado, rosto agradável mas marcado por uma velha acne que deve ter sido feroz.

Eles me acompanharam até a casa, seguindo pelo mar acobreado do crepúsculo. Durante todo o percurso Nino não me deu mais a mão, apesar de Bruno nos ter deixado praticamente sós: ou caminhava à frente ou ficava atrás, como se não quisesse incomodar. Já que Soccavo não me dirigiu a palavra em nenhum momento, eu fiz o mesmo; a timidez dele me intimidava. Mas quando nos separamos, na porta de casa, foi ele quem perguntou de repente: “Então nos vemos amanhã?”. Nino quis saber que praia frequentávamos e insistiu em obter indicações precisas. Expliquei com precisão.

“Vocês vão de manhã ou de tarde?”

“De manhã e de tarde, Lina precisa tomar muitos banhos.”

Prometeu que passaria para nos encontrar.

Subi as escadas de casa correndo, felicíssima, mas assim que entrei Pinuccia começou a zombar de mim.

“Mamãe”, disse a Nunzia durante o jantar, “Lenuccia está namorando o filho do poeta, aquele de cabelo comprido, seco que nem bacalhau, que se acha melhor que todo mundo”.

“Não é verdade.”

“Verdade verdadeira, vimos vocês de mãos dadas.”

Nunzia não quis entrar no deboche e tomou a coisa com a seriedade grave de sempre.

“Qual a profissão do filho de Sarratore?”

“Estudante universitário.”

“Então, se vocês se gostam, é preciso esperar.”

“Não há o que esperar, dona Nunzia, somos só amigos.”

“Porém, digamos, se acontecer de vocês namorarem, antes ele precisa terminar os estudos, depois encontrar um trabalho digno dele e só então vocês poderão se casar.”

“O que ela está lhe dizendo é que você vai criar mofo.”

Mas Nunzia a repreendeu: “Você não deve falar assim com Lenuccia”. E, para me consolar, contou que ela se casara com Fernando aos vinte e um anos, que tivera Rino aos vinte e três. Depois se dirigiu à filha e, sem maldade, só para sublinhar a situação, e disse a ela: “Já você se casou nova demais”. Diante daquela frase Lila se enfureceu e foi se trancar no quarto. Quando Pinuccia bateu na porta para dormir com ela, gritou que não a incomodasse, “você tem seu quarto”. Naquele clima, como eu faria para dizer: Nino e Bruno prometeram que virão me encontrar na praia? Desisti. Se acontecer, pensei, tudo bem; se não acontecer, por que lhe dizer? Enquanto isso, pacientemente, Nunzia acolheu a nora em sua cama, pedindo-lhe que não se chateasse com os humores da filha.

Não bastou a noite para acalmar Lila. Na segunda-feira acordou pior do que quando tinha ido dormir. É a distância do marido, justificou Nunzia, mas nem eu nem Pinuccia acreditamos nisso. Rapidamente descobri que o problema maior era eu. No caminho para a praia, obrigou-me a carregar sua bolsa e, uma vez lá, me mandou voltar duas vezes, a primeira para buscar uma echarpe, a segunda porque precisava da tesourinha para as unhas. Quando ensaiei protestar, esteve a ponto de me jogar na cara o dinheiro que me dava. Parou a tempo, mas não o suficiente para que eu não compreendesse: foi como alguém que acena lhe dar uma bofetada e depois não o faz.

Era um dia muito quente, ficamos o tempo todo na água. Lila treinou muito a flutuação e me obrigou a ficar sempre a seu lado, caso ela precisasse ser sustentada. De todo modo, prosseguiu com as maldades. Várias vezes me recriminou, disse que ela era uma tonta por confiar em mim: se eu também não sabia nadar, como podia ensinar a ela? Recordou como Sarratore era um bom instrutor e me fez jurar que, no dia seguinte, voltaríamos aos Maronti. Enquanto isso, de tanto insistir, fez grandes progressos. Tinha a capacidade de memorizar prontamente cada gesto. Graças a essa capacidade tinha aprendido a ser sapateira, a fatiar com destreza salames e provolones, a trapacear no peso. Tinha nascido assim, seria capaz de assimilar a arte do cinzel só de observar as ações de um ourives, e depois trabalharia o ouro melhor do que ele. De fato, agora já não se debatia em ânsia, impondo compostura a todo movimento como se desenhasse seu corpo sobre a superfície transparente do mar. Pernas e braços, longos, delgados, batiam na água com ritmo tranquilo, sem levantar espuma como Nino, sem a tensão evidente de Sarratore pai.

“Estou indo bem assim?”

“Está.”

Era verdade. No intervalo de poucas horas já nadava melhor que eu, para não falar de Pinuccia, e ironizava nossa falta de jeito.

Aquele clima de arrogância desapareceu bruscamente quando, por volta das quatro da tarde, Nino, que era altíssimo, e Bruno, que mal chegava a seu ombro, apareceram na praia justo quando um vento fresco soprou, nos tirando a vontade de continuar na água.

Pinuccia foi a primeira que os avistou enquanto avançavam pela orla, entre crianças que brincavam com pazinhas e baldes. Desandou a rir com a surpresa e disse: “Está chegando o verbo ‘li’”. Era verdade. Nino e o amigo, de toalha nos ombros, cigarro e isqueiro, vinham com passo ponderado, procurando-nos com o olhar entre os banhistas.

Fui tomada de uma repentina sensação de poder, gritei, agitei os braços para marcar nossa presença. Então Nino mantivera a promessa. Então tinha sentido, já no dia seguinte, a necessidade de me reencontrar. Então viera mesmo de Forio arrastando consigo o colega taciturno e, como não tinha nada em comum com Lila e Pinuccia, era evidente que só fizera aquele passeio por minha causa, a única não casada e sem namorado. Me senti feliz, e quanto mais a felicidade se confirmava — Nino estendeu sua toalha a meu lado, se sentou, apontou para mim uma parte do tecido azul, e eu, que era a única sentada na areia, imediatamente me transferi para o lado dele —, mais eu me tornava cordial e falante.

Já Lila e Pinuccia emudeceram. Pararam com toda ironia em relação a mim, pararam de bater boca entre si e ficaram ouvindo Nino, que passou a contar histórias divertidas sobre como ele e o amigo tinham organizado sua vida de estudo.

Passou algum tempo até que Pinuccia arriscasse umas palavras misturando italiano e dialeto. Disse que a água estava uma delícia, morna, que o homem que vendia coco fresco ainda não tinha passado, que ela estava com muita vontade disso. Mas Nino não deu muita bola, todo envolvido em suas histórias espirituosas, e foi Bruno, mais atento, quem se sentiu no dever de não ignorar a frase de uma senhora grávida: preocupado que o menino pudesse nascer com cara de coco, se ofereceu para ir buscá-lo. Pinuccia gostou de sua voz embargada pela timidez, mas gentil, a voz de uma pessoa que não quer fazer mal a ninguém, e começou a conversar animadamente com ele, em voz baixa, como para não perturbar.

Já Lila permaneceu calada. Não deu nenhuma importância às gentilezas que Pinuccia e Bruno trocavam entre si, mas não perdeu uma palavra do que eu e Nino dizíamos um ao outro. Aquela atenção me deixou incomodada, e umas duas vezes manifestei minha vontade de dar um passeio até as fumarolas, esperando que Nino dissesse: vamos. Mas ele começara a falar da desordem imobiliária de Ischia, de modo que concordou mecanicamente, mas depois continuou discursando. Trouxe Bruno à discussão, talvez incomodado pelo fato de o amigo conversar com Pinuccia, e o pediu que confirmasse certas destruições bem ao lado da casa de seus pais. Tinha uma grande necessidade de expressar-se, de condensar suas leituras, de dar forma ao que observara diretamente. Era sua maneira de pôr ordem nos pensamentos — falar, falar, falar —, mas certamente, pensei, também um sinal de solidão. Orgulhosamente me senti semelhante a ele, com a mesma necessidade de me conferir uma identidade culta, de impô-la, de dizer: vejam as coisas que sei, vejam como estou me transformando. Mas Nino não me deixou espaço para isso, embora às vezes — devo dizer — eu tenha tentado. Fiquei a ouvi-lo, assim como os outros, quando Pinuccia e Bruno exclamaram: “Bem, a esta altura vamos dar um passeio, vamos procurar o coco”, olhei Lila com insistência, esperei que ela fosse embora com a cunhada deixando a mim e a Nino finalmente sós, rentes um ao outro sobre a mesma toalha. Mas ela não se moveu, e, quando Pina se deu conta de que estava prestes a ir passear sozinha com um jovem gentil, mas ainda assim um desconhecido, me perguntou irritada: “Lenu, venha, você não queria dar um passeio?”. Respondi: “Sim, mas antes espere a gente terminar esta conversa; depois, se for o caso, vamos atrás de vocês”. E ela, insatisfeita, se afastou com Bruno em direção às fumarolas: eram exatamente da mesma altura.

Ficamos discutindo como Nápoles, Ischia e toda a Campania tinha ido parar nas mãos da pior gente, mas que se passava pela melhor. “Predadores”, definiu-os Nino num crescendo, “devastadores, sanguessugas, pessoas que faturam malas de dinheiro e não pagam impostos: construtores, advogados de construtores, camorristas, monárquico-fascistas e democrata-cristãos que se comportam como se o cimento se empastasse no céu e o próprio Deus, com uma enorme colher de pedreiro, o lançasse em blocos sobre as colinas, sobre o litoral”. Mas não é que nós três estivéssemos discutindo. Era sobretudo ele quem discutia, eu de vez em quando recorri a umas informações que tinha lido no Cronache Meridionali. Quanto a Lila, interveio uma só vez e com muita cautela, quando na lista dos canalhas ele incluiu os bodegueiros. Perguntou:

“Quem são os bodegueiros?”.

Nino parou no meio de uma frase e a olhou espantado:

“Os comerciantes.”

“E por que os chama de bodegueiros?”.

“É assim que se diz.”

“Meu marido é bodegueiro.”

“Eu não queria ofender.”

“Não me ofendi.”

“Vocês pagam os impostos?”

“É a primeira vez que ouço falar disso.”

“É mesmo?”

“É.”

“Os impostos são importantes para planejar a vida econômica de uma comunidade.”

“Se você está dizendo... Você se lembra de Pasquale Peluso?”.

“Não.”

“Ele é pedreiro. Sem todo esse cimento ele perderia o emprego.”

“Ah.”

“Mas é comunista. O pai dele, também comunista, segundo a justiça matou meu sogro, que tinha feito dinheiro com o mercado negro e a agiotagem. E Pasquale é como o pai, nunca esteve de acordo com a questão da paz, nem com os comunistas companheiros dele. Mesmo assim, ainda que o dinheiro de meu marido venha direto da grana de meu sogro, eu e Pasquale somos muito amigos.”

“Não entendi aonde você quer chegar.”

Lila fez uma careta autoirônica.

“Nem eu, esperava poder entender ouvindo vocês.”

Só isso, não disse mais nada. Mas, enquanto falava, não mostrou seu habitual tom agressivo, parecia que quisesse seriamente que a ajudássemos a compreender, visto que no bairro a vida era um grande emaranhado. Usara quase sempre o dialeto, como se assinalasse com modéstia: não uso truques, falo como sou. E tinha somado coisas esparsas com sinceridade, sem buscar, como frequentemente fazia, um fio que as mantivesse juntas. E, de fato, nem ela nem eu jamais tínhamos escutado aquela palavra-fórmula carregada de desprezo cultural e político: bodegueiros. E, de fato, tanto ela como eu ignorávamos tudo sobre os impostos: nossos pais, amigos, namorados, maridos e parentes se comportavam como se eles não existissem, e a escola não ensinava nada que se relacionasse vagamente com a política. Mesmo assim Lila conseguiu de algum modo bagunçar o que até aquele momento tinha sido uma tarde nova e intensa. Logo depois daquela troca de frases, Nino tentou retomar a argumentação, mas se atrapalhou e voltou a contar anedotas engraçadas sobre a vida em comum com Bruno. Disse que só comiam ovo frito e salsicha, e que bebiam litros de vinho. Depois pareceu constrangido por suas histórias e demonstrou alívio quando Pinuccia e Bruno, com os cabelos molhados de quem acabou de dar um mergulho, voltaram comendo coco.

“Me diverti muito”, exclamou Pinuccia, mas com o ar de quem quer dizer: vocês são duas grandíssimas sacanas, me mandaram passear sozinha com um cara que não sei quem é.

Quando os dois rapazes se despediram, acompanhei-os por um trecho, só para deixar claro que eram meus amigos e que tinham vindo por minha causa.

Nino falou contrariado:

“Lina se perdeu completamente, que pena”.

Fiz sinal que sim, me despedi deles, fiquei um tempo com os pés na água para me acalmar.

Quando voltamos para casa, eu e Pinuccia estávamos alegres, Lila, pensativa. Pinuccia contou a Nunzia sobre a visita dos dois rapazes e, inesperadamente, se mostrou contente com Bruno, que fizera de tudo para que o filho não nascesse com cara de coco. É um rapaz direito, disse, estudante, mas sem ser chato demais: parece não se importar com o que veste, mas tudo o que tem no corpo, do calção de banho à camisa e às sandálias, é coisa cara. Mostrou-se curiosa com o fato de que se pudesse ter dinheiro de modo diferente ao de seu irmão, de Rino, dos Solara. Disse uma frase que me espantou: no bar da praia, ele me comprou isso e mais aquilo, mas sem se exibir.

A sogra, que durante as férias nunca tinha ido à praia, cuidando apenas das compras, da casa, de preparar o jantar e o almoço que levávamos para o mar no dia seguinte, escutou como se a nora falasse de um mundo encantado. Naturalmente percebeu logo que a filha estava com a cabeça nas nuvens, e várias vezes lhe lançou olhares interrogativos. Mas Lila realmente estava distraída. Não criou problema de nenhum tipo, readmitiu Pinuccia em sua cama, desejou boa noite a todos. Então fez uma coisa totalmente inesperada. Eu tinha acabado de me deitar quando ela apareceu no quartinho.

“Você me empresta um de seus livros?”, pediu.

Olhei para ela perplexa. Queria ler? Há quanto tempo não abria um livro? Três, quatro anos? E por que justamente agora decidira recomeçar? Peguei o volume de Beckett, aquele que eu usava para matar mosquitos, e o dei a ela. Pareceu-me o texto mais acessível que eu tinha.

 

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