História do novo sobrenome
Capítulo 12
Os meses seguintes foram particularmente densos de pequenas ocorrências que me trouxeram grandes tormentos, os quais ainda hoje tenho dificuldade de ordenar. Por mais que eu assumisse um tom desenvolto e uma disciplina férrea, cedia continuamente, com doloroso comprazimento, a ondas de infelicidade. Tudo parecia conjurar contra mim. Na escola, não conseguia alcançar as notas de antes, mesmo tendo recomeçado a estudar. Os dias transcorriam sem sequer um momento em que eu me sentisse viva. O caminho para o colégio, para a casa de Lila, para os pântanos eram cenários apagados. Nervosa, desmotivada, acabava quase sem perceber atribuindo a culpa de boa parte de minhas dificuldades a Antonio.
Ele também andava muito agitado. Queria me ver a toda hora, às vezes deixava o trabalho e eu o encontrava numa espera constrangida, postado na calçada em frente ao portão do liceu. Estava preocupado com as loucuras da mãe, Melina, e apavorado com a possibilidade de não o dispensarem do serviço militar. A seu tempo, havia apresentado várias solicitações ao comando documentando a morte do pai, as condições de saúde da mãe, seu papel de único arrimo da família, e parecia que o Exército, assoberbado pelos documentos, tinha decidido esquecer-se dele. Mas agora soubera que Enzo Scanno devia partir no outono, e temia que o mesmo coubesse a ele. “Não posso deixar minha mãe, Ada, meus irmãos sem um centavo e desprotegidos”, se desesperava.
Uma vez apareceu ofegante na escola: soubera que os militares tinham ido colher informações sobre ele.
“Pergunte a Lina”, me disse ansioso, “tente saber se Stefano conseguiu a dispensa porque é filho de mãe viúva ou por algum outro motivo”.
Tentei distraí-lo, acalmá-lo. Organizei especialmente para ele uma noitada numa pizzaria com Pasquale, com Enzo e com suas respectivas namoradas, Ada e Carmela. Esperava que, na companhia de seus amigos, ele conseguisse ficar tranquilo, mas não foi assim. Como de costume, Enzo não demonstrou a mínima emoção pela partida, apenas se lamentou porque, durante todo o período em que prestaria o serviço militar, seu pai precisaria voltar a circular pelas ruas com o carreto mesmo estando com a saúde ruim. Quanto a Pasquale, nos revelou com certa amargura que não prestara o serviço por causa de uma velha tuberculose que fizera o comando dispensá-lo. Mas disse que se lamentava, que era preciso ser soldado, e não para servir à pátria. Aqueles como nós, imprecou, têm a obrigação de aprender a usar bem as armas, porque logo vai chegar o tempo em que quem deve pagar vai pagar. A partir daquele momento, começou-se a discutir de política, ou melhor, o único que falou de fato foi Pasquale, e de modo muito impaciente. Disse que os fascistas queriam voltar ao poder com a ajuda dos democratas-cristãos. Disse que a tropa de choque e o Exército os apoiavam. Disse que era preciso se preparar, e se dirigiu especialmente a Enzo, que fez sinais de concordância e até — logo ele, que em geral ficava em silêncio — reforçou com um risinho: não se preocupe, quando eu voltar lhe ensino como se atira.
Ada e Carmela se mostraram muito impressionadas com aquela discussão, pareciam contentes por namorar homens tão perigosos. Eu tive vontade de intervir, mas não sabia quase nada sobre alianças entre fascistas, democratas-cristãos e tropas de choque, não tinha nenhum pensamento na cabeça. De vez em quando eu olhava para Antonio esperando que ele se entusiasmasse pela questão, mas não foi assim, tentou apenas voltar ao que o angustiava. Perguntou várias vezes: como é no Exército, e Pasquale, que nem tinha servido, respondeu: uma verdadeira merda, quem não se dobra é trucidado. Enzo como sempre continuou calado, como se a coisa não lhe dissesse respeito. Já Antonio parou de comer e, beliscando a meia pizza que tinha no prato, disse várias vezes palavras do tipo: eles lá não sabem com quem vão lidar, se vierem com gracinhas, arrebento eles.
Quando ficamos sós, me disse de supetão, com um tom deprimido:
“Eu sei que se eu for embora você não vai me esperar, vai arranjar outro.”
Só então eu entendi. O problema não era Melina, não era Ada, não eram os outros irmãos que ficariam sem sustento, não eram nem mesmo as agruras da caserna. O problema era eu. Não queria me deixar nem por um minuto, e me pareceu que qualquer coisa que eu dissesse ou fizesse não bastaria para tranquilizá-lo e fazê-lo acreditar em mim. Então preferi bancar a ofendida. Disse-lhe que visse o exemplo de Enzo: ele confia, sibilei, se tiver que ir irá, não fica choramingando, mesmo tendo acabado de ficar noivo de Carmela. Já você se lamenta sem motivo, sim, sem motivo, Antó, já que nem vai ser convocado, porque, se Stefano conseguiu a dispensa por ser filho de mãe viúva, imagina se você não vai conseguir.
O tom entre o agressivo e o afetuoso o acalmou. Porém, antes de ir embora, repetiu constrangido:
“Pergunte à sua amiga.”
“É sua amiga também.”
“Sim, mas pergunte você.”
No dia seguinte falei do assunto com Lila, mas ela não sabia nada do serviço militar do marido, prometendo-me de má vontade que se informaria.
Mas não o fez com a rapidez que eu esperava. Com Stefano e a família dele sempre havia alguma tensão. Maria dissera ao filho que a esposa dele gastava demais. Pinuccia semeava discórdias sobre a nova charcutaria dizendo que ela não trabalharia lá, que a cunhada que cuidasse disso. Stefano mandava a mãe e a irmã se calarem, mas no fim das contas recriminava a mulher pelas despesas excessivas, tentando saber se ela eventualmente se disporia a assumir o caixa do novo negócio.
Naquela fase Lila se tornou particularmente esquiva, mesmo em relação a mim. Dizia que gastaria menos, concordava de bom grado em trabalhar na charcutaria, e no entanto gastava mais do que nunca e, se antes aparecia na nova loja por curiosidade ou obrigação, agora não fazia nem isso. Mesmo porque as marcas no rosto tinham desaparecido, e ela parecia tomada pela ânsia de perambular por aí, especialmente de manhã, quando eu estava no colégio.
Saía a passeio com Pinuccia e ficavam disputando sobre quem se arrumava melhor, quem comprava mais coisas inúteis. Frequentemente Pina vencia, especialmente porque, graças a muitas caretas um tanto infantis, conseguia arrancar dinheiro de Rino, que se sentia na obrigação de mostrar-se mais generoso que o cunhado.
“Eu trabalho feito um condenado o dia todo”, dizia o noivo à noiva, “então se divirta por mim.”
E com orgulhosa displicência, sob os olhos dos empregados e de seu pai, tirava dos bolsos da calça cédulas emboladas, as estendia a Pina e logo depois fazia um gesto zombeteiro de quem fosse dá-las também à irmã.
Para Lila aquelas atitudes irritavam como golpes de vento que fazem uma porta bater ou um objeto cair da mesa. Mas também via ali o sinal de que a fábrica de calçados finalmente se aprumava, e no fim das contas estava contente de que os sapatos Cerullo estivessem expostos em muitas lojas da cidade, os modelos de primavera vendiam bem, as novas encomendas eram cada vez mais frequentes. Tanto que Stefano precisara recorrer até ao porão da sapataria, transformando-o metade em depósito, metade em oficina, enquanto Fernando e Rino tiveram que contratar às pressas um novo ajudante e, em certas ocasiões, trabalhavam inclusive de noite.
Naturalmente havia muitas discussões. A loja de sapatos que os Solara se comprometeram a abrir na Piazza dei Martiri devia ser decorada à custa de Stefano, que no entanto, alarmado com o fato de que nunca fora estipulado nenhum acordo escrito, vivia batendo boca com Marcello e Michele. Mas agora pareciam que estavam chegando a um contrato assinado que poria preto no branco a cifra (um tanto inflacionada) que Carracci pretendia investir na decoração. E principalmente Rino se sentia muito satisfeito com aquele resultado: onde o cunhado punha dinheiro, ele se comportava com ares de proprietário, como se ele mesmo tivesse desembolsado.
“Se continuar assim, no ano que vem nos casamos”, prometia à noiva, e certa manhã Pina quis visitar a mesma costureira que tinha feito o vestido de noiva de Lila, só para dar uma olhada.
A costureira recebeu ambas com grande afabilidade, mas depois, fascinada como era por Lila, pediu-lhe que contasse em detalhes o casamento e fez de tudo para ter uma foto grande dela, vestida de noiva. Lila então mandou ampliar uma especialmente para ela e, numa manhã, saiu com Pina para entregá-la.
Foi naquela ocasião que, enquanto estavam passeando pelo Rettifilo, Lila perguntou à cunhada como é que Stefano fora dispensado do serviço militar: se os policiais tinham ido verificar sua condição de filho de mãe viúva, se a dispensa do comando fora comunicada pelos correios ou se ele teve de ir se informar pessoalmente.
Pinuccia olhou para ela irônica.
“Filho de mãe viúva?”
“Sim, segundo Antonio, quem está nessa situação acaba sendo dispensado.”
“Pelo que eu sei, o único meio seguro de escapar é pagando.”
“Pagar a quem?”
“Aos do comando.”
“Stefano pagou?”
“Pagou, mas não precisa espalhar por aí.”
“E quanto ele pagou?”
“Isso eu não sei dizer. Foram os Solara que fizeram tudo.”
Lila ficou gelada.
“Como assim?”
“Você sabe, nem Marcello nem Michele prestaram o serviço militar. Conseguiram ser dispensados por insuficiência pulmonar.”
“Aquele dois? Mas como é possível?”
“Com os contatos.”
“E Stefano?”
“Recorreu aos mesmos conhecidos de Marcello e Michele. Você paga, e os conhecidos lhe fazem um favor.”
Naquela mesma tarde minha amiga me contou tudo, mas como se não percebesse quanto aquelas notícias eram ruins para Antonio. Em vez disso, estava eletrizada — sim, eletrizada — pela descoberta de que a aliança entre o marido e os Solara não nascera das necessidades impostas pelo comércio, mas era de velha data, anterior ao próprio noivado.
“Ele me enganou desde o início”, repetia quase com satisfação, como se aquela história do alistamento fosse a prova definitiva da real natureza de Stefano e agora se sentisse libertada. Precisei esperar um pouco até poder perguntar:
“Você acha que os Solara, caso os militares não deem a dispensa a Antonio, poderiam fazer esse favor a ele também?”
Ela me fixou com seu olhar ruim, como se eu tivesse dito uma coisa antipática, e cortou seca:
“Antonio nunca recorreria aos Solara.”
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