História do novo sobrenome
Capítulo 71
Donato me disse que Nella tinha acordado, não me encontrara na casa e estava preocupada. Lidia também estava um pouco apreensiva, por isso lhe pedira que viesse me procurar. O único que achava normal que eu não estivesse em casa era ele. Tinha acalmado as duas mulheres, dissera: “Vão dormir, com certeza ela saiu para aproveitar a lua na praia”. No entanto, para agradá-las, e por prudência, tinha vindo checar se estava tudo bem. E de fato aqui estou eu, sentada, escutando a respiração do mar e contemplando a divina beleza do céu.
Falei assim, mais ou menos nessas palavras. Ele se sentou a meu lado, murmurou que me conhecia tão bem quanto a si mesmo. Tínhamos a mesma sensibilidade pelas coisas belas, a mesma necessidade de desfrutá-las, a mesma necessidade de buscar as palavras certas para dizer como a noite era suave, como a lua era deslumbrante, como o mar cintilava, como duas almas sabem encontrar-se e reconhecer-se no escuro, no ar perfumado. Enquanto falava, senti com clareza o ridículo de sua voz impostada, a boçalidade de seu poetar, o sentimentalismo atrás do qual se ocultava a ânsia de pôr as mãos em mim. Mas pensei: quem sabe realmente somos feitos do mesmo barro, quem sabe estamos de fato condenados sem culpa a uma mesma e idêntica mediocridade. Assim apoiei a cabeça em seu ombro e murmurei: “Estou com um pouco de frio”. E ele prontamente passou um braço em volta da minha cintura, me puxou devagar para perto de si, me perguntou se assim estava melhor. Respondi: “Sim”, num sopro, e Sarratore levantou meu queixo com o polegar e o indicador, encostou levemente os lábios nos meus, perguntou: “E assim?”. Então me cobriu de beijos cada vez menos leves, continuando a murmurar: “E assim, e assim, ainda está com frio, está melhor assim, está melhor?”. Sua boca era quente e úmida, a acolhi na minha com crescente gratidão, tanto que o beijo se tornou cada vez mais longo, a língua roçou a minha, empurrou-a, afundou em minha boca. Me senti melhor. Me dei conta de que recuperava terreno, que o gelo cedia, se derretia, que o medo se esquecia de si, que as mãos dele cancelavam o frio, mas de leve, como se fosse feito de estratos finíssimos e Sarratore tivesse a habilidade de limá-los com precisão cautelosa, um a um, sem os lacerar, e que até sua boca tivesse essa capacidade, e os dentes, a língua, e por isso ele soubesse muito mais sobre mim do que Antonio jamais conseguira aprender, que soubesse até o que nem eu mesma sabia. Eu tinha um eu oculto — compreendi — que dedos, boca, dentes e língua sabiam extrair. Estrato após estrato, abandonou todo esconderijo, se expôs de modo despudorado, e Sarratore mostrou saber a maneira de evitar que fugisse, que se envergonhasse, soube retê-lo como se fosse a razão absoluta de seu movimento afetuoso, de suas pressões ora suaves ora frenéticas. Durante todo o tempo, não me arrependi nem uma vez de ter aceitado o que estava ocorrendo. Não mudei de ideia e tive orgulho disso, queria que fosse assim, o impus a mim mesma. Fui ajudada, talvez, pelo fato de que Sarratore paulatinamente se esqueceu de seu linguajar floreado, de que, ao contrário de Antonio, não demandou nenhuma atitude minha, não pegou minha mão para que o tocasse, limitando-se a me convencer de que tudo em mim lhe agradava e se aplicando em meu corpo com o zelo, a devoção e o orgulho do macho todo absorto na demonstração de como conhecia a fundo as mulheres. Não o ouvi nem sequer constatar você é virgem, provavelmente tinha tanta certeza de minha condição que se surpreenderia do contrário. Quando fui arrastada por uma necessidade de prazer tão exigente e egocêntrica a ponto de apagar não só todo o mundo sensível, mas também o corpo dele, velho a meus olhos, e as etiquetas com que era classificável — pai de Nino, ferroviário-poeta-jornalista, Donato Sarratore —, ele percebeu e me penetrou. Senti que de início o fazia com delicadeza, depois com um choque preciso e decidido, que me causou um rasgo no ventre, uma pontada logo substituída por um ondejar ritmado, uma esfregação, um tranco, um esvaziar-me e preencher-me a golpes de desejo sôfrego. Até que se tirou para fora num arranque, emborcou de costas na areia e emitiu uma espécie de rugido estrangulado.
Ficamos em silêncio, o mar voltou, o céu tremendo, me senti aturdida. Isso impeliu mais uma vez Sarratore a seu lirismo barato, achou que devia reconduzir-me a mim mesma com palavras ternas. Consegui tolerar no máximo um par de frases. Levantei bruscamente, sacudi a areia dos cabelos, do corpo inteiro, me ajeitei como pude. Quando ele arriscou: “Onde podemos nos encontrar amanhã?”, respondi a ele em italiano, com uma voz calma e segura de si, que ele estava enganado, não devia me procurar nunca mais, nem em Cetara nem no bairro. E, como ele deu um sorrisinho cético, eu disse que o que Antonio, o filho de Melina, podia fazer com ele era nada em comparação ao que lhe faria Michele Solara, pessoa que eu conhecia bem e a quem bastaria dizer uma palavra para que ele se desse mal. Disse que Michele já não via a hora de quebrar-lhe a cara, porque ele tinha recebido dinheiro para escrever sobre a loja da Piazza dei Martiri e não fizera bem seu trabalho.
Durante todo o percurso de volta continuei ameaçando-o, em parte porque ele voltara à carga com frasezinhas melosas e eu queria que entendesse meus sentimentos com clareza, em parte porque eu estava maravilhada de como o tom de ameaça, que desde pequena eu só exercitara em dialeto, me soasse bem inclusive em língua italiana.
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