História do novo sobrenome
Capítulo 70
Os Sarratore chegaram para o almoço. Deixaram um rastro de areia no piso, um cheiro de mar e de suor, uma censura alegre porque os meninos tinham me esperado inutilmente. Pus a mesa, tirei a mesa, lavei os pratos, acompanhei Pino, Clelia e Ciro até as margens de um juncal para ajudá-los a cortar umas varetas e montar uma pipa. Com as crianças me senti bem. Enquanto os pais descansavam, enquanto Nella cochilava numa espreguiçadeira da varanda, o tempo voou, a pipa me absorveu inteiramente, quase não pensei em Nino e Lila.
No fim da tarde fomos todos à praia, até Nella, para fazer a pipa voar. Corri para cima e para baixo na areia, seguida pelos três meninos que ficavam mudos, de boca aberta, quando a pipa parecia decolar e lançavam longos gritos quando a viam tombar no chão após uma repentina pirueta. Tentei várias vezes, mas não consegui fazê-la voar, mesmo com as instruções que Donato me gritava do guarda-sol. Por fim, toda suada, desisti e disse a Pino, Clelia e Ciro: “Peçam a papai”. Sarratore chegou arrastado pelos filhos, checou a estrutura das hastes, o papel de seda azul, o fio, depois estudou o vento e começou a correr para trás com pequenos saltos enérgicos, apesar do corpo pesado. Os meninos o seguiram entusiasmados, e eu também me reanimei, recomecei a correr ao lado deles, até que a felicidade que eles expandiam também me contagiou. Nossa pipa continuava subindo cada vez mais alto, voava, não era mais preciso correr, bastava segurar o fio. Sarratore era um bom pai. Mostrou que, com sua ajuda, até Ciro podia controlar o fio, Clelia também, e Pino, até eu. De fato, o passou para mim, mas se pôs às minhas costas, respirando em minha nuca e dizendo: “Assim, muito bem, puxe um pouco, solte” e anoiteceu.
Jantamos e a família Sarratore foi passear no vilarejo, marido, mulher e os três filhos, todos vestidos de festa. Apesar de ter sido insistentemente convidada, preferi ficar com Nella. Arrumamos a casa, ela me ajudou a fazer a cama no mesmo cantinho da cozinha, fomos ao terraço em busca de ar fresco. Não se via a lua, no céu escuro havia algumas nuvens com um inchaço branco. Conversamos sobre como os filhos de Sarratore eram bonitos e inteligentes, depois Nella dormiu. Então, de golpe, o dia, a noite que estava começando caíram sobre mim. Saí de casa na ponta dos pés, desci para os Maronti.
Quem sabe se Michele Solara guardasse para si o que tinha visto. Quem sabe tudo estivesse prosseguindo em paz. Quem sabe Nunzia já estivesse dormindo na casa da estrada do Cuotto e tentava acalmar o genro, que chegara de surpresa com a última embarcação, não encontrara a mulher em casa e estava furioso. Quem sabe Lila tivesse telefonado ao marido e, assegurando-se de que estava em Nápoles, distante, no apartamento do bairro novo, agora estivesse na cama com Nino sem medo nenhum, um casal secreto, pronto para gozar a noite. Cada coisa do mundo estava em suspenso, puro risco, e quem não aceitava arriscar murchava num canto, sem intimidade com a vida. Compreendi de repente por que não conquistei Nino, por que Lila o conquistou. Eu não era capaz de me entregar a sentimentos verdadeiros. Não sabia me deixar arrastar além dos limites. Não possuía aquela potência emotiva que levara Lila a fazer de tudo para gozar aquele dia e aquela noite. Me mantinha recuada, à espera. Já ela tomava as coisas para si, as queria de verdade, se apaixonava, ia para o tudo ou nada e não temia o desprezo, o escárnio, as cusparadas, as surras. Ela enfim merecera Nino porque considerava que amá-lo já era tentar conquistá-lo, e não esperar que ele a quisesse.
Fiz toda a descida escura. Agora havia uma lua entre nuvens ralas, de bordas claras, e a noite estava perfumadíssima, se ouvia o rumor hipnótico das ondas. Na praia tirei os sapatos, a areia era fria, uma luz cinza-celeste se alongava até o mar e depois se expandia por sua planície trêmula. Pensei: sim, Lila tem razão, a beleza das coisas é um truque, o céu é o trono do medo; estou viva, agora, aqui, a dez passos da água, e isso não é nada belo, é aterrorizante; faço parte, com esta praia, com o mar, com a agitação de todas as formas animais, do terror universal; neste momento sou a partícula infinitesimal por meio da qual o assombro de cada coisa toma consciência de si; eu; eu, que escuto o rumor do mar, que sinto a umidade e a areia fria; eu, que imagino Ischia inteira, os corpos enlaçados de Nino e Lila, Stefano dormindo sozinho na casa nova e já não tão nova, as fúrias que favorecem a felicidade de hoje para alimentar a violência de amanhã. Ah, é verdade, tenho muito medo e por isso torço para que tudo acabe logo, que as figuras dos íncubos me devorem a alma. Desejo que dessa escuridão irrompam matilhas de cães raivosos, víboras, escorpiões, enormes serpentes marinhas. Desejo que, enquanto estou sentada aqui, na beira do mar, cheguem do meio da noite assassinos que me estraçalhem o corpo. Sim, sim, que eu seja punida por minha inadequação, que me aconteça o pior, algo de tão devastador que me impeça de enfrentar esta noite, amanhã, as horas e os dias que virão reconfirmando com provas cada vez mais esmagadoras minha constituição inepta. Tive pensamentos assim, pensamentos exaltados de menina humilhada. Me abandonei a eles por não sei quanto tempo. Depois alguém disse: “Lena”, e me tocou o ombro com dedos frios. Estremeci, meu coração se contraiu tão gelado que, quando me virei num instante e reconheci Donato Sarratore, a respiração me explodiu da garganta como o gole de uma poção mágica, dessas que nos poemas devolvem a força e a urgência de viver.
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