História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 116 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 115

 

Eu não sabia nada de San Giovanni a Teduccio. Quando me disseram que Lila tinha ido morar naquele lugar com Enzo, a única coisa que me veio à mente foi a fábrica de Bruno Soccavo, o amigo de Nino, uma empresa que produzia embutidos e ficava justo naquela zona. A associação de ideias me incomodou. Havia tempos eu não pensava mais no verão em Ischia: foi a ocasião para eu perceber que a fase feliz daquelas férias tinha se apagado, ao passo que o lado desagradável se expandira. Descobri que cada som de então, cada perfume me repugnava, mas o que na minha memória, surpreendentemente, me pareceu mais insuportável, a ponto de me provocar longos choros, foi a noite nos Maronti com Donato Sarratore. Somente a dor pelo que estava acontecendo entre Lila e Nino podia ter me levado a considerá-la prazerosa. À distância de tanto tempo, me dei conta de que aquela primeira experiência de penetração, no escuro, sobre a areia fria, com aquele homem banal que era o pai do jovem que eu amava, tinha sido degradante. Senti vergonha, e essa vergonha se somou a outras vergonhas de natureza diferente, que eu estava experimentando.

Trabalhava noite e dia na tese, atormentava Pietro lendo em voz alta o que eu tinha escrito. Ele era gentil, balançava a cabeça, pescava de memória em Virgílio e noutros autores latinos passagens que pudessem ser úteis para mim. Eu anotava cada palavra que saía de sua boca e trabalhava, mas de mau humor. Oscilava entre sentimentos opostos. Buscava ajuda e me sentia humilhada ao pedi-la, ficava agradecida e ao mesmo tempo hostil, detestava principalmente que fizesse de tudo para que sua generosidade não pesasse sobre mim. O que me dava mais ansiedade era estar ao lado dele, antes dele, depois dele, submetendo minha pesquisa ao assistente que nos acompanhava, um homem de seus quarenta anos, sério, atento, às vezes até sociável. Via que Pietro era tratado como se já tivesse uma cátedra, e eu, como uma normal aluna brilhante. Muitas vezes eu desistia de falar com o docente por raiva, por arrogância, por temor de precisar me dar conta de minha inferioridade constitutiva. Preciso fazer melhor que Pietro, pensava, ele sabe muito mais coisas que eu, mas é opaco, não tem fantasia. Seu modo de proceder, o modo que gentilmente tentava me sugerir, era demasiado cauteloso. Assim eu desfazia meu trabalho, recomeçava, perseguia uma ideia que me parecia impensada. Quando voltava a procurar o professor, sim, era ouvida, era elogiada, mas sem gravidade, como se meu esforço fosse apenas um jogo bem jogado. Logo compreendi que Pietro Airota tinha um futuro, e eu, não.

A isso se somou, certa vez, minha ingenuidade. O assistente me tratou com amizade e disse:

“Você é uma estudante de enorme sensibilidade. Pensa em ensinar depois de se formar?”

Achei que estivesse falando de ensinar na universidade e tive um tremor de alegria, senti meu rosto queimar. Disse que adorava tanto o ensino quanto a pesquisa, disse que gostaria de continuar trabalhando no quarto livro da Eneida. Ele percebeu imediatamente o mal-entendido e se envergonhou. Amontoou frases genéricas sobre o prazer de estudar durante toda a vida e me aconselhou um concurso que haveria no outono, poucas cátedras em disputa nos institutos de magistério.

“Temos necessidade”, me exortou subindo de tom, “de ótimos docentes que formem ótimos professores.”

Simples assim. Vergonha, vergonha, vergonha. Essa pretensão que crescera dentro de mim, essa ambição de ser como Pietro. A única coisa que eu tinha em comum com ele eram as pequenas trocas sexuais quando a noite chegava. Ele arfava, se esfregava em mim, não pedia nada que eu não lhe concedesse espontaneamente.

Empaquei. Por um período não consegui trabalhar na tese, olhava as páginas dos livros sem enxergar as linhas. Ficava na cama olhando para o teto, me perguntando sobre o que fazer. Desistir justo no final, voltar para o bairro. Tirar o diploma, ensinar na escola média. Professora. Sim, mais que a Oliviero. No nível da Galiani. Ou talvez não, um pouco menos. Professora Greco. No bairro seria considerada personagem de destaque, a filha do contínuo que desde pequena sabia tudo. Somente eu, que tinha conhecido Pisa, os professores importantes, e Pietro, Mariarosa, o pai deles, saberia com clareza que não tinha ido muito longe. Um grande esforço, muitas esperanças, belos momentos. Sentiria saudades por toda a vida dos tempos com Franco Mari. Como tinham sido lindos aqueles meses, os anos com ele. Na época eu não tinha percebido a importância, e agora me entristecia. A chuva, o frio, a neve, os cheiros da primavera ao longo do Arno e nas ruazinhas floridas da cidade, o calor que nos transmitiam. Escolher uma roupa, os óculos. O prazer dele em me modificar. E Paris, a viagem excitante em terra estrangeira, os cafés, a política, a literatura, a revolução que logo chegaria, ainda que a classe operária estivesse se integrando. E ele. O quarto dele à noite. Seu corpo. Tudo terminado, e eu me virava nervosa na cama sem conseguir dormir. Estou mentindo para mim, pensava. Tinha sido realmente tão bom assim? Sabia bem que, mesmo então, havia a vergonha. E incômodos, humilhações, desgosto: aceitar, suportar, se forçar. Será possível que nem os momentos felizes de prazer resistam a um exame rigoroso? Sim. A escuridão dos Maronti logo se alongou até o corpo de Franco e depois até o corpo de Pietro. Evitei as lembranças.

A partir de certo momento encontrei Pietro cada vez menos, com a desculpa de que estava atrasada e perigava não concluir a tese no prazo. Numa manhã comprei um caderno quadriculado e comecei a escrever em terceira pessoa sobre o que me acontecera aquela noite na praia, em Barano. Depois, sempre em terceira pessoa, escrevi sobre o que me acontecera em Ischia. Depois contei um pouco sobre Nápoles e o bairro. Depois mudei nomes, lugares e situações. Depois imaginei uma força obscura escondida na vida da protagonista, uma entidade que tinha a capacidade de soldar o mundo a sua volta com as cores do maçarico: uma calota azul-violácea onde tudo ia às maravilhas, espalhando centelhas, mas que logo se dessoldava, cindindo-se em fragmentos cinza e desprovidos de sentido. Demorei vinte dias escrevendo aquela história, um lapso de tempo em que não vi ninguém, saía apenas para andar e comer. No final reli algumas páginas, não gostei e deixei de lado. Entretanto me senti mais tranquila, como se a vergonha tivesse passado de mim para o caderno. Voltei a circular, terminei a tese às pressas, retomei os encontros com Pietro.

Sua gentileza e sua solicitude me comoveram. Quando se formou, sua família compareceu em peso, e também muitos amigos pisanos dos pais. Me dei conta, surpresa, de que não sentia mais hostilidade por aquilo que aguardava Pietro, pelo propósito de sua vida. Ao contrário, fiquei feliz de que tivesse um destino tão bonito e fui grata a toda a família por ter me convidado à festa depois da formatura. Especialmente Mariarosa se desdobrou em atenções comigo. Discutimos acaloradamente sobre o golpe de estado fascista na Grécia.

Me formei na sessão seguinte. Evitei comunicar a meus pais, temi que minha mãe se sentisse na obrigação de vir me festejar. Me apresentei aos professores com um dos vestidos que Franco me dera, o que me parecia ainda aceitável. Depois de muito tempo me senti de fato contente comigo. Pouco antes dos vinte e três anos eu era nada menos que bacharel, tinha um diploma em letras com distinção e louvor. Meu pai não tinha passado do quinto ano fundamental, minha mãe parara no segundo, nenhum de meus antepassados, pelo que pude saber, jamais soubera ler ou escrever correntemente. Que prodigioso esforço eu tinha feito.

Além de algumas colegas de curso, Pietro veio comemorar comigo. Lembro que fazia muito calor. Após os rituais estudantis de sempre, voltei ao quarto para me refrescar um pouco e deixar o volume da tese. Ele me esperou embaixo, queria me levar para jantar. Me olhei no espelho, tive a impressão de estar bonita. Peguei o caderno com a história que eu tinha escrito e o coloquei na bolsa.

Era a primeira vez que Pietro me levava a um restaurante, Franco costumava fazer isso várias vezes e me ensinara tudo sobre a disposição dos talheres, sobre as taças. Ele me perguntou:

“Estamos noivos?”

Sorri e disse:

“Não sei.”

Tirou do bolso um embrulho e me deu. Murmurou:

“Durante todo este ano eu achei que sim. Mas, se você tiver uma opinião contrária, considere um presente de formatura.”

Abri o embrulho e apareceu uma caixinha verde. Dentro havia um anel de brilhantes.

“É lindo”, disse.

Coloquei-o no dedo, coube perfeitamente. Pensei nos anéis que Stefano tinha dado a Lila, bem mais caros que aquele. Mas era a primeira joia que eu ganhava, Franco tinha me dado muitos presentes, mas nunca joias, a única joia que eu tinha era o bracelete de prata de minha mãe.

“Estamos noivos”, disse a ele, me inclinando sobre a mesa e lhe dando um beijo na boca. Ele ficou vermelho e murmurou:

“Tenho um outro presente.”

Me passou um envelope, eram as provas de sua tese-livro. Que rapidez, pensei com afeto e até um pouco de alegria.

“Também tenho um presentinho para você.”

“O que é?”

“Uma bobagem, mas eu não saberia que outra coisa realmente minha eu poderia lhe dar.”

Tirei o caderninho da bolsa e o entreguei a ele.

“É um romance”, esclareci, “um unicum: cópia única, única tentativa, única rendição. Não vou escrever nunca mais.” Acrescentei rindo: “Há até umas páginas meio ousadas”.

Ele me pareceu perplexo. Agradeceu, apoiou o caderno na mesa. Imediatamente me arrependi do meu gesto. Pensei: é um estudioso sério, tem grandes tradições nos ombros, está para publicar um ensaio sobre os ritos báquicos que será a base de sua carreira; culpa minha, não o devia ter constrangido com uma historiazinha nem batida à máquina. No entanto, mesmo naquele caso não senti nenhum incômodo: ele era ele, eu era eu. Disse que tinha me inscrito em um concurso para os institutos de magistério, disse que voltaria a Nápoles, disse rindo que nosso noivado teria uma vida difícil, eu numa cidade do Sul, ele, numa do Norte. Mas Pietro ficou sério, já tinha em mente tudo, me expôs seu projeto: dois anos para se estabilizar em uma universidade e depois se casaria comigo. Marcou até a data: setembro de 1969. Quando saímos, ele esqueceu o caderno na mesa. Eu notei brincalhona: “E meu presente?”. Ele se atrapalhou e correu para pegá-lo.

Passeamos demoradamente, nos beijamos, nos abraçamos à beira do Arno, perguntei a ele entre séria e zombeteira se ele queria escapar para o meu quarto. Negou com a cabeça, voltou a me beijar com paixão. Havia bibliotecas inteiras entre ele e Antonio, mas se pareciam.

 

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