História do novo sobrenome
Capítulo 36
Só fui saber o quanto aquela noite lhe fizera mal muito depois, lendo seus cadernos. Admitia que ela mesma pedira para me acompanhar. Admitia que acreditara poder livrar-se da charcutaria ao menos naquela noite e estar bem comigo, participar daquele súbito alargamento de meu mundo, conhecer a professora Galiani, conversar com ela. Admitia ter acreditado que acharia uma maneira de não destoar. Admitia que estava certa de agradar aos homens, sempre agradara. No entanto se sentira de repente sem voz, sem graça, privada de gesto, de beleza. Listava detalhes: mesmo quando estávamos uma ao lado da outra, todos preferiam dirigir a palavra apenas a mim; me levaram docinhos, me levaram bebidas, ninguém movera um dedo por ela; Armando me mostrara um quadro de família, coisa do século xvii, falara a respeito dele comigo por uns quinze minutos; ela tinha sido tratada como se não fosse capaz de entender. Não a queriam ali. Não queriam saber nada sobre a pessoa que ela era. Naquela noite, pela primeira vez, ela tivera a clareza de que sua vida seria para sempre Stefano, as charcutarias, o casamento do irmão com Pinuccia, as conversas com Pasquale e Carmen, a guerra mesquinha com os Solara. Isso é o que ela escrevera, e mais, talvez naquela mesma noite, talvez na manhã seguinte, na loja. Ali, durante toda a noite, se sentira definitivamente perdida.
Mas no carro, enquanto voltávamos ao bairro, não fez nenhuma menção àqueles sentimentos, tornou-se apenas maldosa, pérfida. Começou assim que se acomodou no carro, quando o marido perguntou de mau humor se tínhamos nos divertido. Deixei que ela respondesse, eu estava tonta de esforço, de excitação, de prazer. Ela então, lentamente, passou a me machucar. Disse em dialeto que nunca se sentira tão entediada na vida. Era melhor se tivéssemos ido ao cinema, se lamentou com o marido, e — coisa anômala, feita evidentemente de propósito para me ferir, para me recordar: veja, bem ou mal eu tenho um homem, ao passo que você, nada, ainda é virgem, sabe tudo, mas isso você não sabe — acariciou a mão dele, apoiada na manopla do câmbio. Até ver televisão, disse, teria sido mais divertido que passar o tempo com aquela gente de merda. Não há uma coisa lá dentro, um objeto, um quadro, que eles tenham conquistado por si. Os móveis são de cem anos atrás. A casa tem pelo menos trezentos anos. Os livros, sim, alguns são novos, mas outros são velhíssimos, têm tanta poeira que não são folheados há séculos, velharias de direito, de história, de ciências, de política. Naquela casa os pais, os avós e os bisavós leram e estudaram. Há centenas de anos atuam no mínimo como advogados, médicos, professores. Por isso falam todos assim, por isso se vestem e comem e se movem assim e assado. E o fazem porque nasceram ali. Mas não têm na cabeça nenhum pensamento próprio, que se esforçaram em pensar. Sabem tudo e não sabem nada. Beijou o marido no pescoço, alisou-lhe o cabelo com a ponta dos dedos. Se você estivesse lá, Sté, veria apenas papagaios fazendo currupaco, currupaco. Não se entendia uma única palavra do que diziam, nem eles mesmos se entendiam entre si. Você sabe o que é a oea, o que é abertura à esquerda? Da próxima vez não me leve, Lenu, leve Pasquale; aí você vai ver como ele os enquadra num piscar de olhos. Chimpanzés que mijam e cagam no vaso, não no chão, e por isso se acham grandes coisas, dizendo que sabem o que deve ser feito na China, na Albânia, na França e no Katanga. E você também, Lena, preciso lhe dizer: fique esperta, você está se transformando na papagaia dos papagaios. Virou-se para o marido, rindo. Você tinha que estar lá para ouvir, lhe disse. Falava com uma vozinha, piu-piu, piu-piu. Pode mostrar a Stefano como você fala com eles? Você e o filho de Sarratore: idênticos. A brigada mundial da paz; nós temos as capacidades técnicas; a fome, a guerra. Mas será que você faz tanto esforço na escola só para depois repetir as coisas que aquele lá diz? Quem sabe resolver os problemas trabalha pela paz. Bravo! Lembra como o filho de Sarratore sabia resolver os problemas? Lembra, sim, e ainda vai na dele? Também você quer ser a marionete do bairro, que representa para ser recebida na casa daquela gente? Querem nos deixar em nossa merda, quebrando a cabeça sozinhos, enquanto vocês fazem currupaco, currupaco, a fome, a guerra, a classe operária, a paz?
Durante todo o trajeto do Corso Vittorio Emanuele até em casa ela foi tão cruel que eu emudeci e senti seu veneno transformando o que me parecera um momento importante de minha vida num passo em falso, que me tornara ridícula. Lutei para não acreditar nela. Senti que realmente era uma inimiga capaz de tudo. Sabia tornar incandescente a nervura da gente de bem, acendia nos peitos o fogo da destruição. Dei razão a Gigliola e a Pinuccia, na foto era ela mesma que queimava como um demônio. Tive ódio dela, e até Stefano notou quando, parando em frente ao portão e me abrindo a porta do seu lado, disse conciliador: “Tchau, Lenu, boa noite, Lina está brincando”; e eu murmurei: “Tchau”, e fui embora. Somente quando o carro já tinha partido ouvi Lila gritando para mim, arremedando a voz que, segundo ela, eu afetara de propósito na casa de Galiani: “Tchau, hein, tchau”.
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