História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 109 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 108

Mas já no dia seguinte não me senti bem. O tempo passado com os parentes de Pietro me deram mais uma prova de que o esforço da Normal era um equívoco. Não bastava o mérito, era preciso algo mais, e eu nem tinha isso nem saberia aprendê-lo. Que vergonha aquela cambulhada de palavras ansiosas, sem rigor lógico, sem calma, sem ironia, como ao contrário sabiam fazer Mariarosa, Adele, Pietro. Eu tinha assimilado a obstinação metódica da pesquisadora que submete à verificação até as vírgulas, isso sim, e dava demonstração disso nos exames, ou na tese que estava escrevendo. Mas de fato eu continuava sendo uma despreparada sem cultura, não possuía a couraça para avançar com passo tranquilo como eles faziam. O professor Airota era um deus imortal que dera a seus filhos armas encantadas antes da batalha. Mariarosa era invencível. Pietro, perfeito em sua plenitude superculta. E eu? Eu só podia ficar ao lado deles, brilhar graças a sua luz.

Fui tomada pela ansiedade de perder Pietro. Fui atrás dele, grudei, me afeiçoei. Mas esperei inutilmente que se declarasse. Uma noite o beijei na bochecha, e ele finalmente me beijou na boca. Começamos a nos encontrar em lugares apartados, à noite, esperando um pouco de escuro. Eu o bolinava, ele me bolinava, nunca quis me penetrar. Tive a impressão de ter voltado aos tempos de Antonio, no entanto a diferença era enorme. Havia a emoção de sair à noite com o filho de Airota e ganhar força por meio dele. De vez em quando pensava em ligar para Lila de um telefone público: queria dizer a ela que tinha esse novo namorado e que quase certamente nossas teses de graduação seriam publicadas, se tornariam de fato livros como os livros verdadeiros, com a capa, o título, o nome. Queria lhe dizer que não estava excluída a hipótese de que tanto ele quanto eu viéssemos a ensinar na universidade, a irmã dele, Mariarosa, era professora aos vinte e quatro anos. Queria também lhe dizer: você tem razão, Lila, quando lhe ensinam bem as coisas desde cedo, ao crescermos fazemos menos esforço em tudo, você se torna alguém que parece já ter nascido sabendo. Mas no fim desisti. Telefonar a ela para quê? Para ficar ouvindo em silêncio os casos dela? Ou, se me deixasse falar, para lhe dizer o quê? Eu sabia perfeitamente que comigo nunca aconteceria o que com certeza iria acontecer com Pietro. Sabia acima de tudo que ele logo desapareceria, assim como Franco, e que no fim das contas era melhor assim, porque eu não o amava, ficava com ele nas ruelas escuras e nos campos só para sentir menos medo.

 

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