História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 52 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 51

Na segunda-feira Nino compareceu — quase um fantasma evocado por meu desejo — não às quatro da tarde, como de regra, mas às dez da manhã. A surpresa foi grande. Nós três tínhamos acabado de chegar à praia, rancorosas, cada qual convencida de que as outras tinham demorado muito no banheiro, Pinuccia particularmente nervosa por seus cabelos terem se embaraçado durante o sono. Foi ela quem falou primeiro, enfezada, quase agressiva. Perguntou a Nino antes mesmo que ele nos explicasse aquela mudança súbita de horário:

“Por que Bruno não veio, tinha coisa melhor para fazer?”

“Os pais dele ainda estão na casa, partem ao meio-dia.”

“Depois ele vem?”

“Acredito que sim.”

“Porque, se ele não vier, vou voltar para dormir: com vocês eu me entedio.”

E, enquanto Nino nos contava como tinha sido péssimo seu domingo em Barano, tanto que hoje ele saíra de manhã cedo e, não podendo ir para a casa de Bruno, veio direto para a praia, ela se intrometeu uma ou duas vezes perguntando manhosa: quem vem tomar banho comigo? Como eu e Lila ignoramos o convite, ela foi sozinha para a água, toda irritada.

Paciência. Nós preferimos ficar ouvindo com muita atenção a lista que Nino nos fez dos erros cometidos pelo pai. Um trapaceiro, o definiu, um preguiçoso. Estabeleceu-se em Barano prolongando abusivamente uma licença de trabalho por uma falsa doença, mas que tinha sido regularmente atestada por um médico da Assistência Social amigo dele. “Meu pai”, disse-nos com desgosto, “é a completa negação do interesse geral”. E nesse momento, sem interrupção, fez uma coisa imprevisível. Com um movimento inesperado que me fez estremecer, ele se inclinou e me deu um beijo na bochecha, um beijo forte, estalado, ao qual se seguiu a frase: “Estou realmente alegre por ver você”. Depois, com um leve embaraço, como se percebesse que aquela expansividade em relação a mim poderia ser deselegante com Lila, emendou:

“Posso dar um beijo em você também?”.

“Claro”, respondeu Lila condescendente, e ele lhe deu um beijo suave, sem estalo, um contato quase imperceptível. Depois disso desandou a falar entusiasmado sobre os textos teatrais de Beckett: ah, como ele tinha gostado daqueles tipos enterrados até o pescoço na terra; e como era bonita a frase sobre o fogo que o presente nos acende por dentro; e, embora entre as mil coisas sugestivas que Maddie e Dan Rooney diziam ele tenha tido dificuldade em localizar o ponto exato citado por Lila, bem, o conceito de que se sente mais a vida quando se é cego, surdo, mudo e até sem paladar e sem tato era objetivamente interessante em si; segundo ele, significava: vamos abolir todos os filtros que nos impedem de gozar plenamente este estar hic et nunc, verdadeiros.

Lila se mostrou perplexa, disse que tinha pensado nisso e que a vida em estado puro a aterrorizava. Expressou-se com certa ênfase, exclamou: “A vida sem ver e sem falar, sem falar e sem ouvir, a vida sem uma veste, sem um invólucro, é disforme”. Não recorreu exatamente a estas palavras, mas com certeza usou disforme e o fez com um gesto de repulsa. Nino repetiu à meia-voz: “Disforme”, como se o vocábulo fosse um nome ruim. Depois voltou a argumentar, mas de modo ainda mais exaltado, até que de repente tirou a camiseta exibindo-se em sua magreza preta de sol, segurou em nossas mãos e nos arrastou para a água, enquanto eu gritava felicíssima: “Não, não, não, estou com frio, não”, e ele respondia: “Ah, finalmente mais um dia divino”, e Lila ria.

Então — pensei contente — Lila se enganou. Então existe com certeza outro Nino: não o rapaz soturno, não o que só se emociona por reflexões sobre o estado geral do mundo, mas este rapaz, este rapaz que brinca, que nos arrasta ruidosamente para a água, que nos agarra, nos aperta, nos atrai para si, que nada para longe, se deixa alcançar, se deixa agarrar, se deixa empurrar por ambas debaixo d’água e finge ser dominado, finge que o afogamos.

Quando Bruno chegou, as coisas ficaram ainda melhores. Passeamos todos juntos, e Pinuccia aos poucos recuperou o bom humor. Quis tomar banho de novo, quis comer coco. A partir daquele momento, e durante toda a semana que se seguiu, achamos totalmente natural que os rapazes viessem nos encontrar na praia às dez da manhã e ficassem até o pôr do sol, quando então dizíamos: “Precisamos ir, se não Nunzia se chateia”, e eles se resignavam e voltavam um pouco a seus estudos.

Mas agora, quanta intimidade. Se Bruno chamava Lila de senhora Carracci em tom gozador, ela lhe dava um soco no ombro de brincadeira e o perseguia com ameaças. Se mostrava excessiva devoção a Pinuccia por estar esperando um filho, ela lhe dava o braço e dizia: “Vamos lá, vamos correndo, eu quero um refrigerante”. Quanto a Nino, agora muitas vezes me dava a mão, punha o braço em torno de meus ombros, e ao mesmo tempo passava o outro em torno dos de Lila, segurava seu indicador, seu polegar. As cautelosas distâncias tinham cedido. A gente se transformou em um grupo de cinco jovens que se divertiam com quase nada. E passamos de uma brincadeira a outra, quem perdia pagava uma prenda. As prendas eram quase sempre beijos, mas beijos fingidos, obviamente: Bruno tinha de beijar os pés sujos de areia de Lila, Nino, minha mão e depois as bochechas, a testa, uma orelha com estalo no ouvido. Também fizemos longas partidas de tamboréu, e a bola voava pelos ares após repicar com um golpe seco na pele esticada, e Lila era muito boa, Nino também. Mas o melhor de todos, o mais preciso, era Bruno. Ele e Pinuccia venceram todas, seja contra mim e Lila, seja contra Lila e Nino, seja contra Nino e eu. Ganharam também porque durante o jogo se firmara uma espécie de gentileza programática de todos em relação a Pina. Ela corria, se lançava e rolava na areia, esquecendo-se de seu estado, e por fim a deixávamos vencer, só para acalmá-la. Bruno gentilmente a censurava, fazia com que se sentasse, dizia chega e gritava: “Ponto para Pinuccia, nossa craque”.

Assim começou a se alongar um fio de felicidade que atravessou as horas e os dias. Já não me incomodei que Lila pegasse meus livros, aliás, me pareceu uma coisa muito boa. Não me incomodei que, quando a discussão se inflamava, ela cada vez mais manifestasse sua opinião, enquanto Nino a ouvia atentamente e parecia sem palavras para replicar. Achei até animador que, naquelas circunstâncias, ele parasse subitamente de dirigir-se a ela e passasse num instante a raciocinar comigo, como se isso o ajudasse a recuperar suas convicções.

Então chegou o dia em que Lila expôs sua leitura sobre Hiroshima. Daí nasceu uma discussão muito acirrada, porque Nino — entendi — era crítico, sim, dos Estados Unidos e não gostava que os americanos tivessem uma base militar em Nápoles, mas também era atraído por seu estilo de vida, dizia que queria estudá-lo e por isso ficou mal quando Lila disse em termos gerais que jogar bombas atômicas no Japão tinha sido um crime de guerra, aliás, mais que um crime de guerra — àquela altura a guerra já importava pouco — um crime de soberba.

“Lembre-se de Pearl Harbor”, disse ele cautelosamente.

Eu não sabia o que era Pearl Harbor, mas descobri que Lila sabia. Ela disse que Pearl Harbor e Hiroshima eram duas coisas incomparáveis, que Pearl Harbor tinha sido um ato de guerra covarde e Hiroshima, um horror insensato, ferocíssimo e vingativo, pior, muito pior que os extermínios nazistas. E concluiu: os americanos deveriam ser processados como os piores criminosos, desses que fazem coisas assustadoras só para aterrorizar quem continua vivo e manter a gente de joelhos. O desabafo foi tão grande que Nino, em vez de passar ao contra-ataque, ficou em silêncio, muito pensativo. Depois, se voltou para mim como se ela não existisse. Disse que o problema não era nem a ferocidade, nem a vingança, mas a urgência de pôr fim à mais terrível das guerras e, ao mesmo tempo, justamente utilizando aquela nova arma devastadora, acabar com todas as guerras. Falou num tom baixo, olhando-me direto nos olhos, como se estivesse interessado apenas em minha concordância. Foi um momento muito bonito. Ele ficava lindo quando agia assim. E eu me emocionava a ponto de sentir as lágrimas subindo aos meus olhos e ter dificuldade de engoli-las.

Então chegamos a mais uma sexta-feira, um dia muito quente, passado em grande parte na água. E algo de repente voltou a deteriorar.

Estávamos subindo para casa, tínhamos acabado de deixar os dois rapazes, o sol estava baixo e o céu, rosa-azulado, quando Pinuccia, que subitamente ficara silenciosa após tantas horas de desenvoltura exagerada, atirou a bolsa no chão, sentou na beira da estrada e começou a gritar de raiva, breves gritos agudos, quase um ganido.

Lila apertou os olhos e a fixou como se estivesse vendo não a cunhada, mas algo de terrível, para o qual não estava preparada. Voltei atrás com espanto e perguntei:

“Pina, o que foi, você não está bem?”.

“Não suporto esta roupa molhada.”

“Mas todas estamos com a roupa molhada.”

“Isso me irrita.”

“Se acalme, levante, venha. Não está mais com fome?”.

“Não me diga calma. Você me irrita quando diz calma. Não te suporto mais, Lenu, você e sua calma.”

E voltou a ganir, esmurrando as próprias coxas.

Senti que Lila estava se afastando sem nos esperar. Senti que se decidira a isso não por irritação ou por indiferença, mas por alguma coisa de abrasivo naquele comportamento, algo que queimava só de estar perto. Ajudei Pinuccia a se levantar, carreguei sua bolsa.

 

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