História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 19 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 18

No dia seguinte não encontrei Lila, mas, para minha surpresa, tive que ver seu marido.

De manhã eu tinha ido ao colégio deprimida, fazia calor, não tinha estudado, dormira pouco ou quase nada. As horas de aula tinham sido um desastre. Tinha procurado Nino na entrada da escola, queria subir as escadas com ele trocando pelo menos umas palavras, mas ele não aparecera, talvez estivesse passeando pela cidade com a namorada, talvez estivesse num dos cinemas que abrem de manhã e a beijasse no escuro, talvez estivesse no bosque de Capodimonte fazendo as mesmas coisas que eu fizera com Antonio durante meses. No primeiro horário eu tinha sido sabatinada em química e dera respostas confusas ou insuficientes, quem sabe que nota ia tirar, e já não havia tempo para remediar, corria risco de ficar em recuperação em setembro. Galiani cruzara comigo pelos corredores e tivemos uma conversa pacata cujo sentido era: o que está acontecendo com você, Greco, por que não estuda mais?, e eu não soubera dizer outra coisa senão: professora, eu estudo, estudo muitíssimo, juro, de modo que ela me ouviu por um tempo e depois me deixou plantada ali, indo para a sala dos professores. Fui chorar longamente no banheiro, um choro de autocomiseração pelo tanto que minha vida era desgraçada: tinha perdido tudo, os sucessos na escola, Antonio, com quem eu sempre quisera terminar e no final foi ele quem me deixou, e já me fazia falta. Lila, que desde que era a senhora Carracci se tornava outra a cada dia. Cansada, com dor de cabeça, voltei para casa a pé, pensando nela, em como me tinha usado — sim, usado — só para ir provocar os Solara, para se vingar do marido, para exibi-lo a mim em sua miséria de macho ferido, e me perguntei em todo o trajeto: será possível que se possa mudar tanto, que nada agora a diferencie de uma como Gigliola?

Mas, uma vez em casa, eis a surpresa. Minha mãe não me agrediu como de costume porque eu me atrasara e suspeitava que eu tivesse estado com Antonio, ou porque tinha deixado de fazer algum dos meus mil afazeres domésticos. Em vez disso, me falou com uma espécie de resmungo gentil:

“Stefano me perguntou se hoje à tarde você poderia acompanhá-lo até a costureira do Rettifilo.”

Achei que não tivesse entendido bem, estava tonta de cansaço e humilhação. Stefano? Stefano Carracci? Queria que o acompanhasse ao Rettifilo?

“Por que não vai com a mulher?”, brincou do outro cômodo meu pai, que formalmente estava doente, mas na realidade devia estar às voltas com suas transações indecifráveis. “Como é que aqueles dois passam o tempo? Ficam jogando baralho?”.

Minha mãe fez um gesto de irritação. Disse que talvez Lina estivesse ocupada, disse que devíamos ser gentis com os Carracci, disse que tinha gente que nunca estava contente com nada. Na verdade, meu pai estava mais que contente: manter boas relações com o salsicheiro significava que podíamos pegar comida a crédito e adiar o mais possível o pagamento. Mas ele gostava de bancar o espirituoso. Há algum tempo, sempre que tinha a ocasião, se divertia insistindo de modo alusivo numa suposta preguiça sexual de Stefano. De vez em quando perguntava à mesa: Carracci faz o quê, só gosta de televisão? E ria, e não era preciso muito para intuir que o sentido de sua pergunta era: como é que aqueles dois não fazem filhos, Stefano funciona ou não? Minha mãe, que pescava aquelas coisas no ar, respondia séria: é cedo, deixa o casal em paz, o que você quer? Mas de fato se divertia tanto ou mais que ele à ideia de que o salsicheiro Carracci, apesar do dinheiro que tinha, não funcionasse.

A mesa já estava posta, só me esperavam para comer. Meu pai se sentou com uma expressão meio marota e continuou brincando, dirigindo-se a minha mãe:

“Alguma vez eu lhe disse: lamento, esta noite estou cansado, vamos jogar baralho?”

“Não, porque você não é uma pessoa direita.”

“E você quer que eu me torne uma pessoa direita?”

“Um pouquinho, mas sem exagerar.”

“Então a partir desta noite vou ser uma pessoa direita como Stefano.”

“Eu disse sem exagerar.”

Como eu detestava aqueles duetos. Falavam como se estivessem certos de que eu e meus irmãos não pudéssemos entender; ou quem sabe davam por garantido que entendíamos cada nuance, mas achavam que esse era o modo correto de nos ensinar a sermos homens e mulheres. Esgotada pelos meus próprios problemas, eu queria ter começado a gritar, jogar o prato longe, fugir, não ver mais minha família, a umidade nos cantos do teto, as paredes descascadas, o cheiro da comida, tudo. Antonio: que tolice perdê-lo, eu já estava arrependida, queria que me perdoasse. Se eu ficar de recuperação em setembro, me disse, não me apresento, me faço reprovar, caso com ele imediatamente. Depois me voltou à mente Lila, como ela se arrumara, com que tom tinha falado aos Solara, o que tinha em mente, quanto a humilhação e o sofrimento a estavam tornando ruim. Divaguei assim a tarde toda, pensamentos desconexos. Uma imersão na banheira da casa nova, ansiedade por aquele pedido de Stefano, como avisar a minha amiga o que seu marido queria de mim. E a química. E Empédocles. E estudar. E parar de estudar. E por fim uma dor fria. Não havia saída. Sim, nem eu nem Lila nunca seríamos como a menina que tinha ido esperar Nino na saída da escola. Faltava a ambas algo de impalpável, mas fundamental, que ela demonstrava ter só de vê-la de longe e que ou se tinha ou não se tinha, porque para possuir aquela coisa não bastava aprender latim, grego ou filosofia, não servia nem mesmo ter o dinheiro dos embutidos ou dos sapatos.

Stefano chamou do pátio. Corri para baixo e logo vi em seu rosto uma expressão abatida. Disse que me pedia para acompanhá-lo a fim de recuperar a foto que a costureira estava expondo na vitrine sem permissão. Faça isso, por gentileza, murmurou num tom meio meloso. Depois me fez entrar no conversível sem dizer uma palavra, e partimos sob as rajadas de vento quente.

Assim que saímos do bairro, ele começou a falar e não parou mais até chegarmos à costureira. Expressou-se num dialeto suave, sem palavrões nem deboches. Começou dizendo que eu devia lhe fazer um favor, mas não esclareceu imediatamente qual era o favor, disse apenas, se enrolando, que se eu fizesse isso para ele é como se estivesse fazendo para minha amiga. Então passou a me falar de Lila, quanto ela era inteligente, quanto era linda. Mas é rebelde por natureza, acrescentou, e ou as coisas saem do jeito dela, ou ela não sossega até o fim. Lenu, você não sabe o que eu estou passando, ou talvez saiba, mas sabe apenas o que ela lhe conta. Mas me ouça também. Lina meteu na cabeça que eu só penso em dinheiro e talvez seja verdade, mas faço isso pela família, pelo irmão dela, pelo pai, por todos os parentes. Estou errado? Você é muito instruída, me diga se estou errado. O que ela quer de mim? A miséria de onde veio? Somente os Solara podem fazer fortuna? Queremos deixar o bairro nas mãos deles? Se você me disser que errei, eu nem vou discutir, admito logo que estou errado. Já com ela eu preciso discutir sempre. Não gosta de mim, já me disse, e vive repetindo isso. Fazer com que ela entenda que eu sou seu marido é uma guerra, e desde que me casei a vida ficou insuportável. Vê-la de manhã, de noite, dormir ao lado dela e não poder fazê-la sentir quanto eu a amo, com toda a força de que me sinto capaz, é uma coisa horrível.

Observei suas mãos largas apertando o volante, o rosto. Os olhos brilharam e ele admitiu que, na primeira noite de núpcias, teve de bater nela, que tinha sido forçado a isso, que ela toda manhã, toda noite lhe arrancava tapas das mãos só para degradá-lo e constrangê-lo a ser o que jamais, jamais, jamais gostaria de ser. Nesse ponto assumiu um tom quase assustado: fui obrigado a surrá-la de novo, não devia ter ido aos Solara vestida daquele jeito. Mas ela tem uma força interior que não consigo dobrar. É uma força ruim, que torna inúteis as boas maneiras, tudo. Um veneno. Já viu que ela não consegue engravidar? Os meses passam e não acontece nada. Os parentes, os amigos, os clientes me perguntam com um risinho na cara: temos novidades? E eu tenho de responder: que novidades?, fazendo de conta que não estou entendendo. Porque se eu entendesse deveria responder. E o que eu posso responder? Há coisas que você sabe, mas não se podem dizer. Ela, com a força que tem, mata os filhos lá dentro, Lenu, e o faz de propósito para que as pessoas pensem que não sou homem o bastante, para que eu faça um papel de merda diante de todos. O que você acha? Estou exagerando? Você não imagina o favor que está fazendo só de me escutar.

Não soube o que responder. Estava estupefata, nunca tinha ouvido um homem se expor daquela maneira. Durante todo o tempo, mesmo quando falou da própria violência, valeu-se de um dialeto cheio de sentimento, sem defesas, como o de certas canções. Ainda hoje não sei por que se comportou assim. Claro, depois me revelou o que queria. Queria que eu me aliasse a ele pelo bem de Lila. Disse que ela precisava ser ajudada a entender como era necessário que se comportasse como esposa, e não como inimiga. Me pediu que a convencesse a lhe dar uma mão na segunda charcutaria e com as contas. Mas para obter essas coisas não era preciso que se confessasse daquela maneira. Provavelmente pensou que Lila já me tivesse informado minuciosamente e que, portanto, precisasse me dar sua versão dos fatos. Ou talvez não tenha percebido que estava se abrindo com aquela franqueza à melhor amiga de sua mulher, e o tenha feito sob a onda das emoções. Ou supôs que, caso me comovesse, eu depois poderia comover Lila relatando-lhe tudo. O certo é que o escutei com crescente envolvimento. Aos poucos fui gostando daquele livre transbordar de confidências muito íntimas. Mas sobretudo — devo admitir — gostei da importância que ele me atribuía. Quando formulou com palavras suas uma suspeita que eu mesma sempre tive, ou seja, de que Lila possuía uma força que a tornava capaz de tudo, até de impedir seu organismo de conceber um filho, tive a impressão de que ele estava me atribuindo um poder benéfico, capaz de superar a força maléfica de Lila, e isso me deixou lisonjeada. Saímos do carro, nos dirigimos ao ateliê da costureira, e me senti consolada por aquele reconhecimento. Cheguei até a dizer pomposamente, em italiano, que eu faria o possível para ajudá-los a serem felizes.

Mas já em frente à vitrine da costureira voltei a ficar nervosa. Ambos paramos para olhar a fotografia emoldurada de Lila entre tecidos de várias cores. Estava sentada, as pernas cruzadas, o vestido de noiva um pouco repuxado revelando seus sapatos, um tornozelo. Apoiava o queixo na palma de uma mão, tinha um olhar sério, intenso, voltado atrevidamente para a lente, e entre os cabelos reluzia uma discreta coroa de flor de laranjeira. O fotógrafo tivera sorte, senti que havia captado a força sobre a qual Stefano tinha acabado de falar, e era uma força — acho que entendi naquele momento — contra a qual nem mesmo Lila tinha nenhum poder. Virei-me para ele como para dizer, ao mesmo tempo admirada e desolada: olha aí a coisa de que falávamos, mas ele empurrou a porta e me fez entrar.

O tom que usara comigo desapareceu, e ele foi duro com a costureira. Disse que era o marido de Lina, usou precisamente aquela fórmula. Esclareceu que também atuava no comércio, mas que jamais lhe ocorreria fazer publicidade daquele modo. Chegou a dizer: a senhora é uma bela mulher, o que seu marido diria se eu pegasse uma foto sua e a colocasse entre provolones e salames? Pediu-lhe de volta a fotografia.

A costureira ficou confusa, tentou se defender, por fim cedeu. Mas se mostrou muito contrariada e, para demonstrar a boa-fé de sua iniciativa e o motivo de seu lamento, contou três ou quatro coisas que mais tarde, com o passar dos anos, se tornaram uma pequena lenda no bairro. No período em que a foto estivera na vitrine, apareceram para pedir informações sobre a jovem vestida de noiva o famoso Renato Carosone, um príncipe egípcio, Vittorio De Sica e um jornalista do Roma que queria falar com Lila e mandar-lhe um fotógrafo para um ensaio em traje de banho, como aqueles que se fazem com as misses. A costureira jurou que negou o endereço a todos, ainda que, especialmente nos casos de Carosone e De Sica, a recusa lhe tenha parecido muito deselegante, haja vista a qualidade das pessoas.

Percebi que, quanto mais a costureira falava, mais Stefano se enternecia. Tornou-se sociável, quis que a mulher contasse com mais detalhes aqueles episódios. Quando saímos levando a foto conosco, seu humor tinha mudado, e o monólogo da volta não teve mais o tom sofrido do da ida. Stefano ficou alegre, começou a falar de Lila com a soberba de quem possui um objeto raro, de cuja posse auferia um grande prestígio. Claro que voltou a pedir minha ajuda. E, antes de me deixar na porta de casa, me fez jurar várias vezes que eu tentaria de todas as maneiras fazer Lila compreender qual era o bom e o mau caminho. Mas agora, segundo suas palavras, Lila não era mais uma pessoa ingovernável, mas uma espécie de fluido precioso encerrado num recipiente que lhe pertencia. Nos dias seguintes Stefano contou a quem quisesse ouvir, inclusive na charcutaria, sobre Carosone e De Sica, tanto que a coisa circulou e a mãe de Lila, Nunzia, enquanto viveu andou repetindo a todos que sua filha teria tido a possibilidade de se tornar uma cantora ou uma atriz, de estar no filme Matrimônio à italiana, aparecer na televisão, até se tornar uma princesa egípcia, caso a costureira do Rettifilo não tivesse sido tão reticente e se o destino não a tivesse feito se casar, aos dezesseis anos, com Stefano Carracci.

 

OceanofPDF.com