História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 79 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 78

Depois do Natal fiquei sabendo por Alfonso que Pinuccia tinha dado à luz um menino, que se chamaria Fernando. Fui fazer uma visita pensando que a encontraria na cama, feliz, amamentando o bebê. No entanto ela já estava de pé, em camisola de noite e chinelos, enfezada. Expulsou com maus modos a mãe, que lhe dizia “fique na cama, não se canse”, e, quando me levou até o berço, disse sombria: “Eu nunca me saio bem em nada, olha só como é feio, fico assustada só de tocá-lo, só de olhar para ele”. E embora Maria, parada na soleira do quarto, murmurasse como uma fórmula sedativa: “O que você está dizendo, Pina, ele é lindo”, ela continuou repetindo com raiva: “É feio, é mais feio que Rino, naquela família todos são feios”. Depois tomou fôlego e exclamou desesperada, com lágrimas nos olhos: “Culpa minha, escolhi mal o marido, mas quando a gente é muito menina não pensa direito, e olha só o filho que eu fiz, com um nariz achatado que nem o de Lina”. Então, sem interrupções, começou a insultar pesadamente a cunhada.

Soube por ela que Lila, a prostituta, há quinze dias mandava e desmandava a seu bel-prazer na loja da Piazza dei Martiri. Gigliola teve que ceder e voltou à confeitaria dos Solara; ela mesma, Pinuccia, tivera que ceder, atrelada ao filho quem sabe até quando; todos tiveram que ceder, principalmente Stefano, como sempre. E agora, todos os dias, Lila inventava uma: ia trabalhar vestida de ajudante de Mike Bongiorno e, se o marido não a acompanhava de carro, deixava-se acompanhar sem problemas por Michele; gastara sabe-se lá quanto em dois quadros que representavam sabe-se lá o quê, e pendurou-os na loja não se sabe com que propósito; comprara um monte de livros e os colocara numa estante, no lugar dos sapatos; montou uma espécie de salão de recepções com sofás, poltronas, pufes e uma copa de cristal onde punha chocolatinhos de Gay Odin à disposição de quem quisesse, grátis, como se estivesse lá não para sentir o chulé dos clientes, mas para bancar a senhora do castelo.

“E não é só isso”, disse, “há uma coisa ainda pior.”

“O quê?”

“Você sabe o que Marcello Solara fez?”

“Não.”

“Lembra os sapatos que Stefano e Rino tinham dado a ele?”

“Aqueles feitos exatamente segundo o desenho de Lila?”

“Sim, uma porcaria de sapato, Rino sempre disse que entrava água neles.”

“E então, o que aconteceu?”

Pina me enredou numa história vertiginosa, às vezes confusa, de dinheiro, trapaças, enganos, dívidas. Aconteceu que Marcello, insatisfeito com os novos modelos feitos por Rino e Fernando, e certamente em conluio com Michele, mandara produzir aqueles sapatos não na fábrica Cerullo, mas numa outra, em Afragola. Depois disso, nas vésperas do Natal, os distribuiu com a marca Solara em todas as lojas, especialmente na da Piazza dei Martiri.

“E ele podia fazer isso?”

“Claro, os sapatos eram dele: meu irmão e meu marido, aqueles dois cretinos, deram de presente a ele, e ele pode fazer o que bem quiser.”

“E agora?”

“Agora”, concluiu, “estão circulando em Nápoles os sapatos Cerullo e os sapatos Solara. E os sapatos Solara estão vendendo muito bem, melhor que os Cerullo. E todo o lucro vai para os Solara. Tanto que Rino está nervosíssimo, porque esperava qualquer concorrência, mas não a dos próprios Solara, os sócios, e ainda por cima com um sapato feito com suas próprias mãos e depois estupidamente jogado fora.”

Então me lembrei de Marcello, da vez em que Lila o ameaçara com um trinchete. Era mais lento que Michele, mais tímido. Que necessidade tinha de fazer aquela afronta? Os negócios dos Solara eram numerosíssimos, alguns à luz do sol, outros não, e cresciam a cada dia. Tinham amizades poderosas desde os tempos do avô, faziam e recebiam favores. A mãe deles era agiota e tinha um livro que metia medo em meio bairro, a essa altura talvez até nos Cerullo e nos Carracci. Portanto, para Marcello e para o irmão, os sapatos e a loja da Piazza dei Martiri eram apenas uma das tantas fontes onde a família bebia, e seguramente não das mais importantes. Então por quê?

A história de Pinuccia começou a me incomodar: por trás da fachada do dinheiro, percebi algo de mais mesquinho. O amor de Marcello por Lila tinha terminado, mas a ferida permaneceu aberta e infeccionou. Desfeita qualquer dependência, ele se sentia livre para fazer mal aos que no passado o haviam humilhado. De fato, Pinuccia me disse: “Rino foi com Stefano protestar, mas não adiantou”. Os Solara os trataram com arrogância, era gente habituada a fazer o que bem quisesse, por isso o encontro foi praticamente como falar para as paredes. Por fim Marcello mencionou vagamente que ele e o irmão pensavam em fazer toda uma linha Solara que repetisse, com variações, os traços daquele sapato feito como amostra. E depois acrescentou, sem um nexo claro: “Vamos ver como suas novas produções se saem e se vale a pena mantê-las no mercado”. Entendeu? Entendi. Marcello queria eliminar a marca Cerullo, substituí-la pela Solara e, assim, causar um grande prejuízo econômico a Stefano. Preciso ir embora do bairro, de Nápoles — disse a mim mesma —, não estou nem aí para suas disputas. No entanto perguntei:

“E Lina?”

Os olhos de Pinuccia lançaram um lampejo feroz.

“O problema é justamente ela.”

Lina estava debochando de toda aquela história. Quando Rino e o marido se irritavam, ela os zombava assim: “Foram vocês que deram os sapatos a ele, não eu; foram vocês que fizeram negócios com os Solara, não eu. Se vocês são dois cretinos, o que é que eu posso fazer?”. Era hostil, não se sabia de que lado estava, se com a família ou com os dois Solara. Tanto é que, quando Michele insistiu mais uma vez dizendo que a queria na Piazza dei Martiri, ela de uma hora para outra aceitou; e mais, atormentou Stefano até que a deixasse ir.

“E como é que Stefano acabou cedendo?”, perguntei.

Pinuccia deu um longo suspiro de irritação. Stefano tinha cedido porque esperava que Lila — já que Michele insistira tanto, e visto que Marcello sempre tivera um fraco por ela — conseguisse ajeitar as coisas. Mas Rino não confiava na irmã, estava assustado, não dormia de noite. O velho sapato que ele e Fernando tinham descartado, e que Marcello mandara fabricar em sua forma original, estava fazendo sucesso, estava vendendo. O que aconteceria se os Solara começassem a tratar diretamente com Lila e ela, escrota que era desde nascença, depois de ter se recusado a desenhar novos sapatos para a família, passasse a desenhá-los para eles?

“Isso não vai acontecer”, garanti a Pinuccia.

“Foi ela quem lhe disse?”

“Não, eu não a encontro desde as férias.”

“E então?”

“Eu sei como ela é. Lina tem curiosidade por uma coisa e se empenha o mais que pode. Depois, uma vez que a conseguiu, a vontade passa e ela não pensa mais nisso.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Maria ficou contente ao ouvir aquelas minhas palavras, e se agarrou a elas para acalmar a filha.

“Você ouviu?”, ela disse. “Está tudo certo, Lenuccia sabe o que está dizendo.”

Mas de fato eu não sabia nada, a parte menos pedante de mim se lembrava bem da imprevisibilidade de Lila, por isso eu não via a hora de ir embora daquela casa. O que eu tenho a ver com isso, pensava, com essas histórias mesquinhas, com a pequena vingança de Marcello Solara, com toda essa luta e essa ânsia por dinheiro, por carros, por casas, por móveis e enfeites e férias? E como depois de Ischia, depois de Nino, Lila pôde voltar a tratar com esses camorristas? Vou tirar meu diploma, vou fazer um concurso, vou passar. Vou-me embora desse nojo, o mais longe possível. Então falei, enternecendo-me diante do menino que agora Maria pegava no colo:

“Como ele é lindo.”

 

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