História do novo sobrenome
Capítulo 44
Passamos o dia todo nos Maronti, eu, brincando com as crianças e tomando banho com elas, Pinuccia e Lila totalmente absorvidas por Donato, que, entre outras coisas, as arrastou numa caminhada até umas fontes de água quente. No final Pinuccia estava exausta e, para voltarmos para casa, Sarratore nos indicou uma maneira cômoda e agradável. Chegamos a um hotel que se via quase sobre a água como uma palafita e, ali, por uns trocados, pegamos o barco de um velho marinheiro.
Assim que entramos pelo mar, Lila comentou irônica:
“Nino não lhe deu corda”.
“Precisava estudar.”
“E não podia nem dizer tchau?”
“Ele é assim.”
“E isso é péssimo”, se intrometeu Pinuccia. “O que o pai tem de simpático o filho tem de grosseiro.”
Ambas estavam convencidas de que Nino não tinha demonstrado atenção nem simpatia por mim, e deixei que acreditassem, preferindo manter prudentemente meus segredos. De resto, achei que, se elas pensassem que até uma estudante excelente como eu não tinha merecido nem um olhar sequer, as duas digeririam mais facilmente o fato de que ele as ignorara e talvez até o perdoassem. Queria protegê-lo do ressentimento delas, e parece que consegui: ambas o esqueceram rapidamente, Pinuccia se entusiasmou com as maneiras cavalheirescas de Sarratore e Lila disse satisfeita:
“Ele me ensinou a boiar, e até como se nada. É ótimo”.
O sol estava se pondo. Os assédios de Donato me voltaram à mente, estremeci. Do céu violeta vinha um sopro frio. Falei a Lila:
“Foi ele quem escreveu que o painel da loja na Piazza dei Martiri era horrível”.
Pinuccia fez uma expressão satisfeita de consenso. Lila disse:
“Ele tinha razão”.
Fiquei nervosa:
“E foi ele quem arruinou Melina”.
Lila respondeu com uma risadinha:
“Ou quem sabe, pelo menos uma vez, a fez se sentir bem”.
Aquela tirada me feriu. Eu sabia o que Melina tinha sofrido, o que seus filhos sofriam. Também conhecia os tormentos de Lidia e como Sarratore, por trás dos modos gentis, ocultava um desejo que não respeitava nada nem ninguém. Nem me esquecera de quanta dor Lila experimentara desde pequena, assistindo aos sofrimentos da viúva Cappuccio. Então de onde vinha aquele tom, qual o sentido daquelas palavras, um sinal para mim? Queria me dizer: você é uma garotinha, não sabe nada dos desejos de uma mulher? Mudei bruscamente de ideia sobre não revelar meus segredos. Quis logo mostrar que eu era uma mulher como elas e que sabia das coisas.
“Nino me deu o endereço dele”, disse a Lila. “Se você não se incomodar, quando Stefano e Rino vierem, vou visitá-lo”.
Endereço. Ir visitá-lo. Frases ousadas. Lila apertou os olhos, uma linha muito nítida riscou-lhe a fronte alta. Pinuccia lançou um olhar malicioso, tocou-lhe um joelho, riu:
“Viu só? Amanhã Lenuccia vai a um encontro. E tem até o endereço”.
Me exaltei:
“Bom, se vocês vão passar o dia com seus maridos, eu vou fazer o quê?”.
Por um longo instante predominaram o barulho do motor, a presença muda do marinheiro ao timão.
Lila disse fria:
“Fazer companhia a mamãe. Não a trouxe aqui para você se divertir”.
Me controlei para não rebater. Tínhamos tido uma semana de liberdade. Além disso, naquele dia, tanto ela quanto Pinuccia, na praia, debaixo do sol, durante os demorados banhos e graças às palavras que Sarratore sabia usar para fazê-las rir ou cortejá-las, tinham se esquecido de si. Donato as fizera se sentir mulheres-meninas entregues a um pai anômalo, daqueles raros que não punem, mas nos encorajam a exprimir os desejos sem que você se sinta culpada. E agora que o dia tinha acabado, eu, enquanto anunciava que teria um domingo só para mim, com um estudante da universidade, estava fazendo o quê? Recordava a ambas que a semana de suspensão de seu estatuto de esposas tinha terminado e que seus maridos estavam de retorno? Sim, eu tinha exagerado. Segure a língua, pensei, não a deixe irritada.
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