História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 100 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 99

 

Foi então que ficou obcecada por estimular a inteligência do filho. Não sabia que livros comprar e pediu a Alfonso que perguntasse aos livreiros. Alfonso lhe trouxe um par de volumes, aos quais Lila se dedicou com afinco. Em seus cadernos encontrei apontamentos sobre como lia textos complexos: avançava com dificuldade página a página, mas depois de um tempo perdia o sentido, pensava em outra coisa; no entanto impunha ao olho que continuasse deslizando pelas linhas, os dedos passavam a página automaticamente e, ao final, tinha a impressão de que, mesmo não tendo entendido, as palavras tivessem igualmente entrado em sua cabeça trazendo pensamentos. A partir daquele momento relia todo o livro e, ao ler, corrigia os pensamentos ou os ampliava, até que o texto não lhe servisse mais, e então procurava outros.

O marido voltava para casa à noite e a encontrava sem ter preparado o jantar, brincando com o menino com jogos que ela mesma inventava. Ele se zangava, mas ela — como já acontecia há tempos — não tinha reações. Parecia não o escutar, quase como se a casa fosse habitada apenas por ela e pelo filho, e, quando se levantava e ia cozinhar, o fazia não porque Stefano estivesse com fome, mas porque a fome tinha batido nela mesma.

Foi naqueles meses que, após um longo período de tolerância recíproca, suas relações tornaram a piorar. Uma noite Stefano gritou que estava cheio dela, do menino, de tudo. Em outra ocasião, disse que se casara jovem demais, sem entender o que estava fazendo. Mas na vez em que ela lhe respondeu: “Nem eu sei o que estou fazendo aqui, vou pegar o menino e vou embora”, ele, em vez de gritar então vá, perdeu a calma como não perdia há tempos e bateu nela na frente do filho, que a fixava do cobertor sobre o assoalho, um tanto zonzo com o barulho. Com o nariz pingando sangue e Stefano lhe gritando insultos, Lila se voltou para o filho, rindo, e lhe disse em italiano (há tempos só lhe falava em italiano): “Papai está brincando, estamos nos divertindo”.

Não sei por que, mas a certa altura passou a cuidar também do sobrinho Fernando, que agora todos chamavam de Dino. É possível que tudo tenha começado porque ela precisava pôr Gennaro em contato com outro menino. Ou talvez não, talvez porque tenha tido escrúpulos em se dedicar apenas ao filho e tenha achado justo cuidar também do sobrinho. Já Pinuccia, mesmo que continuasse a considerar Dino a prova viva do desastre de sua vida e a gritar frequentemente com ele, às vezes o maltratando: “Quer parar, quer parar? O que você quer de mim, quer me deixar louca?”, se opôs decididamente a que ela o levasse para casa e o submetesse a brincadeiras misteriosas com o pequeno Gennaro. Disse com raiva: “Pense em criar seu filho que eu penso no meu, e em vez de perder tempo vá cuidar de seu marido, se não vai perdê-lo”. Mas aí apareceu Rino.

Era uma fase péssima para o irmão de Lila. Brigava continuamente com o pai, que queria fechar a fábrica de calçados porque estava cansado de trabalhar só para enriquecer os Solara e, sem entender que era preciso seguir adiante de qualquer jeito, lamentava sua velha oficina. Brigava continuamente com Marcello e Michele, que no entanto o tratavam como um rapazinho petulante e, quando o assunto era dinheiro, tratavam diretamente com Stefano. Brigava sobretudo com este último, gritos e ofensas, porque o cunhado não lhe dava mais um centavo e, segundo ele, agora estava em tratativas secretas para decidir a passagem de todo o negócio de sapatos para as mãos dos Solara. Brigava com Pinuccia, que o acusava de a ter convencido de que ele era sabe-se lá o que, e no entanto era uma marionete que se deixava conduzir por todo mundo, pelo pai, por Stefano, por Marcello e Michele. Por isso, quando entendeu que Stefano implicava com Lila por ela ser muito mais mãe que esposa, e que Pinuccia não queria confiar o menino à cunhada nem sequer por uma hora, começou por provocação a levar pessoalmente o menino para a irmã. E, como na fábrica havia cada vez menos trabalho, pegou o hábito de ficar às vezes por horas no apartamento do bairro novo observando o que Lila fazia com Gennaro e com Dino. Ficou encantado com a paciência maternal dela, com a maneira como as crianças se divertiam, com o modo como seu filho, que em casa sempre chorava ou ficava entorpecido no cercadinho como um filhote melancólico, com Lila se tornava ágil, veloz, parecia feliz.

“O que você faz com eles?”, perguntava admirado.

“Eu os estimulo a brincar.”

“Meu filho também brincava antes.”

“Aqui ele brinca e aprende.”

“Por que você perde tanto tempo com isso?”

“Porque li que tudo o que somos se decide agora, nos primeiros anos de vida.”

“E o meu está crescendo bem?”

“Não está vendo?”

“Sim, estou, é mais esperto que o seu.”

“O meu é menor.”

“Você acha que Dino é inteligente?”

“Todas as crianças são, basta ensiná-las.”

“Então ensine a ele, Lina, não se canse logo como costuma fazer. Faça com que ele se torne inteligentíssimo.”

Mas aconteceu que uma noite Stefano voltou antes do habitual, e particularmente nervoso. Encontrou o cunhado sentado no chão da cozinha e, em vez de se limitar a fechar a cara por causa da bagunça, do desinteresse da mulher, da atenção dispensada às crianças, e não a ele, disse a Rino que aquela era sua casa, que o ver às voltas todos os dias perdendo tempo não lhe agradava, que a fábrica estava indo para o brejo justamente por ele ser tão preguiçoso, que os Cerullo não eram confiáveis, enfim, que ou você vai embora imediatamente ou eu o expulso a pontapés.

Houve um pandemônio. Lila gritou que ele não podia falar assim com seu irmão, Rino jogou na cara do cunhado tudo o que até aquele momento só havia insinuado ou que guardava para si por cautela. Voaram ofensas pesadas. Os dois meninos, abandonados na confusão, passaram a arrancar os brinquedos um do outro aos gritos, especialmente o menor, que era subjugado pelo maior. Rino berrou a Stefano, o pescoço inchado, as veias saltadas como cabos elétricos, que era fácil bancar o patrão com os bens que dom Achille roubara de meio bairro, e acrescentou: “Você não é ninguém, você é só um merda, seu pai, sim, sabia ser bandido, você nem isso sabe”.

Houve um momento terrível, ao qual Lila assistiu aterrorizada. De repente Stefano agarrou Rino pelos flancos com ambas as mãos como um bailarino de dança clássica com sua parceira e, embora fossem da mesma altura e mesma compleição, embora Rino se debatesse, urrasse e cuspisse, ergueu-o com uma força descomunal e o arremessou contra a parede. Imediatamente depois pegou-o pelo braço e o arrastou pelo chão até a porta, abriu-a, recolocou-o de pé e o atirou escada abaixo, mesmo Rino tentando reagir, mesmo Lila tendo despertado e se agarrado a ele, implorando que se acalmasse.

Não acabou aí. Stefano voltou para trás furioso e ela entendeu que queria fazer com Dino o mesmo que tinha feito com o pai, lançando-o como uma coisa pelas escadas. Então voou em cima dele, pelos ombros, e puxou e arranhou sua cara, gritando: “É uma criança, Sté, é uma criança”. Ele ficou imóvel e disse devagar: “Estou de saco cheio de tudo, não aguento mais”.

 

OceanofPDF.com