História do novo sobrenome
Capítulo 63
Me acompanhou até quase a porta de casa, tanto que temi encontrar Stefano e Lila. Me despedi às pressas e comecei a subir as escadas.
“Amanhã de manhã às nove”, gritou.
Parei.
“Se formos embora, nos vemos no bairro, me procure lá.”
“Vocês não vão embora”, falou como se desse uma ordem ameaçadora ao destino.
Fiz um último sinal de despedida e corri pelas escadas, lamentando não ter podido ver o que havia no envelope.
Em casa encontrei um ar carregado. Stefano e Nunzia confabulavam entre si, Lila devia estar no banheiro ou no quarto de casal. Quando entrei, ambos me olharam com rancor. Stefano disse carrancudo, sem preâmbulos:
“Me explique o que você e aquela lá estão aprontando.”
“Em que sentido?”
“Ela disse que está cansada de Ischia, que quer ir para Amalfi.”
“Não sei de nada disso.”
Nunzia interveio, mas não com o tom maternal de sempre:
“Lenu, não meta ideias erradas na cabeça dela, não se pode jogar dinheiro pela janela. Que história é essa de Amalfi? Pagamos aqui para ficarmos até setembro”.
Subi nas tamancas, falei:
“Vocês estão enganados: sou eu que faço as vontades de Lila, e não o contrário.”
“Então quer dizer que ela deve pôr a cabeça no lugar”, desabafou Stefano. “Na próxima semana eu volto, passamos o Ferragosto todos juntos e você vai ver como será divertido. Mas agora chega de caprichos. E que merda! Você acha que agora vamos pra Amalfi? E se Amalfi não estiver bom vamos para onde, para Capri? E depois? Vamos parar com isso, Lenu.”
O tom me intimidou.
“Onde ela está?”, perguntei.
Nunzia me apontou o quarto de casal. Fui até Lila certa de que encontraria as malas feitas e ela decidida a ir embora, mesmo se arriscando a levar uma surra daquelas. No entanto estava de camisola e dormia na cama desfeita. Em torno havia a bagunça habitual, mas as malas estavam empilhadas num canto, vazias. Sacudi-a:
“Lila.”
Teve um sobressalto e logo me perguntou com uns olhos velados de sono:
“Onde você estava? Encontrou Nino?”
“Sim. Isto aqui é pra você.”
Passei-lhe o envelope de má vontade. Ela o abriu, tirou uma folha. Leu e ficou radiante no ato, como se uma injeção de substâncias estimulantes tivesse varrido a sonolência e o desconforto.
“O que ele diz aí?”, perguntei cautelosamente.
“Para mim, nada.”
“E então?”
“É para Nadia, está deixando ela.”
Recolocou a carta no envelope e me entregou, recomendando que a guardasse bem escondida.
Fiquei desorientada, com o envelope nas mãos. Nino estava deixando Nadia? Mas por quê? Porque Lila tinha pedido? Para mostrar que cedeu? Eu estava decepcionada, muito decepcionada. Sacrificava a filha da professora Galiani no jogo que ele e a mulher do salsicheiro estavam jogando? Não disse nada, fiquei olhando Lila enquanto se vestia, se maquiava. Por fim perguntei:
“Por que você pediu a Stefano essa coisa absurda de ir para Amalfi? Não entendo você.”
Ela sorriu:
“Nem eu.”
Saímos do quarto. Lila deu uns beijinhos em Stefano, esfregando-se nele com alegria; decidimos acompanhá-lo ao Porto, eu e Nunzia numa carroça motorizada, ele e Lila de lambreta. Tomamos um sorvete à espera da embarcação. Lila foi gentil com o marido, fez mil recomendações, prometeu ligar todas as noites. Antes de subir a passarela, ele me passou um braço em volta dos ombros e me sussurrou no ouvido:
“Me desculpe, eu estava chateado demais. Sem você, não sei como seria dessa vez.”
Era uma frase cordial, mas senti uma espécie de ultimato que significava: por favor, diga a sua amiga que, se ela voltar a puxar muito a corda, a corda arrebentará.
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