História do novo sobrenome
Capítulo 65
Há momentos em que recorremos a formulações insensatas e fazemos cobranças absurdas para ocultar sentimentos lineares. Hoje sei que, em outras circunstâncias, depois de alguma resistência, eu teria cedido às investidas de Bruno. Eu não gostava dele, é verdade, mas também não gostava particularmente de Antonio. Aos homens a gente se afeiçoa aos poucos, prescindindo do fato de coincidirem ou não com o modelo masculino que elegemos nas várias fases da vida. E Bruno Soccavo, naquela fase de sua vida, era gentil e generoso, teria sido fácil nutrir um pouco de afeto por ele. Mas as razões para recusá-lo não tinham nada a ver com um suposto aspecto desagradável dele. A verdade é que eu queria controlar Lila. Queria ser um empecilho. Queria que ela se desse conta da situação em que estava se metendo e em que estava me metendo. Queria que me dissesse: tudo bem, você tem razão, eu estou errada, não vou mais me afastar no escuro com Nino, não vou deixá-la sozinha com Bruno; a partir deste momento, vou me comportar como se espera de uma mulher casada.
Naturalmente não foi o que ocorreu. Ela se limitou a dizer: “Vou falar com Nino e você vai ver que Bruno não vai mais incomodar”. Assim, dia após dia, continuamos encontrando os dois rapazes às nove da manhã e nos separando à meia-noite. Mas já na terça-feira à noite, depois do telefonema para Stefano, Nino disse:
“Vocês nunca vieram ver a casa de Bruno. Não querem subir?”
Respondi imediatamente que não, inventei que estava com dor de barriga e queria voltar para casa. Nino e Lila se olharam vacilantes, Bruno não falou nada. Percebi o peso da frustração deles e acrescentei embaraçada:
“Quem sabe outra noite.”
Lila não se pronunciou, mas quando ficamos sós ela exclamou: “Você não pode prejudicar minha vida, Lenu”. Respondi: “Se Stefano souber que fomos sozinhas para a casa daqueles dois, não vai brigar apenas com você, mas comigo também”. E não parei ali. Em casa aticei o descontentamento de Nunzia e o fiz de modo que ela censurasse a filha pelo excesso de sol, pelo excesso de praia, por ficar passeando todo dia até meia-noite. Cheguei até a dizer, como se quisesse apaziguar mãe e filha: “Dona Nunzia, venha tomar um sorvete com a gente amanhã à noite, vai ver que não fazemos nada de mal”. Lila ficou furiosa, disse que levava uma vida de sacrifícios o ano todo, sempre fechada dentro da charcutaria, e tinha direito a um pouco de liberdade. Nunzia também perdeu a calma: “Lina, o que você está dizendo? Liberdade? Que liberdade? Você é casada, precisa prestar contas a seu marido. Lenuccia pode querer um pouco de liberdade; você, não”. A filha foi para o quarto batendo a porta.
Mas no dia seguinte Lila levou a melhor: a mãe ficou em casa, e nós saímos para telefonar a Stefano. “Espero vocês aqui às onze em ponto”, disse Nunzia de cara fechada, dirigindo-se a mim, e eu respondi: “Tudo bem”. Lançou-me um olhar comprido e indagador. Agora estava alarmada: era nossa vigilante, mas não nos vigiava; temia que nos metêssemos em problemas, mas pensava em sua juventude sacrificada e não queria nos impedir umas distrações inocentes. Repeti para acalmá-la: “Às onze”.
A ligação para Stefano durou no máximo um minuto. Quando Lila saiu da cabine, Nino tornou a perguntar:
“Você está bem esta noite, Lenu? Querem conhecer a casa?”
“Vamos”, me exortou Bruno, “bebemos alguma coisa e vocês voltam para casa.”
Lila assentiu, eu não disse nada. De fora a construção era velha, malconservada, mas por dentro se mostrou toda nova: a cave branca e bem iluminada, repleta de vinhos e de embutidos; uma escadaria de mármore com parapeito de ferro batido; portas robustas nas quais reluziam maçanetas douradas; janelas com esquadrias igualmente douradas; muitos cômodos, sofás amarelos, televisão; na cozinha, armários suspensos de cor água-marinha e, nos quartos de dormir, guarda-roupas que pareciam igrejas góticas. Pela primeira vez pensei nitidamente que Bruno era de fato rico, bem mais rico que Stefano. Pensei que, se algum dia minha mãe soubesse que o estudante filho do dono das mortadelas Soccavo me cortejara, e que eu chegara a ser recebida em sua casa, e que, em vez de agradecer a Deus pela sorte que me dera e tentar fazer com que ele se casasse comigo, eu o rejeitara por duas vezes, ela me teria massacrado de pancadas. Por outro lado, foi justamente a lembrança de minha mãe, de sua perna machucada, que me fez sentir constitucionalmente inadequada até para Bruno. Aquela casa me intimidou. Por que eu estava ali, o que eu estava fazendo? Lila agia com desenvoltura, ria frequentemente; eu me sentia como se estivesse com febre, a boca amarga. Comecei a dizer sempre sim para evitar o incômodo de dizer não. Quer beber isso, quer que ponha esse disco, quer ver tv, quer um sorvete? Percebi tarde demais que Nino e Lila tinham sumido, mas quando me dei conta me alarmei. Onde eles tinham se metido? Será possível que estavam trancados no quarto de Nino? Será possível que Lila estava disposta a ultrapassar até aquele limite? Será possível que — não quis nem pensar nisso. Dei um pulo, disse a Bruno:
“Já está tarde.”
Ele foi gentil, mas com um fundo de melancolia. Murmurou: “Fique mais um pouco”. Disse que no dia seguinte ele viajaria cedíssimo, precisava estar presente a uma festa de família. Anunciou que se ausentaria até segunda-feira, e que aqueles dias sem mim seriam um tormento. Pegou minha mão com delicadeza, disse que gostava muito de mim e outras coisas parecidas. Retraí a mão devagar, e ele não tentou mais nenhum contato. Em vez disso, falou longamente de seus sentimentos por mim, ele, que em geral era de poucas palavras, e tive dificuldade de interrompê-lo. Quando consegui, falei: “Realmente preciso ir”; e então, com voz cada vez mais alta: “Lila, venha por favor, são dez e quinze”.
Passaram-se alguns minutos, e os dois reapareceram. Nino e Bruno nos acompanharam na carroça motorizada, Bruno se despediu não como se estivesse indo a Nápoles por poucos dias, mas aos Estados Unidos, pelo resto da vida. Ao longo do caminho, Lila me falou em tom cúmplice, como se fosse uma grande notícia:
“Nino me disse que gosta muito de você.”
“Eu não”, respondi logo com voz cortante. E depois sibilei: “E se você ficar grávida?”
Me disse no ouvido:
“Não há perigo. Apenas nos beijamos e nos abraçamos.”
“Ah.”
“De todo modo, eu não fico grávida.”
“Uma vez ficou.”
“Já lhe disse que não fico grávida. Ele sabe como se faz.”
“Ele quem?”
“Nino. Usaria um preservativo.”
“E o que é isso?”
“Não sei, ele falou assim.”
“Você não sabe o que é e ainda confia?”
“É algo que se coloca lá no troço.”
“Em que troço?”
Queria obrigá-la a nomear as coisas. Queria que entendesse bem o que estava me dizendo. Antes me garantia que estavam somente se beijando, depois falava dele como de alguém que sabia como não a engravidar. Eu estava furiosa, queria que ela se envergonhasse. No entanto ela parecia contente de tudo o que havia acontecido. Tanto é que, uma vez em casa, foi gentil com Nunzia, enfatizou que tínhamos voltado com muita antecedência, se preparou para dormir. Mas deixou o quarto aberto e, quando me viu pronta para me deitar, me chamou e disse: “Fique um pouco aqui, feche a porta”.
Sentei na cama, mas me esforçando para transparecer que estava cansada dela e de tudo.
“O que você quer me dizer?”
Sussurrou:
“Quero ir dormir com Nino.”
Fiquei boquiaberta.
“E Nunzia?”
“Espere, não se zangue, Lenu. Resta pouco tempo. Stefano vai chegar no sábado, ficará dez dias, depois voltaremos para Nápoles. E tudo estará acabado.”
“Tudo o quê?”
“Isso, esses dias, essas noites.”
Raciocinamos longamente, ela me pareceu lucidíssima. Murmurou que nunca mais lhe aconteceria nada parecido. Sussurrou que o amava, que o queria. Usou aquele verbo, amar, que só tínhamos visto nos livros e no cinema, que ninguém no bairro usava, eu no máximo o dizia a mim mesma, todos preferíamos gostar. Ela, não, ela amava. Amava Nino. Mas sabia perfeitamente que aquele amor devia ser sufocado, era preciso tirar-lhe toda ocasião de respiro. E ela o faria, o faria a partir da noite de sábado. Não tinha dúvidas, ela seria capaz, eu devia confiar nela. Mas o pouquíssimo tempo que restava, queria dedicá-lo a Nino.
“Quero estar numa cama com ele toda uma noite um dia inteiro”, disse. “Quero dormir abraçada e beijá-lo quando quiser, acariciá-lo quando quiser, até quando estiver dormindo. Depois acabou.”
“É impossível.”
“Você precisa me ajudar.”
“Como?”
“Convencendo minha mãe de que Nella nos convidou para passar dois dias em Barano e que à noite dormiremos lá.”
Calei por um segundo. Quer dizer que ela já tinha um projeto, já tinha um plano. Certamente o elaborara com Nino, talvez ele tivesse despachado Bruno de propósito. Quem sabe desde quando pensavam sobre como, sobre onde. Nada de discursos sobre o neocapitalismo, sobre o neocolonialismo, sobre a África e a América Latina, sobre Beckett, Bertrand Russell. Tudo conversa fiada. Nino não discutia mais sobre nada. Suas cabeças brilhantes agora só se exercitavam em como enganar Nunzia e Stefano usando a mim.
“Você está fora de si”, disse a ela furiosa, “se por acaso sua mãe acreditar, seu marido nunca vai cair nessa.”
“Você a convence a nos deixar ir a Barano, e eu a convenço a não dizer nada a Stefano.”
“Não.”
“Não somos mais amigas?”
“Não.”
“Você não é mais amiga de Nino?”
“Não.”
Mas Lila sabia muito bem como me atrair para suas coisas. E eu não era capaz de resistir: de um lado, dizia chega, de outro, me deprimia com a ideia de não ser parte de sua vida, de sua maneira de inventá-la para si. O que era aquela trapaça senão mais um de seus lances fantasiosos, sempre cheios de riscos? Nós duas juntas, nos ombreando, em luta contra todos. Dedicaríamos o dia de amanhã a vencer as resistências de Nunzia. No dia seguinte sairíamos bem cedo, juntas. Em Forio nos separaríamos. Ela se refugiaria na casa de Bruno com Nino, eu pegaria o barco para os Maronti. Ela passaria todo o dia e toda a noite com Nino, eu ficaria com Nella e dormiria em Barano. Um dia depois eu retornaria a Forio na hora do almoço, nos encontraríamos na casa de Bruno e, juntas, voltaríamos para casa. Perfeito. Quanto mais ela acendia a imaginação projetando como encaixar cada passo da trapaça, mais acendia habilmente a minha e me abraçava, e me implorava. Aí estava uma nova aventura, juntas. Aí estava como nós tomaríamos aquilo que a vida não nos queria dar. Aí estava. Ou eu preferia que ela se privasse daquela felicidade, que Nino sofresse, que ambos perdessem a luz da razão acabando não por administrar com astúcia seu próprio desejo, mas sendo arrastados perigosamente por ele? Houve um momento naquela noite que cheguei a pensar, de tanto seguir o fio de seus raciocínios, que apoiá-la naquela tarefa, além de ser um importante ponto de chegada em nossa longa irmandade, era também uma maneira de manifestar meu amor — ela dizia amizade, mas eu desesperada pensava: amor, amor, amor — por Nino. E foi nesse ponto que cheguei a lhe dizer:
“Tudo bem, vou ajudar você.”
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