História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 30 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 29

Pesavam muito. Em casa, emocionadíssima, descobri que não eram volumes já usados, muitas vezes malcheirosos, que a professora me conseguia no passado, mas exemplares novinhos em folha, com aquele cheiro fresco de gráfica, e entre eles sobressaíam os dicionários, o Zingarelli, o Rocci e o Calonghi-Georges, que a professora nunca conseguira para mim.

Minha mãe, que tinha uma palavra de desprezo para cada coisa que me acontecesse, ao me ver enquanto eu desembrulhava os pacotes caiu no choro. Surpresa, intimidada por aquela reação anômala, fui para perto dela e fiz carinho em seu braço. É difícil dizer o que a comovera: talvez seu senso de impotência diante de nossa miséria, talvez a generosidade da mulher do salsicheiro, não sei bem. Acalmou-se depressa, murmurou frases obscuras e mergulhou em seus afazeres.

No quartinho onde eu dormia com meus irmãos havia uma mesinha desconjuntada, toda roída de cupim, onde habitualmente eu fazia as tarefas. Arrumei ali todos aqueles volumes e, ao vê-los alinhados sobre o tampo, contra a parede, me senti carregada de energia.

Os dias começaram a voar. Devolvi à professora Galiani os livros que me emprestara durante o verão, e ela me deu outros, ainda mais difíceis. Eu os lia diligentemente aos domingos, mas entendendo pouco ou quase nada. Corria todas as linhas com os olhos, virava as páginas, mas o fraseado me entediava, o sentido me escapava. Naquele segundo ano de liceu, entre os estudos e as leituras difíceis, me cansei muitíssimo, mas era um cansaço convicto, satisfeito.

Um dia Galiani me perguntou:

“Que jornal você lê, Greco?”.

Aquela pergunta me causou o mesmo desconforto que eu tinha experimentado quando conversei com Nino durante o casamento de Lila. A professora dava por óbvio que eu fizesse normalmente algo que em minha casa, em meu ambiente, não era nada normal. Como lhe dizer que meu pai não comprava jornais, que eu nunca lera jornais? Não tive coragem e tentei mais que depressa lembrar se Pasquale, que era comunista, lia algum. Esforço inútil. Então me veio à mente Donato Sarratore e me lembrei de Ischia, dos Maronti, recordei que ele escrevia no Roma. E respondi:

“Leio o Roma.”

A professora deu um meio sorriso irônico e, a partir do dia seguinte, começou a me repassar seus jornais. Comprava dois, às vezes três, e depois da escola me dava um de presente. Eu agradecia e voltava para casa amargurada pelo que me parecia mais uma tarefa escolar.

No início eu deixava o jornal largado pela casa, adiando a leitura para quando tivesse terminado as tarefas, mas à noite o jornal já tinha sumido, meu pai se apropriava dele e o lia na cama ou na privada. Assim adquiri o hábito de escondê-lo entre meus livros e só o tirava de lá à noite, quando todos já estavam dormindo. Às vezes se tratava do Unità, às vezes do Mattino, às vezes do Corriere della Sera, mas todos os três se mostraram difíceis para mim, é como se eu tivesse que me encantar por quadrinhos cujos números precedentes eu desconhecia. Corria de uma coluna a outra mais por obrigação que por autêntico interesse, e enquanto isso, como em todas as coisas que eram impostas pela escola, esperava que aquilo que eu não entendia hoje, de tanto insistir, acabaria entendendo amanhã.

Naquele período, pouco vi Lila. Às vezes, logo depois do colégio e antes de mergulhar nas tarefas, eu passava na charcutaria nova. Chegava morrendo de fome e ela percebia, por isso ia logo preparar para mim um belo sanduíche com muito recheio. Enquanto o devorava, eu me exibia em bom italiano com frases memorizadas dos livros e dos jornais de Galiani. Fazia menção, sei lá, “à atroz realidade dos campos de extermínio nazista”, ao que “os homens foram capazes de fazer e podem fazer ainda hoje”, à “ameaça atômica e ao imperativo da paz”, ao fato de que “à custa de dobrar as forças da natureza com os instrumentos que inventamos, hoje chegamos a um ponto em que a força de nossos instrumentos tornou-se mais preocupante que as forças da natureza”, à “necessidade de uma cultura que combata e elimine o sofrimento”, à ideia de que “a religião desaparecerá da consciência dos homens quando finalmente for possível construir um mundo de iguais, sem distinções de classe, e com uma sólida concepção científica da sociedade e da vida”. Falava com ela dessas e de outras coisas seja porque queria mostrar que estava marchando para uma aprovação com média oito em tudo, seja porque não sabia com quem mais poderia falar sobre isso, seja porque esperava que ela pudesse contestar alguma coisa e, assim, pudéssemos retomar o velho hábito de discutirmos entre nós. Mas ela praticamente não falava, ao contrário, parecia constrangida, como se não compreendesse bem o que eu estava falando. Ou então, se desembuchava alguma coisa, era para exumar uma obsessão que agora — eu não entendia por que — voltava a corroê-la por dentro. Disparava a falar da origem do dinheiro de dom Achille, da dos Solara, até na presença de Carmen, que imediatamente concordava. No entanto, assim que entrava algum cliente, ela se calava, assumia ares gentilíssimos e eficientes, fatiava, pesava, recebia no caixa.

Uma vez deixou a gaveta aberta, fixando o dinheiro. Disse de péssimo humor:

“Este aqui quem ganhou fui eu, com o esforço do meu trabalho e do de Carmen. Mas nada aqui dentro é meu, Lenu, tudo foi feito com o dinheiro de Stefano. E Stefano acumulou dinheiro partindo do dinheiro do pai dele. Sem o que dom Achille colocou debaixo do colchão, agindo no mercado negro e fazendo agiotagem, hoje não teríamos isto nem a fábrica de calçados. Não só. Stefano, Rino e meu pai não teriam vendido um sapato sequer sem a grana e sem os contatos da família Solara, eles também agiotas. Percebe onde eu fui me meter?”.

Eu percebia, mas não compreendia de que adiantavam aqueles raciocínios.

“São águas passadas”, disse a ela, e recordei as conclusões a que ela mesma chegara quando se tornou noiva de Stefano. “Isso que você está dizendo ficou para trás, nós somos outra coisa.”

Mas ela, que justamente tinha inventado aquela teoria, mostrou-se pouco convencida. Respondeu — e me lembro perfeitamente da frase, dita em dialeto:

“Não gosto mais do que eu fiz e do que estou fazendo”.

Pensei que tivesse voltado a frequentar Pasquale, ele sempre tivera aquelas opiniões. Pensei que talvez as relações entre eles tivessem se fortalecido, porque Pasquale era namorado de Ada, vendedora na velha charcutaria, e era o irmão de Carmen, que trabalhava com ela na nova. Fui embora descontente, mal controlando um antigo sentimento de menina, da época em que eu sofria porque Lila e Carmela tinham ficado amigas e tendiam a me excluir. Me acalmei estudando até tarde da noite.

Numa dessas noites eu estava lendo o Mattino, os olhos fechando de cansaço, quando uma nota não assinada me provocou uma verdadeira descarga elétrica que me acordou. Não podia acreditar, o artigo falava da loja da Piazza dei Martiri e elogiava o painel em que eu e Lila trabalhamos.

Li e reli, ainda me lembro de algumas linhas: “As meninas que dirigem a acolhedora loja da Piazza dei Martiri não quiseram nos revelar o nome do artista. Uma pena. Quem quer que tenha criado esse híbrido anômalo de fotografia e pintura tem uma imaginação vanguardista que submete com divina ingenuidade, mas também com inusitada energia, a matéria às urgências de uma dor íntima e poderosa”. Quanto ao resto, elogiava sem meios-termos a butique de sapatos, “um sinal importante do dinamismo que nos últimos anos galvanizou os empreendedores napolitanos”.

Não consegui dormir.

Depois da escola, corri para encontrar Lila. A loja estava vazia, Carmen tinha ido à casa da mãe, Giuseppina, que não estava bem; Lila estava ao telefone com um fornecedor da província que não tinha entregado mozarela ou provolones ou não me lembro o quê. Ela gritava, dizia palavrões, fiquei impressionada. Pensei que talvez o homem do outro lado da linha fosse um velho, que se sentiria ofendido, que mandaria um de seus filhos para vingá-lo. Pensei: por que exagera sempre? Quando terminou o telefonema, ela bufou de indignação e virou para mim, se justificando:

“Se eu não fizer assim, nem sequer me escutam”.

Mostrei-lhe o jornal. Ela deu uma olhada distraída e disse: “Eu já conhecia”. Me explicou que tinha sido uma iniciativa de Michele Solara, que como sempre encomendara aquilo sem consultar ninguém. Veja, disse, e foi até o caixa, tirou de lá de dentro uns recortes amassados e os passou para mim. Ali também se falava da loja na Piazza dei Martiri. Um era um artiguinho publicado no Roma, o autor se desdobrava em elogios aos Solara, mas não fazia o menor sinal ao painel. O outro era um artigo de três colunas publicado no Napoli Notte, e a butique ali figurava como um palácio real. O ambiente era descrito num italiano superlativo, que exaltava sua decoração, a iluminação luxuosa, os calçados maravilhosos e sobretudo “a gentileza, a doçura e a graça das duas sedutoras nereidas, a senhorita Gigliola Spagnuolo e a senhorita Giuseppina Carracci, maravilhosas raparigas em flor que regem os destinos de uma empresa a qual se eleva acima das mais exuberantes atividades comerciais de nossa cidade”. Era preciso chegar até o fim para encontrar uma menção ao painel, que no entanto era liquidado em poucas palavras. O autor do artigo o definia como “uma mixórdia grosseira, uma nota destoante em um ambiente de majestosa elegância”.

“Viu quem assinou?”, perguntou Lila sarcástica.

A nota do Roma era assinada D.S., e o artigo do Napoli Notte trazia a assinatura de Donato Sarratore, o pai de Nino.

“Vi.”

“E o que me diz?”

“O que eu deveria dizer?”

“Tal pai, tal filho, apenas isso.”

Riu sem alegria. Me explicou que, diante do sucesso crescente dos sapatos Cerullo e da butique Solara, Michele tinha decidido dar visibilidade ao empreendimento e fizera certas generosidades por aí, graças às quais os diários da cidade prontamente escreveram grandes elogios. Enfim, pura propaganda. Publicidade paga. Inútil ler aquilo. Naqueles artigos, disse, não havia uma só palavra verdadeira.

Fiquei mal. Não gostei da maneira como desqualificou os jornais, os mesmos que eu diligentemente tentava ler sacrificando meu sono. E não gostei que tivesse sublinhado o parentesco entre Nino e o autor dos dois artigos. Que necessidade havia de associar Nino ao pai, um pomposo fabricante de frases feitas?

 

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