História do novo sobrenome
Capítulo 47
A semana transcorreu entre longas esperas e encontros que terminavam rápido demais. Os dois rapazes tinham horários que respeitavam com rigor. Acordavam às seis da manhã, estudavam até a hora do almoço, às três vinham andando nos encontrar, às sete iam embora, jantavam e recomeçavam a estudar. Mesmo sendo diferentes em tudo, ele e Bruno eram muito parceiros e só pareciam capazes de nos enfrentar porque um se fortalecia com a presença do outro.
Desde o início Pinuccia discordou dessa tese de parceria. Afirmou que os dois não eram nem particularmente amigos, nem particularmente solidários. Segundo ela, era uma relação que se sustentava inteiramente sobre a paciência de Bruno, que tinha um bom caráter e por isso aceitava sem se queixar que Nino lhe enchesse o saco o dia inteiro com as bobagens que saíam sem parar de sua boca. “Bobagens, sim”, repetiu, mas depois se desculpou com uma ponta de ironia por ter definido assim as conversas que tanto me agradavam. “Vocês são estudantes”, disse, “e é lógico que só se entendam entre si; mas pelo menos permitam que a gente se aborreça um pouco.”
Eu gostei muito daquelas palavras. Ratificaram na presença de Lila, testemunha muda, que entre mim e Nino havia uma espécie de relação exclusiva, na qual era difícil intrometer-se. Mas um dia aconteceu que Pinuccia disse a Bruno e a Lila, em tom depreciativo: “Deixemos esses dois bancando os intelectuais e vamos nadar, que a água está linda”. Bancando os intelectuais era claramente uma maneira de dizer que as coisas que falávamos não nos interessavam de verdade, que eram apenas um comportamento, uma atuação. E, embora aquela fórmula não me tenha desagradado em especial, a coisa irritou bastante Nino, que interrompeu uma frase pela metade. Ele deu um salto e correu antes de todos para um mergulho, sem se importar com a temperatura da água, e respingou água na gente enquanto avançávamos com arrepios, implorando para que ele parasse; então passou a lutar com Bruno como se quisesse afogá-lo.
Olha aí, pensei, está cheio de grandes pensamentos, mas, quando quer, também sabe ser alegre e animado. Por que então só me mostra seu lado mais sério? Galiani o convenceu de que só me interesso pelos estudos? Ou sou eu que, por causa dos óculos, do modo como falo, passo essa impressão?
A partir daquele momento percebi com tristeza que as horas da tarde se esvaíam deixando sobretudo palavras carregadas de sua ansiedade por se expressar e da minha de antecipar um conceito, de ouvi-lo declarar que concordava comigo. Nunca mais aconteceu de ele pegar minha mão, nem de me convidar para compartilhar sua toalha. Quando via Bruno e Pinuccia rindo por qualquer tolice, eu os invejava e pensava: como eu gostaria de rir com Nino daquele modo; não quero nada, não espero nada, só queria um pouco mais de intimidade, ainda que respeitosa, como aquela entre Pinuccia e Bruno.
Lila parecia às voltas com outros problemas. Durante toda a semana se comportou de modo tranquilo. Passava boa parte da manhã na água, nadando para cima e para baixo numa linha paralela à praia, a poucos metros da rebentação. Pinuccia e eu lhe fazíamos companhia, insistindo em passar instruções apesar de agora ela nadar muito melhor que nós. Mas logo ficávamos com frio e corríamos para nos estender na areia escaldante, enquanto ela continuava se exercitando com braçadas calmas, leves batidas dos pés, respirações ritmadas como lhe havia ensinado Sarratore pai. Tem de ser sempre exagerada, resmungava Pinuccia ao sol, alisando a barriga. E eu muitas vezes me levantava e gritava: “Chega de nadar, você está na água há muito tempo, assim vai pegar um resfriado”. Mas Lila não me dava bola e só saía quando estava roxa, os olhos brancos, os lábios azuis, os dedos enrugados. Eu a esperava na orla com a toalha quente de sol, a colocava sobre seus ombros, a esfregava energicamente.
Quando os dois rapazes chegavam — e eles não faltaram nenhum dia —, ou tomávamos outro banho juntos, embora Lila geralmente se recusasse e ficasse sentada na toalha nos olhando da areia, ou íamos todos passear e ela ficava atrás, catando conchinhas, ou, se eu e Nino começávamos a conversar sobre o universo, ela se punha a ouvir com muita atenção, mas raramente interferia. Como nesse meio tempo se estabeleceram pequenos hábitos, fiquei surpresa de que ela se empenhasse em respeitá-los. Por exemplo, Bruno sempre chegava com bebidas geladas que comprava ao longo do caminho, em um quiosque de praia, e um dia ela notou que, para mim, ele pegara um refrigerante, quando em geral eu tomava laranjada; eu disse: “Obrigada, Bruno, está bem assim”, mas ela o obrigou a ir trocar. Por exemplo, Pinuccia e Bruno a certa altura da tarde iam buscar coco fresco e, embora nos chamassem para acompanhá-los, Lila nunca pensou em fazer isso, nem eu, nem Nino: e assim se tornou inteiramente normal que eles saíssem enxutos, voltassem molhados do mar e trouxessem uma polpa de coco branquíssima, tanto que, se por acaso pareciam se esquecer, Lila dizia: “E o coco de hoje?”.
Em minhas conversas com Nino ela também prestava muita atenção. Quando falávamos disso e daquilo, ela ficava impaciente e perguntava a ele: “Não leu nada de interessante hoje?”. Nino sorria satisfeito, divagava um pouco e então retomava assuntos que lhe interessavam. Falava e falava, mas nunca houve verdadeiros atritos entre nós: eu quase sempre estava de acordo com ele e, se Lila interferia objetando alguma coisa, fazia-o rapidamente, com tato, sem jamais enfatizar o desacordo.
Numa tarde, ele estava citando um artigo muito crítico sobre o funcionamento da escola pública e em seguida passou a falar mal das escolas fundamentais que tínhamos frequentado no bairro. Eu concordei e passei a narrar as vergastadas que Oliviero nos aplicava no dorso das mãos quando errávamos e também as cruéis competições a que nos submetia. Mas Lila, para minha surpresa, disse que a escola fundamental tinha sido importantíssima para ela e elogiou nossa professora em um italiano que eu não ouvia há tempos, tão preciso e intenso que Nino não a interrompeu em nenhum momento para dizer sua opinião, mas ficou escutando com muita atenção e, por fim, disse frases genéricas sobre as diferentes necessidades que temos e sobre como uma mesma experiência pode satisfazer as demandas de um e ser insuficiente para outro.
Houve ainda outro caso em que Lila manifestou sua discordância com boas maneiras e num italiano educado. Eu me sentia cada vez mais propensa às teses que teorizavam intervenções competentes que, se realizadas a tempo, acabariam resolvendo os problemas, eliminando as injustiças e prevenindo os conflitos. Tinha rapidamente aprendido aquele esquema de raciocínio — nisso sempre fui boa — e o aplicava toda vez que Nino sacava questões sobre as quais havia lido aqui e ali: colonialismo, neocolonialismo, África. Mas numa tarde Lila disse devagar a ele que não havia nada que pudesse evitar o conflito entre ricos e pobres.
“Por quê?”.
“Os que estão em baixo querem ir para cima, os que estão em cima querem permanecer em cima, e de um modo ou de outro sempre se acaba com cusparadas e chutes na cara.”
“Justamente por isso o ponto central é resolver os problemas antes que se chegue à violência.”
“E como? Levando todos para cima, levando todos para baixo?”
“Encontrando um ponto de equilíbrio entre as classes.”
“Um ponto onde? Os de baixo se encontram a meio caminho com os de cima?”
“Digamos que sim.”
“E os de cima vão descer de bom grado? E os de baixo vão renunciar a subir mais alto?”
“Caso se trabalhe para resolver bem essas questões, sim. Não acredita?”
“Não. As classes não jogam trunfo, mas lutam, e a luta é até a última gota de sangue.”
“É o que pensa Pasquale”, eu disse.
“Agora eu também penso assim”, respondeu tranquila.
Afora aquelas poucas trocas diretas, raramente houve entre Lila e Nino conversas que não fossem mediadas por mim. Lila nunca se dirigia diretamente a ele, nem Nino se dirigia a ela, pareciam constrangidos um na presença do outro. Vi que ela estava muito mais à vontade com Bruno, que, mesmo sendo taciturno, conseguiu, graças à sua gentileza e ao tom agradável com que às vezes a chamava de senhora Carracci, estabelecer uma certa familiaridade. Por exemplo, numa vez em que tomamos um longo banho todos juntos e Nino, me surpreendendo, evitou aquelas suas longas nadadas que me deixavam ansiosa, ela se dirigiu a Bruno, e não a ele, pedindo que lhe mostrasse de quantas em quantas braçadas era preciso tirar a cabeça da água e respirar. O rapaz prontamente lhe deu uma demonstração. Mas Nino se irritou por não ter sido levado em consideração quanto à sua mestria no nado e interveio zombando dos braços curtos de Bruno, do ritmo frouxo. Então ele quis mostrar a Lila o modo correto. Ela o observou com atenção e logo o imitou. Ou seja, no final Lila estava nadando tão bem que Bruno a chamou de Esther Williams de Ischia, dizendo que se tornara exímia como a diva-nadadora do cinema.
Quando chegamos ao fim de semana — lembro que era um esplêndido sábado de manhã, o ar ainda estava fresco e o cheiro intenso dos pinheiros nos acompanhou por todo o caminho, até chegarmos à praia —, Pinuccia confirmou de modo categórico:
“O filho de Sarratore é realmente insuportável”.
Defendi Nino timidamente. Disse com ar competente que, quando se estuda, quando nos apaixonamos pelas coisas, sente-se a necessidade de comunicar nossas paixões aos outros, e para ele era assim. Lila não pareceu convencida, disse uma frase que me soou ofensiva:
“Se você tirar da cabeça de Nino as coisas que ele leu, não fica mais nada”.
Rebati:
“Não é verdade. Eu o conheço, ele tem um monte de qualidades”.
Já Pinuccia deu razão a Lila com entusiasmo. Mas ela, talvez porque aquele consenso lhe desagradasse, disse que não se expressara bem e de repente inverteu o sentido da frase, como se ela mesma a tivesse formulado apenas por teste e agora, ao ouvi-la, se arrependesse e pisasse em ovos para remediar. Ele, esclareceu, está se habituando a pensar que somente as grandes questões é que importam, e se calhar vai viver a vida inteira só por elas, sem se incomodar com mais nada; não é como nós, que só pensamos em nossas coisas: no dinheiro, na casa, no marido, em ter filhos.
Quanto a mim, também não gostei daquele significado. O que ela estava dizendo? Que Nino não teria sentimentos pelas pessoas, que seu destino era viver sem amor, sem filhos, sem casamento? Fiz um esforço e disse:
“Você sabia que ele tem uma namorada e que gosta muito dela? Eles se escrevem uma vez por semana”.
Pinuccia se intrometeu:
“Bruno não tem namorada, mas está procurando sua mulher ideal e, assim que a encontrar, diz que se casa e quer ter muitos filhos”. Depois, sem nenhum nexo evidente, suspirou: “Esta semana passou voando”.
“Não está contente? Já, já seu marido está de volta”, repliquei.
Pareceu quase ofendida com a possibilidade de que eu pudesse imaginar algum incômodo de sua parte pelo retorno de Rino. Exclamou:
“Claro que estou contente”.
Então Lila me perguntou:
“E você? Está contente?”.
“Com a volta de seus maridos?”.
“Não, você entendeu muito bem.”
Eu tinha entendido, mas não admiti. Ela queria dizer que amanhã, domingo, enquanto as duas estariam às voltas com Stefano e Rino, eu poderia encontrar os dois rapazes sozinha; aliás, quase com certeza, como ocorrera na semana anterior, Bruno ficaria por sua própria conta, e eu passaria a tarde com Nino. E ela estava certa, era justamente isso o que eu esperava. Há dias, antes de dormir, eu pensava no fim de semana. Lila e Pinuccia teriam suas alegrias conjugais, e eu teria as pequenas felicidades de uma solteira de óculos que passa a vida estudando: um passeio, caminhar de mãos dadas. Ou quem sabe até mais que isso. Desabafei rindo:
“Entender o quê, Lila? Sorte de vocês, que são casadas”.
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