História do novo sobrenome
Capítulo 90
Que as pessoas, mais ainda que as coisas, perdessem suas margens e se esvaíssem sem forma foi o que mais assombrou Lila ao longo da vida. Ficara aterrorizada com a desmarginação do irmão, que amava mais que qualquer outro parente, e em pânico com a dissolução de Stefano na passagem de noivo a marido. Só fiquei sabendo pelos seus cadernos o quanto a noite de núpcias a tinha marcado, e como temia uma possível perturbação do corpo do marido, sua deformação pelos impulsos internos do desejo ou da raiva ou, ao contrário, das intenções sub-reptícias, das vilezas. Especialmente de noite temia acordar e encontrá-lo deformado na cama, reduzido a excrescências que explodiam por excesso de humor, a carne que pendia descolada, e com ela tudo ao redor, os móveis, todo o apartamento e ela mesma, sua esposa, esmagada, tragada por aquele fluxo imundo de matéria viva.
Quando fechou a porta atrás de si e, como se estivesse dentro de um rastro branco de vapor que a tornava invisível, atravessou o bairro com sua mala, pegou o metrô e chegou aos Campi Flegrei, Lila teve a impressão de ter deixado para trás um espaço mole, habitado por formas já sem definição, e de finalmente se dirigir para uma estrutura capaz de contê-la inteira, inteira, sem que ela e as figuras à sua volta se rompessem. Chegou ao destino por ruas desoladas. Arrastou a mala para o segundo andar de um conjunto popular, até um apartamento de dois cômodos, escuro, malconservado, ocupado por velhos móveis de péssima fatura, um banheiro que só tinha a privada e uma pia. Foi ela quem fez tudo, Nino precisava se preparar para os exames e, além disso, estava trabalhando em um novo artigo para o Mattino e na reelaboração do anterior em um ensaio que, recusado por Cronache meridionali, recebera a aceitação imediata de uma revista chamada Nord e Sud. Tinha achado a casa, tinha contratado o aluguel, tinha pagado três meses antecipados. Agora, assim que entrou, se sentiu tomada de uma grande alegria. Descobriu com surpresa o prazer de ter abandonado quem, ao contrário, parecia ser para sempre, necessariamente, uma parte dela. Prazer, sim, ela escreveu assim. Não sentiu minimamente a perda dos confortos do bairro novo, não percebeu o cheiro de mofo, não viu a mancha de umidade num canto do quarto de dormir, não notou a luz cinzenta que mal entrava pela janela, não se deprimiu com o ambiente que sugeria de pronto o retorno à miséria da infância. Ao contrário, se sentiu como se, por uma magia benévola, tivesse desaparecido de um lugar onde sofria e reaparecido em outro local, que lhe prometia a felicidade. Experimentou, acho, mais uma vez o fascínio de se autoeliminar: basta com tudo o que tinha sido; basta com o estradão, os sapatos, as charcutarias, o marido, os Solara, a Piazza dei Martiri; basta também de mim, da esposa, da mulher, acabada longe, perdida. Tinha conservado de si apenas a amante de Nino, que chegou à noite.
Estava visivelmente emocionado. Ele a abraçou, a beijou, olhou ao redor desorientado. Trancou portas e janelas como se temesse irrupções repentinas. Fizeram amor, pela primeira vez numa cama depois da noite em Forio. Depois ele se levantou, começou a estudar, queixou-se várias vezes da iluminação fraca. Ela também deixou a cama e o ajudou a repassar a matéria. Foram dormir às três da manhã, depois de reverem juntos o artigo para Il Mattino, e dormiram abraçados. Lila se sentiu segura, embora lá fora chovesse, os vidros tremessem, a casa lhe fosse estranha. Como era novo o corpo de Nino, longo, delgado, tão distante do de Stefano. Como era excitante seu cheiro. Teve a impressão de estar vindo de um mundo de sombras e de ter chegado a um lugar onde finalmente a vida era verdadeira. De manhã, assim que apoiou os pés no assoalho, precisou correr ao banheiro para vomitar. Fechou a porta para que Nino não ouvisse.
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