História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 119 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 118

A sensibilidade não voltou, ao contrário, cresceu nela a sensação de estranhamento. O ar pesado dos cômodos. Os panos sujos. A porta do banheiro que não fechava bem. Imagino que San Giovanni deva ter lhe parecido um abismo à beira do bairro. Querendo se pôr a salvo, não prestou atenção onde punha os pés e caiu num buraco profundo.

Rinuccio logo passou a preocupá-la. O menino, normalmente sereno, começou a fazer manha todos os dias, chamando Stefano e acordando à noite, chorando. Os cuidados da mãe e seu modo de fazê-lo brincar o acalmavam, sim, mas não o fascinavam mais, ao contrário, começaram a contrariá-lo. Lila inventava novas brincadeiras, acendia o olhar do menino, ele a beijava, queria pôr a mão em seus peitos, dava gritos de felicidade. Mas depois a rejeitava, brincava sozinho ou cochilava num cobertor estendido no assoalho. E na rua se cansava depois de dez passos, dizia que sentia dor em um joelho, queria ser carregado no colo e, se ela se recusava a pegá-lo, se atirava no chão aos berros.

A princípio Lila resistiu, depois, aos poucos, começou a se dar por vencida. Como à noite ele só se acalmava quando ela o deixava ir para sua cama, passou a permitir que dormisse com ela. Quando saíam para fazer compras, carregava-o no colo mesmo ele sendo um menino bem nutrido, pesado: de um lado as sacolas, de outro, ele. Voltava exausta.

Logo redescobriu o que era a vida sem dinheiro. Nada de livros, nada de revistas e jornais. Tudo o que tinha trazido para Rinuccio já não cabia mais nele, porque o menino crescia a olhos vistos. Ela mesma tinha pouquíssimas coisas para vestir. Mas fazia de conta que não era nada. Enzo trabalhava o dia todo, lhe dava o dinheiro necessário, mas ganhava pouco e ainda por cima precisava mandar dinheiro para os parentes que estavam cuidando de seus irmãos. Assim conseguiam mal e mal pagar o aluguel, a luz e o gás. Mas Lila não parecia preocupada. O dinheiro que tinha tido e que tinha consumido eram, em seu imaginário, uma coisa só, identificada com a miséria da infância, destituído de substância seja quando existia, seja quando não havia. Parecia muito mais preocupada com o possível desbaratamento da educação que tinha dado ao filho e se esforçava para que ele voltasse a ser enérgico, vivaz, disponível como tinha sido até pouco antes. Mas Rinuccio agora parecia estar bem somente quando ela o deixava na área do prédio brincando com o filho da vizinha. Ali ele brigava, se enlameava, ria, comia porcaria, se mostrava feliz. Lila o observava da cozinha, de onde ficava de olho nele e em seu amiguinho, ambos enquadrados pela porta das escadas. Ele é esperto, pensava, é mais esperto que o outro, que é até um pouco mais velho: talvez eu precise aceitar que não o posso manter numa redoma de vidro, que lhe dei o necessário, mas que de agora em diante ele seguirá por conta própria, que agora ele precisa bater, arrancar as coisas dos outros, se sujar.

Um dia, Stefano apareceu no térreo. Tinha saído da charcutaria e decidira ir ver o filho. Rinuccio o recebeu com alegria, os dois brincaram um pouco. Mas Lila se deu conta de que o marido estava se entediando, não via a hora de ir embora. Antigamente parecia que não era capaz de viver sem ela e o menino; mas agora lá estava ele, olhando o relógio, bocejando, quase com certeza só viera porque tinha sido mandado pela mãe ou até por Ada. Quanto ao amor, ao ciúme, tudo passara, não sentia mais nada.

“Vou levar o menino para dar um passeio.”

“Olha que ele quer sempre ir no colo.”

“Vou levá-lo no colo.”

“Não, faça-o caminhar.”

“Faço como quiser.”

Saíram, voltou meia hora depois, disse que precisava correr para a charcutaria. Jurou que Rinuccio não tinha se queixado em nenhum momento, não pedira para ser levado no colo. Antes de sair, disse a ela:

“Viu que aqui a conhecem como senhora Cerullo?”

“É o que sou.”

“Só não te matei e te mato porque você é a mãe de meu filho. Mas você e aquele cretino de seu amigo estão se arriscando feio.”

Lila riu, o provocou, disse:

“Você só sabe bancar o valentão com quem não pode quebrar sua cara, seu merda.”

Depois compreendeu que o marido tinha aludido a Solara e lhe gritou do patamar, enquanto descia as escadas:

“Diga a Michele que se ele aparecer aqui por perto eu lhe cuspo na cara.”

Stefano não respondeu e sumiu na rua. Voltou, acho, no máximo outras quatro ou cinco vezes. Na última vez em que encontrou a mulher, gritou furioso:

“Você é a vergonha de sua família. Nem sua mãe quer mais te ver.”

“Se vê que nunca souberam a vida que eu levava com você.”

“Eu tratei você como uma rainha.”

“Então prefiro ser mendiga.”

“Se você tiver outro filho, vai ter de abortar, porque ainda está com meu sobrenome e não quero que conste como meu filho.”

“Não vou ter outros filhos.”

“Por quê? Decidiu não foder mais?”

“Vá tomar no cu.”

“De todo modo já avisei.”

“Seja como for, Rinuccio não é seu filho e tem seu sobrenome.”

“Vagabunda, se você repete isso sempre então quer dizer que é verdade. Não quero nunca mais ver você, nem ele.”

Na verdade, ele nunca acreditou nisso. Mas fez de conta que sim, por oportunismo. Preferiu que a tranquilidade vencesse sobre o caos emotivo que ela lhe causava.

 

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