História do novo sobrenome
Capítulo 125
Não disse a ela nem sobre o que meu livro falava, nem quando chegaria às livrarias. Não lhe falei sequer sobre Pietro, do plano de nos casarmos daqui a dois anos. Sua vida me esmagou, demorei dias para restituir contornos nítidos e espessura à minha. O que me restituiu definitivamente a mim mesma — mas qual mim mesma? — foram as provas do livro: cento e trinta e nove páginas, papel grosso, as palavras do caderno que eu preenchera com minha grafia tornadas agradavelmente estranhas graças aos caracteres impressos.
Passei horas felizes lendo, relendo, corrigindo. Fora fazia frio, um vento gelado se infiltrava pelas esquadrias desconexas. Estava sentada na mesa da cozinha com Gianni e Elisa, que estudavam. Minha mãe mourejava à nossa volta, mas com surpreendente cautela, para não perturbar.
Em pouco tempo fui de novo a Milão. Daquela vez me concedi um táxi pela primeira vez na vida. O redator calvo, ao final de um dia de trabalho todo dedicado a sopesar as últimas correções, me disse: “Vou chamar um táxi para você”, e eu não soube dizer não. Assim aconteceu que, quando fui de Milão a Pisa, na estação olhei ao redor e pensei: por que não, vamos bancar a madame outra vez. E a tentação se reapresentou quando voltei a Nápoles, no caos da Piazza Garibaldi. Gostaria de chegar ao bairro de táxi, sentada confortavelmente no assento de trás, um motorista a meu serviço que, uma vez na entrada do prédio, abriria a porta para mim. Entretanto voltei para casa de ônibus, não me senti à vontade. De todo modo eu devia ter algo que me tornava diferente, porque, quando cumprimentei Ada passeando com a menina, ela me olhou distraidamente e seguiu em frente. Mas depois se deteve, voltou atrás e me disse: “Como você está bem, não tinha reconhecido, você virou outra”.
Num primeiro momento fiquei contente, mas depois desanimei. Que vantagem haveria em se transformar numa outra? Queria continuar como eu era, vinculada a Lila, ao pátio, às bonecas perdidas, a dom Achille, a tudo. Era a única maneira de sentir intensamente o que estava acontecendo comigo. Por outro lado, é difícil resistir às modificações, e naquele período, independentemente de mim, mudei mais que nos anos de Pisa. Na primavera o livro saiu: muito mais que o diploma, foi ele que me deu uma nova identidade. Quando mostrei um exemplar a minha mãe, a meu pai, a meus irmãos, eles o passaram em silêncio, mas sem o folhear. Fixavam a capa com sorrisos duvidosos, me pareceram agentes de polícia diante de um documento falso. Meu pai falou: “É meu sobrenome”, mas sem satisfação, como se de repente, em vez de estar orgulhoso de mim, tivesse descoberto que eu tinha roubado uns trocados de seu bolso.
Depois os dias passaram e saíram as primeiras resenhas. Li cada uma delas com ansiedade, ferida por qualquer tom de crítica, mesmo que leve. Li em voz alta para toda a família as mais benevolentes, meu pai se iluminou. Elisa disse debochada: “Você deveria assinar Lenuccia, Elena é um nojo”.
Naqueles dias agitados minha mãe comprou um álbum de fotografias e começou a pôr ali tudo o que escreviam de bom sobre mim. Numa manhã me perguntou:
“Como se chama seu noivo?”
Ela sabia, mas tinha algo em mente e, para me comunicar, decidiu partir dali.
“Pietro Airota.”
“Então você vai se chamar Airota.”
“Sim.”
“E se fizer outro livro, na capa vai aparecer Airota?”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque gosto de Elena Greco.”
“Eu também”, me disse.
Mas nunca me leu. E não me leu meu pai, nem Peppe, nem Gianni, nem Elisa; no início nem o bairro leu meu livro. Certa manhã veio um fotógrafo, ficou duas horas comigo, primeiro nos jardinzinhos, depois no estradão, depois na entrada do túnel, tirando fotos. Mais tarde apareceu uma delas no Mattino, esperei que os passantes me parassem na rua, que me lessem por curiosidade. No entanto ninguém, nem mesmo Alfonso, Ada, Carmen, Gigliola, Michele Solara — que não era de todo estranho ao alfabeto como o irmão Marcello —, ninguém me disse na primeira ocasião: seu livro é bom ou, sei lá, seu livro é ruim. Apenas me cumprimentavam efusivamente e seguiam adiante.
Tive de lidar pela primeira vez com leitores em uma livraria de Milão. O encontro — logo descobri — tinha sido fortemente pressionado por Adele Airota, que estava acompanhando à distância o percurso do livro e veio de Gênova só para a ocasião. Passou no hotel para me buscar, me fez companhia durante toda a tarde, procurou me acalmar com discrição. Eu tinha um tremor nas mãos que não passava, tropeçava nas palavras, sentia a boca amarga. Acima de tudo estava zangada com Pietro, que tinha ficado em Pisa, sempre ocupado. Já Mariarosa, que morava em Milão, apareceu animada antes do encontro, depois tinha um compromisso.
Fui à livraria assustadíssima. A saleta estava lotada, entrei de olhos baixos. Estava para desmaiar de emoção. Adele cumprimentou muitos dos presentes, eram amigos e conhecidos. Sentou-se na primeira fila, me lançou olhares encorajadores, se virou de tanto em tanto para conversar com uma senhora da mesma idade, sentada atrás dela. Até aquele momento eu só tinha falado em público duas vezes, forçada por Franco, e o público era composto de seis ou sete companheiros que sorriam compreensivos. A situação agora era diferente. Tinha diante de mim uns quarenta estranhos de ar fino e cultivado, que me fixavam em silêncio, com um olhar sem simpatia, em grande parte constrangidos a estar ali pelo prestígio dos Airota. Queria me levantar e fugir correndo.
Mas o ritual começou. Um velho crítico, professor universitário muito estimado na época, falou todo o bem possível sobre meu livro. Não entendi nada de sua fala, só pensei no que eu deveria dizer. Me retorcia sobre a cadeira, tinha dor de barriga. O mundo tinha ido embora, em desordem, e eu não conseguia encontrar em mim a autoridade para trazê-lo de volta e reordená-lo. Entretanto fingi desenvoltura. Quando chegou minha vez, falei sem saber bem o que estava dizendo, falei para não ficar em silêncio, e gesticulei demais, exibi excessiva competência literária, ostentei demais minha cultura clássica. Depois caiu o silêncio.
O que estavam pensando de mim as pessoas à minha frente? Como estava avaliando minha fala o crítico e professor a meu lado? E Adele, por trás de seu ar de senhora condescendente, estava se arrependendo de ter me apoiado? Quando olhei para ela me dei conta imediatamente de que eu estava implorando com os olhos o conforto de um sinal de concordância e me envergonhei. Enquanto isso o professor a meu lado tocou meu braço como para me acalmar e convidou o público a intervir. Muitos olharam embaraçados os próprios joelhos, o piso. O primeiro a falar foi um senhor maduro, de óculos grossos, muito conhecido dos presentes, mas não de mim. Só de escutar sua voz Adele fez uma expressão de fastio. O homem falou longamente sobre a decadência da editoria, que agora perseguia mais o lucro que a qualidade literária; então passou à conivência mercantil dos críticos e das páginas de cultura dos jornais; por fim se concentrou em meu livro, primeiro ironicamente, depois, citando as páginas mais ousadas, com um tom ostensivamente hostil. Fiquei vermelha e, mais que responder, balbuciei coisas genéricas, fora do tema. Até que parei exausta e fixei o tampo da mesa. O professor-crítico me encorajou com um sorriso, um olhar, achando que eu quisesse prosseguir. Quando se deu conta de que eu não tinha essa intenção, indagou seco:
“Mais alguém?”
No fundo se ergueu uma mão.
“Por favor.”
Um jovem alto, de cabelos encaracolados e compridos, barba muito preta e cheia, falou de modo desdenhosamente polêmico sobre a intervenção precedente e, de vez em quando, até da apresentação feita pelo bom homem a meu lado. Disse que vivíamos num país provincianíssimo, onde toda ocasião era boa para se lamentar, mas enquanto isso ninguém arregaçava as mangas e reorganizava as coisas tentando fazê-las funcionar. Depois passou a louvar a força modernizadora de meu romance. Eu o reconheci sobretudo pela voz, era Nino Sarratore.
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