História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 51 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 50

 

Foi um domingo de tédio. Sofri com o calor a noite inteira, não ousava abrir a janela por medo dos pernilongos. Adormeci, acordei, tornei a dormir. Ir até Barano? Qual seria o resultado? Passar o dia brincando com Ciro, Pino e Clelia, enquanto Nino se exercitava em suas longas nadadas ou então ficava ao sol sem dizer uma palavra, em surda polêmica com o pai? Acordei tarde, às dez, e assim que abri os olhos me chegou de muito longe uma sensação de falta que me deu angústia.

Soube por Nunzia que Pinuccia e Rino já tinham ido para a praia, enquanto Stefano e Lila continuavam dormindo. Molhei sem vontade o pão no café com leite, renunciei definitivamente a Barano, fui para a praia nervosa, triste.

Lá encontrei Rino dormindo sob o sol, os cabelos molhados, o corpo volumoso abandonado de barriga para baixo sobre a areia, e Pinuccia caminhando para lá e para cá na beira do mar. Chamei-a para irmos até as fumarolas, ela recusou grosseiramente. Passeei por um bom tempo sozinha, em direção a Forio, para me acalmar.

A manhã demorou a passar. Na volta, tomei um banho e me deitei ao sol. Acabei escutando Rino e Pinuccia que, como se eu não estivesse ali, murmuravam frases do tipo:

“Não vá embora”.

“Preciso trabalhar: os sapatos devem estar prontos no outono. Você chegou a ver os modelos? Gostou?”

“Sim, mas as coisas que Lila quis que você acrescentasse são feias, tire aquilo.”

“Não, elas ficam bem.”

“Está vendo? Tudo o que eu digo não conta nada para você.”

“Não é verdade.”

“É a pura verdade, você não gosta mais de mim.”

“Eu te amo, e você sabe quanto.”

“Que nada, olhe só minha barriga.”

“Dou dez mil beijos nessa barriga. A semana toda só faço pensar em você.”

“Então não vá trabalhar.”

“Não posso.”

“Então quer dizer que esta noite eu também vou embora.”

“Nós já pagamos nossa cota, você precisa aproveitar as férias.”

“Não quero mais isso.”

“Por quê?”.

“Porque assim que eu durmo começo a ter sonhos horríveis e passo a noite toda acordada.”

“Mesmo quando dorme com minha irmã?”

“Aí é pior ainda: se sua irmã pudesse me matar, ela me mataria.”

“Então vá dormir com mamãe.”

“Sua mãe ronca.”

O tom de Pinuccia era insuportável. Durante todo o dia não consegui entender o motivo daquela lamúria. É verdade que ela dormia pouco e mal. Mas querer que Rino ficasse, querer até ir embora com ele, me pareceu uma mentira. A certa altura me convenci de que ela estava tentando lhe dizer algo que ela mesma ignorava e que, por isso, só conseguia expressar de modo petulante. Mas depois me desliguei, fui atraída por outras coisas. Sobretudo pela exuberância de Lila.

Quando apareceu na praia com o marido, me pareceu ainda mais feliz que na noite anterior. Quis mostrar a ele como tinha aprendido a nadar e juntos nadaram para longe da orla — em alto mar, dizia Stefano, apesar de na verdade terem se afastado apenas poucos metros da areia. Ela, elegante e precisa nas braçadas e no modo ritmado com que agora aprendera a virar a cabeça para tomar ar, erguendo a boca da água, logo o deixou para trás. Depois parou para esperá-lo, rindo, enquanto ele a alcançava com braçadas desajeitadas, cabeça bem espichada no pescoço, bufando contra a água que espirrava em sua cara.

A alegria dela cresceu ainda mais à tarde, quando saíram num passeio de lambreta. Rino também queria dar uma volta e, como Pinuccia se recusou — temia levar um tombo e perder o menino —, ele me disse: “Vem você, Lenu”. Pela primeira vez tive essa experiência, Stefano corria na frente, Rino seguia atrás, e vento, e medo de cair ou de dar uma trombada, e uma excitação crescente, o cheiro forte que exalava das costas suadas do marido de Pinuccia, a plenitude bravateira de si que o impelia a violar qualquer regra e a responder a quem protestava segundo os costumes do bairro, freando bruscamente, ameaçando, sempre pronto a engalfinhar-se para afirmar seu direito de fazer o que bem entendesse. Foi divertido, um retorno às emoções de mocinha mal crescida, muito diferentes das que Nino me dava quando aparecia vindo pela praia, à tarde, em companhia do amigo.

Ao longo daquele domingo mencionei várias vezes os rapazes: gostava especialmente de pronunciar o nome de Nino. Logo notei que tanto Pinuccia quanto Lila se comportavam como se não tivéssemos frequentado Bruno e Nino todas juntas, mas somente eu. A consequência foi que, quando seus maridos se despediram e foram correndo pegar a embarcação, Stefano me pediu que eu mandasse lembranças ao filho de Soccavo, como se eu fosse a única a ter a possibilidade de encontrá-lo, enquanto Rino tirou sarro de mim falando: “Você gosta mais do filho do poeta ou do filho do mortadeleiro? Na sua opinião, quem é o mais bonito?”, como se a esposa e a irmã não tivessem elementos para formular um juízo próprio.

Por fim, ambas me irritaram pelo modo como reagiram à partida dos maridos. Pinuccia ficou alegre, sentiu a necessidade de lavar o cabelo que — disse em voz alta — estava cheio de areia. Lila perambulou preguiçosamente pela casa e foi se deitar na cama desfeita, sem se importar com a bagunça do quarto. Quando apareci para lhe dar boa noite, vi que não tinha nem mesmo tirado a roupa: estava lendo o livro sobre Hiroshima de olhos apertados, o cenho franzido. Não a critiquei, apenas disse, talvez com alguma aspereza:

“Como é que de repente lhe voltou a vontade de ler?”.

“Não é da sua conta”, respondeu.

 

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