História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 4 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 3

Os fatos no fim das contas me decepcionaram. Sentei-me ao lado de Alfonso e Marisa, sem dar atenção a suas conversas. Esperei sinais de revolta, mas nada aconteceu. Estar dentro da cabeça de Lila era, como sempre, muito difícil: não a ouvi gritar, não a ouvi ameaçar. Stefano reapareceu meia hora depois, muito cordial. Trocara de roupa, a mancha esbranquiçada entre a fronte e os olhos desaparecera. Circulou entre parentes e amigos esperando que a esposa chegasse e, quando ela retornou ao salão não mais vestida de noiva, mas em roupa de viagem, um tailleur azul pastel, com botões claríssimos e um chapeuzinho azul, foi logo ao seu encontro. Lila distribuiu os docinhos entre as crianças pegando-os com uma colher de prata de um recipiente de cristal, depois passou pelas mesas oferecendo as lembranças de casamento primeiro a seus parentes e em seguida aos parentes de Stefano. Ignorou toda a família Solara e até seu irmão Rino, que lhe perguntou com um sorrisinho ansioso: não gosta mais de mim? Ela não respondeu e passou as lembranças a Pinuccia. Tinha o olhar ausente, as maçãs do rosto mais marcadas que de costume. Quando chegou minha vez, me ofereceu distraída, sem sequer um sorriso cúmplice, o cestinho de cerâmica cheio de bem-casados envolvidos no tule branco.

Enquanto isso os Solara se irritaram com a descortesia, mas Stefano remediou abraçando-os um a um com uma bela expressão pacífica, murmurando:

“Está cansada, é preciso ter paciência”.

Deu até dois beijos em Rino, o cunhado fez uma expressão descontente, e o ouvir dizer:

“Não é cansaço, Sté, essa aí nasceu torta, e lamento por você”.

Stefano respondeu sério:

“As coisas tortas se endireitam”.

Depois o vi correr atrás da esposa que já estava na porta, enquanto a orquestra difundia sons embriagados e muitos se aglomeravam para os últimos cumprimentos.

Portanto nada de rupturas, não escaparíamos juntas pelas estradas do mundo. Imaginei os noivos, bonitos, elegantes, entrando no conversível. Dali a pouco chegariam à costa amalfitana, a um hotel de luxo, e toda ofensa sangrenta se transmutaria num beicinho fácil de ser apagado. Nenhuma reviravolta. Lila se afastara de mim definitivamente e — me pareceu de repente — a distância era de fato maior do que eu tinha imaginado. Não havia apenas se casado, não se limitaria a dormir com um homem todas as noites para cumprir as obrigações conjugais. Havia algo que eu não tinha entendido e que naquele momento me pareceu flagrante. Dobrando-se à evidência de que seu marido e Marcello Solara tinham selado sabe-se lá que acordo em torno de sua obra de infância, Lila admitira que gostava mais dele que de qualquer outra pessoa ou coisa. Se ela já se rendera, se já tinha digerido aquela afronta, a ligação com Stefano devia ser realmente forte. Ela o amava, o amava como as meninas das fotonovelas. Durante o resto da vida lhe sacrificaria todas as suas qualidades, e ele nem sequer se daria conta do sacrifício, teria em torno de si a riqueza de sentimentos, de inteligência e de fantasia que a caracterizava sem saber o que fazer com isso, simplesmente a esgotaria. Eu — pensei — não sou capaz de amar ninguém assim, nem mesmo Nino, só sei passar o tempo sobre os livros. E por uma fração de segundo me vi idêntica a uma tigela amassada com a qual minha irmã Elisa dera de comer a um gatinho até que ele desapareceu e a tigela ficou vazia e empoeirada no patamar da escada. Foi naquela altura que, com uma forte sensação de angústia, me convenci de ter avançado muito além do que devia. Preciso voltar atrás, disse a mim mesma, devo fazer como Carmela, Ada, Gigliola, a própria Lila. Aceitar o bairro, expulsar aquela arrogância, castigar a presunção, parar de humilhar quem me ama. Quando Alfonso e Marisa saíram a tempo de chegar para o encontro com Nino, dei uma grande volta para evitar minha mãe e alcancei meu namorado no terraço.

Meu vestido era muito leve, o sol tinha ido embora, começava a fazer frio. Assim que me viu, Antonio acendeu um cigarro e se virou, fingindo que olhava o mar.

“Vamos embora”, eu disse.

“Vá com o filho de Sarratore.”

“Quero ir com você.”

“Você é uma mentirosa.”

“Por quê?”

“Porque, se aquele sujeito a quisesse, você me deixaria aqui sem nem dizer tchau.”

Era verdade, mas fiquei aborrecida por ele me dizer aquilo tão abertamente, sem estar atento às palavras. Sibilei:

“Se você não entende que estou aqui correndo o risco de que a qualquer momento minha mãe apareça e me encha de tapas por culpa sua, então quer dizer que só pensa em você, que não se importa nem um pouco comigo”.

Ele sentiu em minha voz pouco dialeto, notou a frase longa, os subjuntivos, e perdeu a calma. Jogou fora o cigarro, agarrou-me pelo pulso com uma força cada vez mais descontrolada e gritou — um grito apertado na garganta — que ele estava ali por mim, só por mim, e que eu mesma lhe pedira que ficasse a seu lado o tempo todo, na igreja, na festa, eu, sim, e ainda me fez jurar, estertorou, jure, você disse, que nunca vai me deixar sozinha, e então mandei fazer o terno e estou cheio de dívidas com a senhora Solara, e só para lhe agradar, para fazer como você disse, não estive nem um minuto com minha mãe e meus irmãos; mas a recompensa qual é, a recompensa é que você me tratou feito um merda, só conversou com o filho do poeta e me humilhou na frente de todos os amigos, me fez bancar o otário, porque para você eu não sou ninguém, porque você é muito instruída e eu não, porque eu não entendo as coisas que diz, e é verdade, verdade verdadeira que não compreendo, caralho, Lenu, olhe pra mim, olhe pra mim: você acha que pode mandar em mim com uma varinha, acha que não sou capaz de dizer chega, mas se engana, você sabe tudo, mas não sabe que se agora você sair comigo por aquela porta, e se eu lhe disser tudo bem então vamos, mas depois descubro que você se encontra na escola ou quem sabe onde com aquele escroto do Nino Sarratore, eu te mato, Lenu, por isso pense bem, me deixe aqui no meu canto, se desesperou, me deixe que é melhor pra você, e enquanto isso me fixava com os olhos vermelhos e enormes, pronunciando as palavras com a boca escancarada e gritando sem gritar, com as narinas abertas, escuríssimas, e tanto sofrimento na cara que eu pensei talvez esteja se ferindo por dentro, porque as frases, gritadas assim na garganta, no peito, mas sem explodir no ar, são como estilhaços de ferro cortante a lhe ferir os pulmões e a faringe.

Eu sentia confusamente a necessidade daquela agressão. O aperto no pulso, o medo de que me espancasse, aquele rio de palavras dolentes acabou me consolando, tive a impressão de que pelo menos ele gostava muito de mim.

“Você está me machucando”, murmurei.

Aos poucos ele afrouxou a pegada, mas ficou me olhando de boca aberta. Dar-lhe peso e autoridade, ancorar-me nele, a pele do pulso estava ficando roxa.

“E então?”, me perguntou.

“Quero ficar com você”, respondi, mas amuada.

Fechou a boca, os olhos se encheram de lágrimas, olhou na direção do mar para ter tempo de engoli-las.

Logo depois já estávamos na rua. Não esperamos Pasquale, Enzo, as meninas, saímos sem nos despedir de ninguém. O mais importante era que minha mãe não me visse, por isso fomos embora a pé, no escuro. No início caminhamos um ao lado do outro sem nos tocar, depois Antonio envolveu meu ombro com o braço num gesto indeciso. Queria me mostrar que esperava ser perdoado, quase como se o culpado fosse ele. Como me amava, tinha decidido considerar as horas que eu passara sob seus olhos com Nino, num jogo de sedução, como um lapso de alucinações.

“Ficou roxo?”, me perguntou, tentando pegar meu pulso.

Não respondi. Apertou-me o ombro com a mão larga, e tive um impulso de irritação que o levou imediatamente a afrouxar os dedos. Esperou, esperei. Quando tentou mais uma vez me lançar um sinal de rendição, passei o braço em torno de sua cintura.

 

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