História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 77 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 76

Com as primeiras luzes da manhã Stefano saiu do quarto de casal; Lila, não. Falou:

“Preparem as bagagens, vamos embora.”

Nunzia não conseguiu se controlar e, furiosa, apontou os prejuízos que ele causara à proprietária, disse que era preciso ressarci-la. Ele respondeu — como se muitas das palavras que ela lhe gritara horas antes tivessem ficado em sua memória e ele sentisse a urgência de pôr os pingos nos is — que sempre tinha pagado e que continuaria pagando. “Esta casa fui eu que paguei”, listou com voz baixa, “as férias de vocês fui eu que paguei, tudo o que vocês duas têm, e seu marido, e seu filho, fui eu que dei, por isso não me encham o saco: façam as bagagens e vamos embora.”

Nunzia não deu um pio. Logo depois Lila saiu do quarto com um vestido amarelo de mangas compridas e grandes óculos escuros, desses de estrela do cinema. Não nos dirigiu a palavra. Nem no Porto, nem no ferry, nem mesmo quando chegamos ao bairro. Foi para casa com o marido sem nem se despedir.

Quanto a mim, decidi que a partir daquele momento viveria para cuidar apenas de mim, e fiz isso logo depois de voltar a Nápoles, impondo-me uma atitude de absoluto distanciamento. Não procurei Lila, não procurei Nino. Aceitei sem replicar os ataques de minha mãe, que me acusou de ter levado uma vida de madame em Ischia sem pensar que, em casa, havia necessidade de dinheiro. Até meu pai — que não parou de elogiar meu aspecto saudável, a cor dourada de meus cabelos — me espicaçou: assim que minha mãe me agrediu diante dele, imediatamente a apoiou. “Você já é grande”, disse, “veja que é preciso ajudar.”

De fato, ganhar algum dinheiro era mais que urgente. Eu poderia cobrar de Lila o que ela me prometera como compensação por minha permanência em Ischia, mas, depois de minha decisão de me afastar dela, e sobretudo depois das palavras brutais que Stefano dissera a Nunzia (e, de algum modo, também a mim), não o fiz. Pelo mesmo motivo, rejeitei enfaticamente que ela comprasse meus livros escolares como fizera no ano anterior. Uma vez em que encontrei Alfonso, pedi que lhe dissesse que eu já tinha providenciado os livros para aquele ano e encerrei o assunto.

No entanto, depois de Ferragosto me reapresentei na livraria de Mezzocannone e, em parte porque eu tinha sido uma vendedora eficiente e disciplinada, em parte pelo meu aspecto, que melhorara muito graças ao sol e ao mar, o proprietário me recontratou após alguma hesitação. Entretanto exigiu que eu não me demitisse quando as aulas recomeçassem, mas continuasse trabalhando nem que fosse só de tarde, durante o período de venda dos livros didáticos. Aceitei e passei longas horas na livraria acolhendo professores que, com bolsas cheias, vinham vender por poucas liras os livros recebidos de brinde das editoras, e estudantes que, por ainda menos, vendiam seus livros surrados.

Vivi uma semana de pura angústia porque minha menstruação não chegava. Temi que Sarratore tivesse me engravidado, me desesperei, por fora mostrava boas maneiras, por dentro, terror. Passei noites sem dormir, mas não busquei conselho ou consolo de ninguém, guardei tudo para mim. Finalmente, numa tarde em que eu estava na livraria, fui ao banheiro imundo da loja e descobri o sangue. Foi um dos raros momentos de bem-estar daquele período. A menstruação me pareceu uma espécie de eliminação simbólica e definitiva da irrupção de Sarratore em meu corpo.

Nos primeiros dias de setembro me ocorreu que Nino já devia ter voltado de Ischia, e comecei a temer e a esperar que ele aparecesse pelo menos para um oi. Mas não se fez vivo nem na livraria, nem no bairro. Quanto a Lila, só a vi de relance umas duas vezes, num domingo, enquanto voava de carro pelo estradão ao lado do marido. Aqueles poucos segundos foram suficientes para me deixar com raiva. O que tinha acontecido? Como ela arranjara as coisas? Continuava tendo tudo, se apropriando de tudo: o carro, Stefano, a casa com banheira, telefone e televisão, os belos vestidos, o conforto. Além disso, vai saber que planos ela ia armando no segredo daquela cabeça. Eu a conhecia muito bem e me dizia que ela não desistiria de Nino nem se Nino desistisse dela. Mas tratei de enxotar aqueles pensamentos e respeitar o acordo que fizera intimamente: planejar minha vida sem eles e aprender a não sofrer com isso. Para tanto, me concentrei numa espécie de autoadestramento a reagir pouco ou quase nada. Aprendi a reduzir minhas emoções ao mínimo: se o patrão tentava me tocar, eu o rechaçava sem indignação; se os clientes eram grosseiros, eu fazia cara de paisagem; até com minha mãe consegui me manter sempre controlada. Dizia a mim mesma todos os dias: sou o que sou e não posso senão me aceitar; nasci assim, nesta cidade, com este dialeto, sem dinheiro; vou dar aquilo que posso dar, vou pegar aquilo que posso pegar, vou suportar o que tiver de suportar.

 

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