História do novo sobrenome
Capítulo 23
A partir da última semana de julho fui todos os dias, inclusive domingos, ao Sea Garden com as meninas. Além das mil coisas que podiam ser necessárias às filhas da lojista, levei na bolsa de lona os livros que a Galiani me emprestara. Eram pequenos volumes que refletiam sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo tal como era e como deveria ser. A escrita se assemelhava àquela que eu via nos livros didáticos, mas era mais difícil e mais interessante. Eu não estava habituada àquele tipo de leitura, me cansava logo. Além disso, as meninas demandavam muita atenção. E depois havia o mar soporífero, o embotamento do sol que pressionava o golfo e a cidade, fantasias divagantes, desejos, a vontade sempre presente de desfazer a ordem das linhas e, com isso, toda ordem que implicasse esforço, espera de uma realização toda por vir, de me abandonar ao que estava ao alcance da mão, imediatamente alcançável, a vida bruta dos animais do céu, da terra e marinhos. Me aproximei dos dezessete anos com um olho nas filhas da dona da papelaria e um olho na Origem das desigualdades.
Num domingo senti um toque de dedos em meus olhos e uma voz feminina que me perguntou:
“Adivinha quem é.”
Reconheci a voz de Marisa e torci para que estivesse com Nino. Como eu gostaria que ele me visse embelezada pelo sol, pela água do mar, debruçada na leitura de um livro difícil. Exclamei felicíssima: “Marisa!”, e me virei num impulso. Mas Nino não estava, quem estava era Alfonso, com uma toalha azul no ombro, cigarros, isqueiro e carteira na mão, um calção de banho preto com faixa branca, ele mesmo branquíssimo, como quem nunca pegou nem um raio de sol em toda a vida.
Fiquei surpresa de encontrá-los ali, juntos. Alfonso ficara de recuperação até outubro em duas matérias e, ocupado como estava com a charcutaria, eu imaginava que estudasse aos domingos. Quanto a Marisa, eu estava certa de que estava em Barano com a família. Entretanto me disse que os pais tinham brigado no ano passado com a dona da casa, Nella, e tinham alugado com amigos do Roma um chalé em Castelvolturno. Ela voltara a Nápoles apenas por uns dias: precisava dos livros didáticos — três matérias em recuperação — e também tinha de encontrar uma pessoa. Então sorriu sedutora a Alfonso, a pessoa em questão.
Não consegui me conter, perguntei imediatamente como Nino se saíra no exame final. Ela fez uma expressão de desgosto.
“Oito em tudo e dois noves. Assim que soube do resultado, foi embora sozinho para a Inglaterra, sem um centavo no bolso. Diz que vai encontrar um trabalho e que fica por lá até aprender bem o inglês.”
“E depois?”
“Depois não sei, talvez se inscreva em economia e comércio.”
Eu tinha mil outras perguntas, queria até achar uma maneira de saber quem era aquela garota que ia esperá-lo na saída da escola e se realmente viajara sozinho ou quem sabe com ela, quando Alfonso disse, constrangido:
“Lina também está vindo.” E acrescentou: “Antonio nos trouxe de carro.”
Antonio?
Alfonso deve ter notado minha mudança de expressão, a labareda que estava explodindo em meu rosto, o espanto ciumento nos olhos. Sorriu, se apressou em dizer:
“Stefano estava ocupado com os balcões da nova charcutaria e não pôde vir. Mas Lila queria muito encontrar você, precisa lhe contar uma coisa, por isso pediu a Antonio se ele podia nos acompanhar.”
“É verdade, ela precisa lhe dizer uma coisa urgente”, reforçou Marisa batendo as mãos contentíssima, para que eu entendesse que ela já sabia de que se tratava.
O que era? Vendo e ouvindo Marisa, parecia uma coisa boa. Talvez Lila tivesse amansado Antonio e agora ele quisesse voltar comigo. Talvez os Solara tivessem finalmente mobilizado seus conhecidos e Antonio não fosse mais viajar. Foram as primeiras hipóteses que me ocorreram. Mas quando os dois apareceram excluí ambas imediatamente. Era visível que Antonio estava ali só porque, obedecendo a Lila, ele dava um sentido a seu domingo vazio, só porque o fato de ser amigo dela lhe parecia uma sorte e uma necessidade. Mas ainda estava com uma expressão infeliz, os olhos alarmados, me cumprimentou com frieza. Perguntei sobre sua mãe, me deu informações lacônicas. Olhou ao redor incomodado e mergulhou logo na água com as meninas, que estavam eufóricas com ele. Quanto a Lila, estava pálida, sem batom, o olhar hostil. Não me pareceu que tivesse algo urgente a me dizer. Sentou-se no cimento, pegou o livro que eu estava lendo, folheou-o sem dizer palavra.
Diante daquele silêncio, Marisa ficou constrangida, tentou exibir seu entusiasmo por cada coisa no mundo, depois se confundiu e foi também mergulhar. Alfonso escolheu um lugar o mais distante possível de nós e, imóvel sob o sol, se concentrou nos banhistas, como se observar gente nua que entrava e saía do mar fosse um espetáculo muito cativante.
“Quem lhe deu este livro?”
“Minha professora de latim e grego.”
“Por que você não me disse nada?”
“Não achei que lhe interessasse.”
“Por acaso você sabe o que me interessa e o que não me interessa?”
Recorri logo a um tom conciliador, mas também senti a necessidade de me vangloriar.
“Assim que terminar de ler, lhe empresto. São livros que a professora só empresta aos melhores. Nino também os lê.”
“Quem é Nino?”
Fazia de propósito? Fingia não se lembrar nem mesmo de seu nome para diminuí-lo aos meus olhos?
“Aquele do filminho do casamento, o irmão de Marisa, o filho mais velho de Sarratore.”
“O rapaz feio de quem você gosta?”
“Já lhe disse que não gosto mais. Mas ele faz coisas incríveis.”
“O quê?”
“Agora, por exemplo, está na Inglaterra. Trabalha, viaja, aprende a falar inglês.”
Fiquei emocionada só de resumir as palavras de Marisa. Disse a Lila:
“Imagine se a gente também pudesse fazer essas coisas. Viajar. Trabalhar de garçonete para nos sustentar. Aprender a falar inglês melhor que os ingleses. Por que ele pode se permitir isso e nós duas não?”
“Terminou o colégio?”
“Sim, já tirou o diploma. Mas depois vai continuar com estudos muito difíceis na universidade.”
“Ele é bom?”
“Bom que nem você.”
“Eu não estudo.”
“Não é bem assim: você perdeu a aposta e agora precisa voltar aos livros.”
“Deixe disso, Lenu.”
“Stefano não quer?”
“Tem a charcutaria nova, eu preciso ajudar.”
“Você pode estudar na loja.”
“Não.”
“Você prometeu. Disse que vamos nos diplomar juntas.”
“Não.”
“Por quê?”
Lila passou a mão várias vezes pela capa do livro, alisando-a.
“Estou grávida”, disse. E, sem esperar minha reação, murmurou: “Que calor”, deixou o livro, foi para a borda do cimento e mergulhou sem hesitação, gritando a Antonio que brincava de jogar água nas meninas e em Marisa:
“Toni, me salve.”
Voou por alguns segundos de braços abertos e então se chocou bisonhamente com a superfície da água. Não sabia nadar.
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