História do novo sobrenome
Capítulo 16
Arrastei Lila até nosso velho pátio, não via a hora de dizer a Antonio o que eu tinha feito por ele. Confidenciei a ela, superexcitada: assim que ele se acalmar um pouco, vou deixá-lo — mas ela não fez comentários, me pareceu distraída.
Chamei, Antonio apareceu na janela, desceu sério. Cumprimentou Lila aparentemente sem se dar conta de como ela estava vestida e maquiada, esforçando-se para olhá-la o menos possível, talvez porque temia que ela lesse em seu rosto a perturbação de homem. Eu disse a ele que não podia ficar muito tempo, só queria lhe dar uma boa notícia. Então ele se pôs a ouvir, mas já enquanto eu falava notei que ele se retraía como diante da ponta de uma faca. Ele prometeu que vai ajudar você, enfatizei ainda com entusiasmo, e pedi confirmação a Lila:
“Marcello disse isso, não é verdade?”
Lila se limitou a assentir. Mas Antonio estava palidíssimo, sempre de olhos baixos. Murmurou com a voz embargada:
“Nunca lhe pedi que falasse com os Solara”.
Lila disse imediatamente, mentindo:
“Foi uma ideia minha”.
Antonio respondeu sem olhar para ela:
“Obrigado, não era preciso”.
Despediu-se dela — dela, não de mim —, virou as costas e sumiu pelo portão.
Senti uma dor no estômago. Em que eu tinha errado, por que ele reagira daquele modo? Andando pela rua desabafei, disse a Lila que Antonio era pior que a mãe, Melina, o mesmo temperamento instável, não aguentava mais. Ela me deixou falar enquanto nos encaminhávamos para sua casa. Quando chegamos, me convidou para subir.
“Stefano está em casa”, objetei, mas não era esse o motivo, estava ansiosa com a reação de Antonio e queria ficar sozinha, entender em que ponto eu tinha errado.
“Só cinco minutos e depois você vai.”
Subi. Stefano estava de pijama, todo descabelado, a barba por fazer. Cumprimentou-me com gentileza, lançou um olhar à mulher, ao pacote de doces.
“Você esteve no bar Solara?”
“Estive.”
“Vestida assim?”
“Não estou bem?”
Stefano sacudiu a cabeça de mau humor e abriu o pacote.
“Quer um doce, Lenu?”
“Não, obrigada, preciso ir almoçar.”
Ele mordeu um cannolo, se dirigindo à mulher.
“Quem vocês viram no bar?”
“Seus amigos”, disse Lila, “me fizeram muitos elogios. Não é verdade, Lenu?”
Contou a ele cada palavra que os Solara lhe disseram, exceto a questão de Antonio, ou seja, o motivo pelo qual me parecera que ela queria me acompanhar. Por fim concluiu com um tom ostensivamente satisfeito:
“Michele quer colocar minha foto bem grande na loja da Piazza dei Martiri.”
“E você disse que tudo bem?”
“Disse que eles precisam falar com você.”
Stefano terminou o cannolo com uma só dentada e depois lambeu os dedos. Disse como se fosse a coisa que mais o incomodara:
“Viu o que você me força a fazer? Por culpa sua, amanhã vou ter de perder tempo com a costureira do Rettifilo.” Suspirou, se dirigiu a mim: “Lenu, você que tem a cabeça no lugar, tente explicar a sua amiga que neste bairro eu preciso trabalhar, que ela não deve me impor o vexame de fazer o papel de cretino. Bom domingo, e lembranças a papai e mamãe.”
E foi para o banheiro.
Por trás, Lila lhe dirigiu uma careta zombeteira e então me acompanhou até a porta.
“Se você quiser, eu fico”, disse.
“É um bosta, não se preocupe.”
Repetiu com voz grossa de macho palavras como: tente explicar a sua amiga, não deve me impor o vexame de fazer o papel de cretino, e a caricatura fez que seus olhos se alegrassem.
“E se ele bater em você?”
“Não estou nem aí para as surras. Passa um pouco de tempo, e estou melhor do que antes.”
No patamar da escada me disse ainda, de novo com voz masculina: Lenu, neste bairro eu preciso trabalhar, e então me vi na obrigação de imitar Antonio, sussurrei: obrigado, mas não era preciso, e de repente foi como se nos víssemos de fora, ambas com problemas com nossos homens, paradas ali na soleira, empenhadas numa representação de mulheres, e começamos a rir. Disse a ela: basta darmos um passo e erramos, vai entender os homens, ah, como eles nos aborrecem, abracei-a forte e fui embora. Mas nem tinha chegado ao térreo e já ouvia Stefano gritando-lhe palavras odiosas e terríveis. Agora tinha uma voz de ogro, como a de seu pai.
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