História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 106 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 105

Antes de partir fui procurar Enzo. Como no momento em que lhe falei Lina me pediu que lhe dissesse que ela tentou, mas não conseguiu não passou nem sequer uma sombra de emoção em seu rosto, pensei que a mensagem o tivesse deixado indiferente. “Está muito mal”, acrescentei. “Por outro lado, não sei o que se pode fazer.” Ele comprimiu os lábios e assumiu uma expressão grave. Nos despedimos.

No trem abri a caixa de metal, mesmo tendo jurado que não o faria. Havia oito cadernos. Desde as primeiras páginas comecei a passar mal. Uma vez em Pisa, o mal-estar cresceu nos dias seguintes, nos meses. Cada palavra de Lila me diminuiu. Cada frase, até aquelas escritas quando ainda era uma menina, parecia esvaziar as minhas não da infância, mas de agora. E no entanto cada página acendeu em mim pensamentos próprios, ideias próprias, páginas próprias, como se até aquele momento eu tivesse vivido num torpor estudioso, mas inconclusivo. Aprendi de cor aqueles cadernos e, no fim das contas, eles me fizeram sentir o mundo da Normal — as amigas e os amigos que me estimavam, o olhar afetuoso dos professores que me encorajavam a fazer sempre mais — parte de um universo demasiado protegido e, por isso mesmo, demasiado previsível se comparado àquele tempestuoso que, nas condições de vida do bairro, Lila tinha sido capaz de explorar com suas linhas apressadas, em páginas amarrotadas e manchadas.

Cada esforço meu do passado me pareceu sem sentido. Me assustei, durante meses estudei mal. Eu estava só, Franco Mari tinha perdido a vaga na Normal, não conseguia me livrar da impressão de insignificância que me atingira. A certa altura me pareceu evidente que em breve eu tiraria uma nota ruim e também seria mandada de volta para casa. Por isso, numa noite do final de outono, sem um plano preciso, saí levando a caixa de metal. Parei na ponte Solferino e a atirei no Arno.

 

OceanofPDF.com