História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 39 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 38

A princípio eu não queria ir ao casamento de Pinuccia e Rino, mas Pinuccia veio pessoalmente me trazer o convite e, como me tratou com exagerado afeto, chegando a me pedir conselhos sobre vários assuntos, eu não soube dizer não, mesmo não tendo estendido o convite a meus pais e meus irmãos. A grosseria não é minha, justificou-se, mas de Stefano. O irmão não só se recusara a lhe dar algum dinheiro de família para que ela comprasse uma casa (disse que os investimentos que fizera nos sapatos e na nova charcutaria o tinham deixado liso), mas, visto que era ele quem estava pagando o vestido de noiva, o serviço fotográfico e sobretudo o bufê, tinha pessoalmente excluído meio bairro da lista de convidados. Um comportamento horrível, Rino estava ainda mais constrangido que ela. Seu noivo queria um casamento tão luxuoso quanto o da irmã e, assim como ela, uma casa nova com vista para a ferrovia. Mas, apesar de já ser dono de uma fábrica de calçados, sozinho não conseguiria bancar tudo, até porque era um esbanjador, acabara de comprar uma Millecento, não tinha uma lira no banco. Por isso, depois de muitas resistências, decidiram de comum acordo que iriam morar na velha casa de dom Achille, desalojando Maria do quarto de casal. Pretendiam poupar o máximo e comprar assim que possível um apartamento mais bonito que o de Stefano e Lila. Meu irmão é um imbecil, disse Pinuccia com rancor, e concluiu: quando se trata da esposa, gasta que é uma beleza, mas não tem dinheiro para a irmã.

Evitei qualquer comentário. Fui ao casamento acompanhada de Marisa e Alfonso, que parecia esperar justamente aquelas ocasiões mundanas para se transformar em outro, não meu colega de escola de sempre, mas um jovem gracioso no aspecto e nas maneiras, de cabelos pretos, o azul cerradíssimo da barba que lhe subia pelas faces, os olhos lânguidos, a roupa que nele não se deformava como nos outros homens, mas lhe modelava o corpo magro e ágil.

Na esperança de que Nino fosse obrigado a acompanhar a irmã, estudei bem seu artigo e todo o número da Cronache Meridionali. Mas agora o cavalheiro de Marisa era Alfonso, ele ia buscá-la, ele a acompanhava de volta, e Nino não deu as caras. Fiquei grudada nos dois, queria evitar um tête-à-tête com Lila.

Na igreja mal a entrevi na primeira fila, entre Stefano e Maria, e era a mais bela, impossível evitá-la com o olhar. Em seguida, no banquete de núpcias oferecido no mesmo restaurante de Via Orazio onde houvera sua recepção pouco mais de um ano antes, nos cruzamos uma única vez e trocamos palavras cautelosas. Depois acabei numa mesa à margem com Alfonso, Marisa e um rapazinho louro de uns treze anos; ela se sentou com Stefano na mesa dos noivos, com os convidados de prestígio. Quanta coisa tinha mudado em tão pouco tempo. Não estava Antonio, não estava Enzo, ambos ainda prestando serviço militar. As vendedoras das charcutarias, Carmen e Ada, tinham sido convidadas, mas Pasquale não, ou talvez ele tivesse preferido não vir para não se misturar com aqueles que, em suas conversas na pizzaria, meio de brincadeira, meio a sério, planejava matar com as próprias mãos. A mãe dele, Giuseppina Peluso, também estava ausente, assim como Melina e os filhos. Já os Carracci, os Cerullo e os Solara, sócios em vários negócios, sentavam-se todos juntos à mesa dos noivos, em companhia dos parentes de Florença, vale dizer, o comerciante de metais e sua esposa. Vi que Lila conversava com Michele, dando risadas exageradas. De vez em quando olhava em minha direção, mas eu logo desviava o olhar com um misto de irritação e sofrimento. Como ela ria, demais. Lembrei-me de minha mãe. Estava encarnando a mulher casada, nos modos debochados, no dialeto. Atraía para si toda a atenção de Michele, que no entanto estava com a noiva ao lado, Gigliola, pálida, furiosa com a maneira como ele a negligenciava. Apenas Marcello dirigia de vez em quando a palavra à futura cunhada, para tranquilizá-la. Lila, Lila: queria exceder e, com seus excessos, impor sofrimento a todos nós. Percebi que até Fernando e Nunzia lançavam à filha longos olhares de apreensão.

O dia avançou sem problemas, à parte dois episódios aparentemente sem consequência. Vejamos o primeiro. Entre os convidados também estava Gino, o filho do farmacêutico, porque recentemente ficara noivo de uma prima de segundo grau dos Carracci, uma mocinha magra de cabelos castanhos colados na cabeça e olheiras roxas. Ao crescer se tornou cada vez mais odioso, eu não me perdoava por ter sido sua namorada na infância. Na época tinha sido pérfido, pérfido continuava sendo, e ainda por cima vivia um momento que o tornava ainda mais traiçoeiro, pois tinha sido mais uma vez reprovado. Há tempos não me dizia nem um oi, mas continuara atrás de Alfonso, ora bancando o amigo, ora o sacaneando com insultos de conotação sexual. Naquela ocasião, talvez por inveja (Alfonso tinha sido aprovado com média sete e, além disso, era o acompanhante de Marisa, muito graciosa, de olhos vivíssimos), se comportou de maneira especialmente insuportável. Estava sentado à nossa mesa aquele rapazinho louro que mencionei, bonito, muito tímido. Era filho de um parente de Nunzia que emigrara para a Alemanha e se casara com uma alemã. Enquanto eu me sentia nervosíssima e dava pouca corda ao menino, tanto Alfonso quanto Marisa o fizeram se sentir à vontade. Sobretudo Alfonso começara a conversar entusiasmadamente com ele, era solícito se os garçons o negligenciavam e até o acompanhara ao terraço para ver o mar. Foi justamente quando os dois voltaram à mesa animados que Gino deixou sua noiva, a qual tentava contê-lo rindo, e veio se sentar conosco. Dirigiu-se ao menino em voz baixa, acenando a Alfonso:

“Fique esperto com este aqui, que é uma bichona: agora te acompanhou ao terraço, da próxima vez te acompanha ao banheiro”.

Alfonso ficou vermelho, mas não reagiu, deu um meio sorriso desarmado e ficou sem palavras. Foi Marisa quem se enfureceu:

“Como você se permite?”.

“Me permito porque sei.”

“Então me diga o que você sabe.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

“Olha que eu lhe digo.”

“Pois diga.”

“Uma vez o irmão de minha noiva se hospedou na casa dos Carracci e teve de dormir na mesma cama com este aqui.”

“E daí?”

“Daí que ele o bolinou.”

“Ele quem?”

“Ele.”

“Onde está sua noiva?”

“Olha ela ali.”

“Diga àquela cretina que eu posso provar que Alfonso gosta é de mulher; já ela, não sei se pode dizer a mesma coisa de você.”

Naquele momento ela se virou para o namorado e o beijou na boca: um beijo público, tão intenso que eu jamais teria coragem de fazer o mesmo na frente de todos.

Lila, que continuava olhando em minha direção como se me vigiasse, foi a primeira a se dar conta daquele beijo e bateu as mãos com um gesto espontâneo de entusiasmo. Michele também aplaudiu, rindo, e Stefano fez um cumprimento grosseiro ao irmão, logo reforçado pelo comerciante de metais. Enfim, deboches de todo tipo, mas Marisa conseguiu fingir que não era com ela. Enquanto isso, apertando a mão de Alfonso com força excessiva — suas juntas chegaram a ficar brancas —, sibilou a Gino, que ficara apreciando o beijo com uma expressão obtusa:

“Agora suma daqui, se não lhe dou um tabefe”.

O filho do farmacêutico se levantou sem dizer uma palavra e voltou à sua mesa, onde a noiva imediatamente lhe falou ao ouvido com uma expressão agressiva. Marisa lançou a ambos um último olhar de desprezo.

A partir daquele momento mudei minha opinião sobre ela. Admirei sua coragem, sua capacidade teimosa de amar, a seriedade com que se ligara a Alfonso. Ali estava outra pessoa que eu subestimara, pensei com remorso, por erro meu. O quanto a dependência de Lila me fechara os olhos. Como tinha sido frívolo seu aplauso de pouco antes, como era coerente com a zombaria torpe de Michele, de Stefano, do vendedor de metais.

O segundo episódio teve por protagonista justamente Lila. A festa já estava no fim. Eu me levantara para ir ao banheiro e estava passando diante da mesa da noiva quando ouvi a mulher do comerciante de metais dar uma gargalhada. Então me virei. Pinuccia estava em pé e se esquivava, porque a mulher estava levantando à força seu vestido, descobrindo suas pernas grossas, robustas, e dizendo a Stefano:

“Olha que coxas sua irmã tem, olha que traseiro, que barriga. Hoje em dia vocês, homens, gostam de mulheres que parecem escovinha de latrina, mas são essas como nossa Pinuccia que Deus fez justamente para lhes dar filhos”.

Lila, que estava levando uma taça à boca, sem pensar um segundo atirou-lhe o vinho na cara e no vestido de shantung. Como sempre, pensei logo ansiosa, ela acha que pode fazer qualquer coisa, e agora vai começar um pandemônio. Segui rápido rumo ao banheiro, me tranquei lá dentro, fiquei lá o mais que pude. Não queria ver a fúria de Lila, não queria escutá-la. Queria permanecer fora daquilo, temia ser arrastada em seu sofrimento, tinha medo de me sentir na obrigação, por um longo hábito, de me alinhar com ela. Porém, quando saí, tudo estava calmo. Stefano conversava com o comerciante de metais e a esposa dele, toda empertigada em seu vestido manchado. A orquestrinha tocava, os casais dançavam. Só Lila não estava. Avistei-a além das vidraças, no terraço. Olhava o mar.

 

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