História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 53 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 52

Aos poucos ela se aquietou, mas passou a noite de cara amarrada, como se lhe tivéssemos feito sabe-se lá o que de ruim. Como a certa altura ela foi indelicada até com Nunzia, criticando o ponto de cozimento da massa com maus modos, Lila bufou e passou de repente a um dialeto feroz, descarregando sobre ela os insultos mais fantasiosos de que era capaz. Pina decidiu que naquela noite dormiria comigo.

Teve um sono agitado. Além disso, como éramos duas naquele quartinho, não se conseguia respirar de tanto calor. Molhada de suor, acabei abrindo a janela e fui atormentada pelos mosquitos. Isso me tirou o sono definitivamente, esperei amanhecer e me levantei.

Agora eu também estava de péssimo humor, tinha três ou quatro picadas no rosto que me deformavam. Fui até a cozinha, Nunzia estava lavando nossa roupa suja. Lila também já tinha acordado, tomara um mingau e agora estava lendo outro livro meu, que eu nem sei quando surrupiara. Assim que me viu, lançou-me um olhar indagador e perguntou com uma apreensão genuína, que eu não esperava:

“Como Pinuccia está?”.

“Não sei.”

“Você está chateada?”

“Estou, não preguei olho, e veja como está minha cara.”

“Não se vê nada.”

“Você não vê nada.”

“Nem Nino nem Bruno vão notar nada.”

“E daí?”

“Você gosta de Nino?”

“Já lhe disse cem vezes que não.”

“Calma.”

“Estou calma.”

“Vamos ficar de olho em Pinuccia.”

“Fique atenta você, ela é sua cunhada, não minha.”

“Você está chateada.”

“Estou, estou sim.”

O dia foi ainda mais quente que o anterior. Fomos para a praia apreensivas, o mau humor passava de uma a outra como uma infecção.

No meio do caminho, Pinuccia se deu conta de que não pegara sua toalha e teve outro ataque de nervos. Lila seguiu em frente de cabeça baixa, sem nem olhar para trás.

“Eu vou buscar para você”, me ofereci.

“Não, vou voltar para casa, hoje não estou a fim de praia.”

“Não está se sentido bem?”

“Estou ótima.”

“E então?”

“Olha só minha pança.”

Olhei sua barriga e disse sem pensar:

“E eu? Não está vendo essas picadas na minha cara?”

Ela se pôs a gritar, me disse você é uma cretina e foi embora a passos rápidos em direção a Lila.

Quando nos instalamos na praia, ela me pediu desculpas e murmurou você é tão certinha que às vezes me irrita.

“Não sou certinha.”

“Queria dizer que você é boa.”

“Não sou boa.”

Lila, que tentava de todo jeito nos ignorar fixando a praia na direção de Forio, disse gélida:

“Parem com isso, eles estão chegando”.

Pinuccia estremeceu. “O verbo li”, sussurrou com uma repentina suavidade na voz e passou de novo o batom, embora já tivesse bastante.

Em matéria de mau humor, os dois rapazes não ficaram atrás. Nino disse em tom sarcástico, dirigindo-se a Lila:

“Hoje à noite chegam os maridos?”

“Claro.”

“E o que vocês vão fazer de bom?”

“Vamos comer, beber e dormir.”

“E amanhã?”

“Amanhã vamos comer, beber e dormir.”

“Eles ficam no domingo à noite?”

“Não, no domingo vamos comer, beber e dormir só de tarde.”

Fiz esforço para dizer, me escondendo num tom autoirônico:

“Eu estou livre: não como, não bebo e não durmo.”

Nino me olhou como se estivesse percebendo algo que nunca havia notado, tanto que passei uma mão na maçã direita do rosto, onde tinha uma picada mais inchada que as outras. Então me disse sério:

“Bem, então amanhã nos vemos aqui às sete da manhã e depois subimos a montanha. Na volta, praia até tarde. O que acha?”

Senti nas veias o calor do júbilo, disse aliviada:

“Tudo bem, às sete, eu trago o lanche.”

Pinuccia perguntou desolada:

“E nós?”

“Vocês têm seus maridos”, murmurou ele — e pronunciou maridos como se dissesse sapos, cobras, aranhas, tanto que ela se ergueu de um salto e foi até a beira do mar.

“Está meio sensível demais nesta fase”, tentei justificá-la, “mas é culpa da gravidez, em geral não é assim.”

Bruno falou com seu tom paciente:

“Vou com ela buscar o coco.”

Nós o seguimos com o olhar — baixinho mas bem proporcionado, o tórax potente, as coxas fortes —, enquanto ele se movia na areia com o passo calmo, como se o sol tivesse se esquecido de escaldar os grãos que pisava. Quando Bruno e Pina seguiram rumo ao bar, Lila disse:

“Vamos dar uma nadada”.

 

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