História do novo sobrenome
Capítulo 120
Só soube de tudo isso depois. Gostaria de ter ido imediatamente ao endereço que Ada me deu, mas comigo também aconteceu uma coisa decisiva. Numa manhã li sem muito interesse uma longa carta de Pietro e, no final da última folha, topei com poucas linhas em que ele me comunicava que tinha dado meu texto (o chamava assim) para sua mãe ler. Adele o achara tão bom que mandara datilografá-lo e o passara a uma editora de Milão para a qual fazia traduções há anos. Os editores gostaram e agora queriam publicá-lo.
Era o final de uma manhã de outono, me lembro da luz cinzenta. Eu estava sentada à mesa da cozinha, a mesma em que minha mãe estava passando roupa. O velho ferro de passar esfregava o pano com energia, a madeira vibrava sob meus cotovelos. Olhei aquelas linhas demoradamente. Falei devagar, em italiano, só para me convencer de que a coisa era real: “Mamãe, aqui está dito que vão publicar um romance que eu escrevi”. Minha mãe parou, levantou o ferro do tecido, o apoiou na vertical.
“Você escreveu um romance?”, perguntou em dialeto.
“Acho que sim.”
“Escreveu ou não?”
“Escrevi.”
“Vão pagar?”
“Não sei.”
Saí e corri para o bar Solara, onde era possível fazer chamadas interurbanas com certa comodidade. Depois de várias tentativas — Gigliola me gritava do balcão: “Vá, fale” —, Pietro atendeu, mas precisava trabalhar e estava com pressa. Disse que sobre aquele assunto não sabia mais do que já tinha me escrito.
“Você leu o livro?”, perguntei agitada.
“Li.”
“Mas não disse uma palavra.”
Resmungou algo sobre a falta de tempo, os estudos, as obrigações.
“O que achou?”
“É bom.”
“Só bom?”
“Bom. Fale com minha mãe: eu sou um filólogo, não um literato.”
Me deu o número da casa dos pais.
“Não me sinto à vontade de telefonar, fico constrangida.”
Notei um certo nervosismo, algo raro nele, que sempre era muito gentil. Disse:
“Você escreveu um romance, assuma as responsabilidades.”
Eu quase não conhecia Adele Airota, tinha estado com ela apenas quatro vezes e trocamos somente poucas frases cerimoniosas. Durante todo aquele tempo eu achei que ela fosse uma mãe de família culta e abastada, e só naquela ocasião comecei a me dar conta de que tinha um trabalho, que era capaz de exercer algum poder. Telefonei ansiosa, a empregada atendeu e passou a ligação para ela. Cumprimentou-me com cordialidade, mas me tratou de modo formal, e eu fiz o mesmo. Disse que na editora todos estavam muito seguros do valor do livro e, pelo que se sabia, já tinha sido feito um esboço de contrato.
“Contrato?”
“Claro. Você se comprometeu com outros editores?”
“Não. Mas nem cheguei a reler o que escrevi.”
“Você fez uma redação só, de jato?”, me perguntou vagamente irônica.
“Sim.”
“Posso lhe garantir que está pronto para publicação.”
“Ainda preciso trabalhar nele.”
“Confie em mim: não mexa numa vírgula, ele tem sinceridade, naturalidade e um mistério da escrita que só os livros de verdade têm.”
Tornou a me cumprimentar, embora acentuando a ironia. Disse que, como eu sabia, tampouco a Eneida tinha sido revista. Atribuiu a mim um longo tirocínio de escritora, perguntou se tinha outras coisas na gaveta, se mostrou surpresa quando lhe confessei que era a primeira coisa que escrevia. “Talento e sorte”, exclamou. Me confidenciou que de repente se abrira um vazio no campo da editoria, e meu romance tinha sido considerado não só excelente, mas também providencial. Pensavam em publicá-lo na primavera.
“Tão cedo assim?”
“Não está de acordo?”
Me apressei a dizer que estava.
No final Gigliola, que estava atrás do balcão e tinha escutado a conversa, me perguntou curiosa:
“O que está acontecendo?”
“Não sei”, respondi e saí depressa.
Circulei pelo bairro levada por uma felicidade incrédula, as têmporas latejando. Minha resposta a Gigliola não tinha sido um modo antipático de não lhe dar trela, eu realmente não sabia. O que era aquele anúncio inesperado: poucas linhas de Pietro, frases num interurbano, nada de fato real? E o que era um contrato, incluía pagamento, previa direitos e deveres, corria o risco de me meter em algum problema? Daqui a uns dias vou descobrir que mudaram de ideia, pensei, não vão mais publicar o livro. Vão reler minha história, quem disse que era boa vai dizer que é fútil, quem não tinha lido vai se enfurecer com quem estava propenso a publicá-la, todos cairão em cima de Adele Airota, e a própria Adele Airota mudará de ideia, se sentirá humilhada, vai atribuir a mim a culpa pelo papelão, vai convencer o filho a me deixar. Passei em frente à sede da velha biblioteca do bairro: há quando tempo não pisava lá. Entrei, estava vazia, cheirava a poeira e tédio. Perambulei distraidamente pelas estantes, toquei em livros desconjuntados sem nem olhar título e autor, só para roçá-los com os dedos. Papel velho, fios retorcidos de algodão, letras do alfabeto, tinta. Volumes, palavra vertiginosa. Procurei Mulherzinhas, encontrei. Será possível que estava mesmo para acontecer? Será possível que eu, justo eu, tivera a sorte de realizar o que Lila e eu tínhamos planejado fazer juntas? Daqui a poucos meses haveria papel impresso, costurado, colado, todo cheio de palavras minhas, e na capa o nome, Elena Greco, eu, ponto de ruptura numa longa cadeia de analfabetos, de semianalfabetos, sobrenome obscuro que agora se carregaria de luz pela eternidade. Daqui a uns anos — três, cinco, dez, vinte — o livro acabaria naquelas prateleiras, na biblioteca do bairro onde eu tinha nascido, seria catalogado, as pessoas o pegariam emprestado para saber o que a filha do contínuo tinha escrito. Ouvi a descarga do vaso, esperei que o professor Ferraro aparecesse, o mesmo de quando eu era uma menina diligente: o rosto magro talvez mais enrugado, o cabelo escovinha branquíssimo, mas sempre cheio sobre a testa estreita. Aí estava alguém que poderia apreciar o que estava acontecendo comigo, que justificaria plenamente minha cabeça a mil, a pulsação feroz nas têmporas. Mas do banheiro saiu um desconhecido, um homenzinho redondo de seus quarenta anos.
“Precisa pegar algum livro?”, me perguntou. “Seja rápida, porque estou para fechar.”
“Estou procurando o professor Ferraro.”
“Ferraro se aposentou.”
Seja rápida, preciso fechar.
Fui embora. Justamente agora que eu estava virando escritora não havia ninguém em todo o bairro capaz de dizer: que coisa extraordinária você conseguiu fazer.
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