História do novo sobrenome
Capítulo 6
Faço isso de novo agora, com a imaginação, enquanto começo a contar sua viagem de núpcias não só como ela me relatou ali, no patamar da escada, mas como mais tarde li em seus cadernos. Eu tinha sido injusta com ela, preferi acreditar em uma fácil capitulação de sua parte para poder degradá-la, assim como eu me sentira degradada quando Nino deixara o salão de festa, quis diminuí-la para não sentir sua perda. Mas, encerrada a recepção, lá estava ela dentro do conversível, o chapeuzinho azul, o tailleur pastel. Estava com os olhos queimando de ódio e, assim que o carro deu a partida, atacou Stefano com palavras e frases as mais insuportáveis para um homem do nosso bairro.
Ele engoliu os insultos segundo seu costume, com um sorriso manso, sem dar um pio, e ela por fim se calou. Lila voltou à carga com calma, apenas um pouco ansiosa. Disse que não queria estar naquele carro nem mais um minuto, que lhe dava nojo respirar o mesmo ar que ele, que queria descer imediatamente. Stefano realmente viu o asco em seu rosto, mas continuou dirigindo sem dizer nada, tanto que ela tornou a erguer a voz para obrigá-lo a parar. Então ele parou no acostamento e, quando Lila de fato tentou abrir a porta, agarrou seu braço com firmeza.
“Agora me escute bem”, disse devagar, “há razões sérias para o que aconteceu.”Então lhe explicou pacatamente como as coisas se deram. Para evitar que a fábrica de calçados fechasse antes mesmo de abrir as portas para valer, fora necessário fazer uma sociedade com Silvio Solara e filhos, os únicos capazes de garantir não só a colocação dos calçados nas melhores lojas da cidade, mas inclusive a abertura na Piazza dei Martiri, até o outono, de uma loja exclusiva de sapatos Cerullo.
“Mas que se fodam suas necessidades”, o interrompeu Lila, desvencilhando-se dele.
“Minhas necessidades são as suas, você é minha esposa.”
“Eu? Eu não sou mais nada para você, nem você para mim. Largue meu braço.”
Stefano soltou seu braço.
“Também seu pai e seu irmão não contam nada?”
“Lave a boca quando falar deles, você não é digno nem de nomeá-los.”
Mas Stefano disse seus nomes. Disse que o acordo com Silvio Solara tinha sido aceito pelo próprio Fernando, em pessoa. Disse que o maior obstáculo tinha sido Marcello, furioso com Lila, com toda a família Cerullo e especialmente com Pasquale, Antonio e Enzo, que arrebentaram seu carro e lhe deram uma tremenda surra. Disse que foi Rino quem o apaziguou, que foi preciso muita paciência e que, no fim das contas, quando Marcello lhe disse: então quero os sapatos que Lila fez, Rino respondeu tudo bem, pode ficar com os sapatos.
Foi um momento terrível, Lila sentiu uma pontada no peito. Mas mesmo assim gritou:
“E você fez o quê?”
Stefano vacilou por um instante.
“E o que eu podia fazer? Brigar com seu irmão, arruinar sua família, deixar que começassem uma guerra contra seus amigos, perder todo o dinheiro que investi?”
Em cada palavra, pelo tom e pelo que era dito, Lila ia percebendo uma admissão hipócrita de culpa. Não o deixou sequer terminar e começou a golpeá-lo no ombro com os punhos, gritando:
“Então você também disse tudo bem, foi buscar os sapatos e os deu de presente a ele”.
Stefano a deixou falar e só quando ela tentou mais uma vez abrir a porta e fugir, ele lhe disse, frio: se acalme. Lila se virou bruscamente: se acalmar depois de ter jogado a culpa em seu pai e seu irmão, se acalmar quando os três a trataram como um pano de chão, um trapo? Não quero me acalmar, gritou, seu bosta, me leve agora para minha casa, o que você me disse agora vai ter que repetir na frente daqueles dois homens de merda. E só quando pronunciou aquela expressão em dialeto, uommen’e mmerd, se deu conta de que havia rompido a barreira dos tons comedidos de seu marido. Um instante depois, Stefano lhe bateu na cara com a mão pesada, um tapa violentíssimo, que lhe pareceu uma explosão de verdade. Ela estremeceu, surpresa, com uma dolorosa ardência na bochecha. Olhou para ele incrédula, enquanto o marido arrancava com o carro e dizia, com uma voz que pela primeira vez se mostrava agitada e trêmula desde que começara a seduzi-la:
“Viu o que você me obrigou a fazer? Não percebe que está exagerando?”
“Nós erramos tudo”, murmurou ela.
Mas Stefano negou decidido, como se não quisesse considerar aquela possibilidade, e fez um longo discurso, entre o ameaçador, o didático e o patético. Grosso modo falou o seguinte:
“Nós não erramos nada, Lina, só precisamos esclarecer algumas coisas. Você não se chama mais Cerullo. Você é a senhora Carracci e deve fazer o que eu lhe digo. Entendo, você não tem prática, não sabe o que é o comércio, acha que dinheiro dá em árvore. Mas não é assim. Preciso cuidar do dinheiro todos os dias, colocá-lo onde ele possa render. Você desenhou os sapatos, seu pai e seu irmão são bons trabalhadores, mas vocês três juntos não são capazes de fazer o dinheiro render frutos. Os Solara, sim, e então — me escute bem — não estou nem aí se você não gosta dessa gente. Marcello também me dá nojo, e quando ele olha para você, mesmo de viés, quando penso nas coisas que disse a seu respeito, tenho vontade de meter uma faca na barriga dele. Mas, se ele me for útil para fazer o dinheiro render, então se torna automaticamente meu melhor amigo. E sabe por quê? Porque, se o dinheiro não cresce, já não podemos ter este carro, não posso mais comprar esse seu vestido, perdemos até a casa com tudo o que está dentro e, no fim das contas, você não vai poder bancar a senhorinha, e nossos filhos vão crescer como mendigos. Portanto ouse só mais uma vez me dizer as coisas que me falou esta noite e eu arrebento esse seu rostinho bonito, de modo que você não vai poder nem mais sair de casa. Estamos entendidos? Responda.”
Lila fez seus olhos de fenda. Uma face já estava roxa, mas de resto estava palidíssima. Não respondeu.
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