História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 46 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 45

Os maridos chegaram até antes do previsto. Esperávamos que viessem domingo de manhã, mas apareceram no sábado à noite, muito alegres, cada qual com uma lambreta que tinham — acho — alugado no Porto de Ischia. Nunzia preparou um jantar cheio de coisas gostosas. Falou-se do bairro, das lojas, da fase de elaboração dos novos calçados. Rino se vangloriou dos modelos que estava confeccionando com o pai, mas, no momento oportuno, meteu debaixo dos olhos de Lila vários esboços que ela examinou desinteressadamente, sugerindo umas leves modificações. Depois fomos para a mesa, e os dois jovens devoraram tudo, disputando quem se empanturrava mais. Não eram nem dez da noite quando arrastaram as mulheres a seus respectivos quartos.

Ajudei Nunzia a tirar a mesa e a lavar os pratos. Depois me fechei no quartinho, li um pouco. Estava sufocando de calor, mas temia as picadas dos mosquitos e não abri a janela. Fiquei me revirando na cama, molhada de suor: pensava em Lila, em como lentamente baixara a cabeça. É verdade, não demonstrava particular afeto pelo marido; a ternura que eu às vezes tinha visto em seus gestos no tempo do noivado se perdera; e durante o jantar frequentemente dissera palavras de desgosto sobre o modo como Stefano devorava tudo, como bebia; mas era evidente que algum equilíbrio, sabe-se lá quão precário, tinha sido alcançado. Quando ele, depois de umas frases alusivas, se dirigiu ao quarto de casal, Lila o acompanhou sem demora, sem dizer vá indo que depois eu vou, resignada a um hábito indiscutível. Entre ela e o marido não havia a alegria carnavalesca exibida por Rino e Pinuccia, mas tampouco havia uma resistência. Até tarde da noite ouvi os rumores dos dois casais, as risadas e os gemidos, as portas que se abriam, a água que escorria da torneira, o redemoinho da descarga, as portas que se fechavam. Finalmente adormeci.

No domingo tomei o café da manhã com Nunzia. Esperei até as dez que algum deles aparecesse, o que não ocorreu, e fui para a praia. Fiquei lá até o meio-dia e ninguém deu as caras. Voltei para casa, Nunzia me disse que os dois casais tinha ido passear pela ilha de lambreta, recomendando que não os esperassem para o almoço. De fato, voltaram umas três da tarde, bêbados, contentes, queimados de sol, os quatro entusiasmados com Casamicciola, Lacco Ameno, Forio. Especialmente as duas garotas tinham olhos acesos e logo me lançaram olhares maliciosos.

“Lenu”, quase gritou Pinuccia, “adivinha o que aconteceu?”

“O quê?”.

“Encontramos Nino na praia”, disse Lila.

Meu coração parou.

“Ah.”

“Nossa, como ele nada bem”, se entusiasmou Pinuccia, cortando o ar com braçadas exageradas.

E Rino:

“Não é antipático: ficou interessado na fabricação dos sapatos”.

E Stefano:

“Tem um amigo que se chama Soccavo, que é o Soccavo das mortadelas: o pai é dono de uma fábrica de embutidos em San Giovanni em Teduccio”.

E de novo Rino:

“Aquele, sim, tem dinheiro”.

E Stefano:

“Deixe pra lá o estudante, Lenu, ele não tem um centavo: fique de olho em Soccavo, melhor para você”.

Depois de umas conversas meio debochadas (viu só, Lenuccia, está para se tornar a mais rica de todas, parece quietinha e no entanto...), se retiraram de novo para os quartos.

Fiquei péssima. Tinham encontrado Nino, tinham tomado banho de mar com ele, conversado com ele, e tudo sem mim. Pus meu melhor vestido — aquele mesmo do casamento, embora fizesse calor —, penteei com cuidado os cabelos que, no sol, tinham ficado loiríssimos e disse a Nunzia que ia dar um passeio.

Fui a pé até Forio, nervosa por causa do longo percurso em solidão, pelo calor, pelo êxito incerto de minha aventura. Localizei o endereço do amigo de Nino, chamei da rua várias vezes, ansiosa, temendo que não respondesse.

“Nino, Nino.”

Ele apareceu.

“Suba.”

“Eu espero você aqui.”

Esperei, temi que me tratasse mal. No entanto saiu do portãozinho com um ar insolitamente cordial. Como era perturbador aquele seu rosto anguloso. E como eu me sentia esmagada diante de sua figura comprida, de ombros largos e tórax estreito, daquela pele lisíssima, único revestimento moreno de sua magreza, apenas ossos, músculos, tendões. Disse que o amigo viria nos encontrar mais tarde, e fomos passear pelo centro de Forio, entre as banquinhas de domingo. Me perguntou sobre a livraria de Mezzocannone. Contei que Lila me pediu que a acompanhasse nas férias, e aí pedi demissão. Não mencionei o fato de que ela me dava dinheiro, como se acompanhá-la fosse um trabalho, como se eu fosse sua empregada. Perguntei sobre Nadia, e ele disse apenas: “Tudo bem”. “Vocês se escrevem?”. “Sim.” “Todos os dias?”. “Toda semana.” Aquilo foi nossa conversa, já não tínhamos mais nada a nos falar. Não sabemos nada um do outro, pensei. Talvez eu pudesse perguntar como vão as relações com o pai, mas com que tom? De resto, não tinha visto com meus próprios olhos que iam mal? Silêncio, fiquei constrangida.

Mas ele prontamente se moveu para o único terreno que parecia justificar nosso encontro. Disse que estava contente de me ver, com o amigo só podia falar de futebol ou das matérias da faculdade. Me elogiou. Galiani tem faro, disse, você é a única menina da escola que tem um pouco de curiosidade pelas coisas que não servem para nota. E passou a falar de temas importantes, ambos recorremos imediatamente a um belo italiano, apaixonado, em que nos sabíamos excelentes. Ele começou pelo problema da violência. Citou uma manifestação pela paz em Cortona e a associou habilmente aos espancamentos que tinham ocorrido numa praça de Turim. Disse que queria entender melhor a relação entre imigração e indústria. Concordei, mas o que eu sabia sobre aquelas coisas? Nada. Nino percebeu e me contou detalhadamente uma revolta de sulistas muito novos e a dureza com que a polícia os reprimira. “Chamam os rapazes de nápoles, chamam de marroquinos, de fascistas, provocadores, anarcossindicalistas. No entanto são pessoas à margem de qualquer instituição, tão abandonados a si mesmos que, quando se enfurecem, arrebentam tudo.” Tentei dizer algo que pudesse agradá-lo e arrisquei: “Se não se tem um bom conhecimento dos problemas e se não se acham soluções a tempo, é natural que depois ocorram desordens. Mas a culpa não é de quem se rebela, a culpa é de quem não sabe governar”. Ele me olhou com admiração e disse: “É exatamente isso o que eu penso”.

Senti um prazer enorme. Me senti encorajada e, com cuidado, passei a algumas reflexões sobre como conciliar individualidade e universalidade, pescando em Rousseau e em outras reminiscências de leituras impostas por Galiani. Então perguntei a ele:

“Você leu Federico Chabod?”.

Lancei aquele nome porque era o autor do livro sobre a ideia de nação do qual eu tinha lido algumas páginas. Não sabia nada além disso, mas na escola eu aprendera a convencer os outros de que eu sabia muita coisa. Você leu Federico Chabod? Foi o único momento em que Nino demonstrou certo desânimo. Notei que ele não sabia quem era Chabod e experimentei uma sensação eletrizante de plenitude. Comecei a resumir para ele o pouco que eu tinha aprendido, mas logo entendi que saber e exibir compulsivamente o que conhecia eram ao mesmo tempo seu ponto forte e seu calcanhar de Aquiles. Sentia-se forte quando se sobressaía e frágil quando lhe faltavam as palavras. De fato, se mostrou perturbado e me interrompeu quase em seguida. Suspendeu a conversa por vias laterais, me falou das Regiões, da necessidade de implementá-las, de autonomia e descentralização, de planejamento econômico em bases regionais, assuntos de que eu nunca tinha ouvido uma palavra. Portanto nada de Chabod, e deixei o campo livre para ele. Mas gostei de ouvi-lo falar, ler a paixão em seu rosto. Seus olhos ficavam muito vivos quando se entusiasmava.

Seguimos assim por pelo menos uma hora. Alheios ao vozerio ao redor, todo escrachadamente dialetal, nos sentimos unidos, somente eu e ele, com nosso italiano controlado, com aquelas conversas que só interessavam a nós e a mais ninguém. O que estávamos fazendo? Um debate? Exercícios para, no futuro, nos medirmos com gente que aprendera a usar as palavras como nós? Uma troca de sinais para mostrarmos um ao outro que havia bases sólidas para uma amizade longa e produtiva? Um anteparo culto para o desejo sexual? Não sei. Eu certamente não tinha nenhuma paixão especial por aqueles temas, pelas coisas e pessoas reais a que se referiam. Não havia ali educação, não havia hábito, apenas minha eterna vontade de não fazer feio. Mas foi lindo, isso é certo, me senti como quando, no final do ano, eu via a lista de minhas notas e lia: aprovada. Porém logo me dei conta de que não havia comparação com as trocas que anos antes eu tivera com Lila, aquelas que me acendiam a cabeça, aquelas durante as quais arrancávamos palavras uma à boca da outra, enquanto irrompia uma excitação que mais parecia uma tempestade de descargas elétricas. Com Nino era diferente. Intuí que eu precisava estar atenta e dizer o que ele queria que eu dissesse, ocultando seja minha ignorância, seja as poucas coisas que eu sabia, e ele não. Foi o que fiz, e me senti orgulhosa pela maneira como ele estava confiando a mim suas convicções. Mas aí aconteceu outra coisa. De repente ele disse chega, pegou minha mão e anunciou como uma ordem fluorescente: agora você vai ver uma paisagem inesquecível, e me levou até a Piazza del Soccorso sem soltar minha mão, ao contrário, entrelaçando os dedos nos meus, tanto que não conservo a memória do mar em arco, muito azul, vencida como fui por sua pegada.

Isso, sim, me arrebatou. Uma ou duas vezes soltou os dedos para ajeitar os cabelos, mas logo depois voltou a pegar minha mão. Por um instante me perguntei como aquele gesto íntimo se conciliava com a relação que ele mantinha com a filha de Galiani. Talvez para ele — disse a mim mesma — seja apenas o modo de conceber a amizade entre homem e mulher. Mas e o beijo que ele tinha me dado em Mezzocannone? Também aquilo não era nada de mais, novos costumes, novas maneiras de ser jovem; e mesmo assim, de fato, foi uma coisa leve, somente um brevíssimo contato. Devo me contentar com esta felicidade de agora, com a ousadia destas férias que eu mesma quis; depois vou perdê-lo, depois ele irá embora, tem um destino que não pode de modo nenhum ser o meu.

Estava imersa nesses pensamentos palpitantes quando ouvi um estrondo às minhas costas e gritos rudes nos chamando. As lambretas de Rino e de Stefano passaram por nós a todo gás, com suas mulheres na garupa. Reduziram a velocidade e voltaram atrás numa manobra hábil. Soltei a mão de Nino.

“E seu amigo?”, perguntou Stefano desacelerando.

“Vai chegar daqui a pouco.”

“Mande lembranças a ele.”

“Mando.”

Rino perguntou:

“Quer dar um passeio com Lenuccia?”.

“Não, obrigado.”

“Vamos lá, olhe como ela está contente.”

Nino enrubesceu e disse:

“Não sei andar de lambreta”.

“É fácil, é como uma bicicleta.”

“Eu sei, mas não é para mim.”

Stefano riu:

“Rinù, esse aí só estuda, deixe pra lá.”

Nunca o tinha visto tão alegre. Lila estava agarrada a ele, com os dois braços em volta de sua cintura. Então o apressou:

“Vamos, se não vocês perdem o barco”.

“Sim, sim, vamos”, gritou Stefano, “amanhã temos de trabalhar: não somos como vocês, que podem ficar ao sol, tomando banho de mar. Tchau, Lenu, tchau, Nino, comportem-se.”

“Prazer em conhecê-lo”, disse Nino cordialmente.

Foram embora, Lila se despediu de Nino agitando um braço e gritando:

“Por favor, acompanhe minha amiga de volta”.

Age como se fosse minha mãe, pensei um tanto incomodada, quer bancar a adulta.

Nino segurou de novo minha mão e disse:

“Rino é simpático, mas como é que Lina foi se casar com aquele imbecil?”.

 

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