História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 113 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 112

 

Quando Ada voltou ao trabalho sem fôlego, agitadíssima, Stefano lhe perguntou carrancudo, mas calmo: “Onde você esteve?”. Ela respondeu diante das clientes à espera de serem atendidas: “Colocando em ordem sua casa, estava um nojo”. E, voltando-se para o público do outro lado do balcão: “Na cômoda havia tanta poeira que era possível escrever em cima.”

Stefano não disse nada, decepcionando as clientes. Quando a loja esvaziou e deu o horário de fechamento, Ada limpou e varreu, sempre vigiando o amante com o canto do olho. Nada, ele fazia as contas sentado no caixa, fumando cigarros americanos de cheiro intenso. Uma vez apagada a última bituca, pegou a barra para descer a porta, mas a abaixou pelo lado de dentro.

“O que você está fazendo?”, perguntou Ada alarmada.

“Vamos sair pela porta dos fundos.”

Depois disso bateu na cara dela tantas vezes, primeiro com a palma, depois com o dorso, que ela se apoiou no balcão para não desmaiar. “Como você se atreveu a ir à minha casa?”, disse a ela com a voz engasgada pela vontade de não gritar. “Como você se permitiu incomodar minha mulher e meu filho?”. Por fim se deu conta de que seu coração estava explodindo e tentou se acalmar. Era a primeira vez que batia nela. Murmurou tremendo: “Não faça isso nunca mais”, e foi embora deixando-a sangrando na loja.

No dia seguinte Ada não foi trabalhar. Machucada como estava, se apresentou na casa de Lila, e Lila, quando viu os hematomas que tinha no rosto, a fez entrar imediatamente.

“Você me faz uma camomila?”, disse a filha de Melina.

Lila fez.

“O menino é lindo.”

“É.”

“Idêntico a Stefano.”

“Não.”

“Tem os mesmo olhos e a mesma boca.”

“Não.”

“Se você precisa ler seus livros, faça isso. Eu cuido da casa e de Rinuccio.”

Lila a fixou, dessa vez quase divertida, e então disse:

“Faça o que quiser, mas não se aproxime do menino.”

“Não se preocupe, não vou fazer nada a ele.”

Ada começou a trabalhar: arrumou, lavou as roupas, estendeu-as ao sol, cozinhou o almoço, preparou o jantar. A certa altura parou, encantada com a maneira como Lila brincava com Rinuccio.

“Quantos anos ele tem?”

“Dois anos e quatro meses.”

“É pequeno, você o força demais.”

“Não, ele faz o que pode fazer.”

“Eu estou grávida.”

“O quê?”

“Isso mesmo.”

“De Stefano?”

“Claro.”

“E ele sabe?”

“Não.”

Naquele momento Lila compreendeu que seu casamento estava por um fio, mas, como sempre lhe acontecia nos instantes em que percebia uma reviravolta iminente, não sentiu nem desgosto, nem angústia, nem preocupação. Quando Stefano chegou, encontrou a mulher lendo na sala de estar, Ada brincando na cozinha com o menino, o apartamento cheirando a limpo e brilhando como um único e grande objeto precioso. Notou que a surra não tinha adiantado, ficou branco, perdeu o fôlego.

“Vá embora”, disse a Ada em voz baixa.

“Não.”

“O que você meteu na cabeça?”

“Que vou ficar aqui.”

“Você quer me deixar doido?”

“Quero, assim seremos dois.”

Lila fechou o livro, pegou o menino sem dizer nada e se retirou para o quarto onde, tempos antes, eu tinha estudado e onde agora Rinuccio dormia. Stefano sussurrou à amante:

“Assim você me desgraça. Não é verdade que você gosta de mim, Ada, você quer que eu perca toda a clientela, quer me reduzir à miséria, e sabe que a situação já não é boa. Por favor, me diga o que quer e eu lhe dou.”

“Quero estar sempre com você.”

“Sim, mas não aqui.”

“Aqui.”

“Aqui é minha casa, tem Lina, tem Rinuccio.”

“A partir deste momento tem eu também: estou grávida.”

Stefano se sentou. Ficou em silêncio olhando a barriga de Ada em pé diante dele, como se estivesse atravessando seu vestido, a roupa de baixo, a pele, como se visse o menino já formado, um ser vivo já pronto, prestes a saltar sobre ele. Depois bateram na porta.

Era um garçom do bar Solara, um rapaz de dezesseis anos recém-contratado. Disse a Stefano que Michele e Marcello queriam encontrá-lo com urgência. Stefano se recuperou e, no momento, considerou aquele chamado uma salvação, tendo em vista a tempestade que enfrentava em casa. Disse a Ada: “Não saia daqui”. Ela sorriu para ele, fez sinal que sim. Saiu e foi de carro encontrar os Solara. Em que confusão eu me meti, pensou. O que devo fazer? Se meu pai estivesse vivo me arrebentaria as pernas com uma barra de ferro. Mulheres, dívidas, a caderneta vermelha da senhora Solara. Algo não tinha dado certo. Lina. Ela o tinha arruinado. Que merda Marcello e Michele querem a esta hora, com tanta urgência?

Queriam — como descobriu — a charcutaria antiga. Não disseram, mas o deixaram intuir. Marcello se limitou a falar de um outro empréstimo que estavam dispostos a lhe conceder. Porém, disse, os calçados Cerullo devem passar definitivamente para nós, basta com aquele preguiçoso do seu cunhado, não é de confiança. E é preciso uma garantia, um ativo, um imóvel, pense nisso. Logo em seguida foi embora, disse que tinha um compromisso. Naquela altura Stefano ficou cara a cara com Michele. Discutiram longamente para ver se era possível salvar a fabriqueta de Rino e de Fernando, se era possível dispensar aquilo que Marcello chamara de garantia. Mas Michele balançou a cabeça e disse:

“Precisamos de garantias, os escândalos não fazem bem aos negócios.”

“Não estou entendendo.”

“Mas eu estou. De quem é que você gosta mais, de Lina ou de Ada?”

“Não é problema seu.”

“Não, Sté, quando se trata de dinheiro, seus problemas são meus problemas.”

“E o que você quer que eu lhe diga? Somos homens, você sabe como funciona. Lina é minha esposa, Ada é outra coisa.”

“Quer dizer que você gosta mais de Ada?”

“Sim.”

“Então ajeite a situação e depois conversamos.”

Passaram-se dias e dias terríveis antes que Stefano achasse um meio de se safar daquele imbróglio. Brigas com Ada, brigas com Lila, o trabalho abandonado, a charcutaria antiga muitas vezes fechada, o bairro que observava, fixava na memória e ainda se recorda. O belo casal de noivos. O conversível. Passa Soraya com o xá da Pérsia, passam John e Jacqueline. No final Stefano se resignou e disse a Lila:

“Encontrei um lugar muito fino, adequado para você e para Rinuccio.”

“Como você é generoso.”

“Irei duas vezes por semana para encontrar o menino.”

“Por mim você nem precisa mais vê-lo; aliás, não é seu filho.”

“Você é uma estúpida, quer me forçar a lhe quebrar a cara?”

“Quebre minha cara quando quiser, já fiz o calo. Mas pense em seu filho que eu penso no meu.”

Ele bufou, se enfureceu, tentou de fato acertá-la. Por fim disse:

“O local é no Vomero.”

“Onde?”

“Vamos lá amanhã e você vai ver. É em Piazza degli Artisti.”

Lila se lembrou num instante da proposta que Michele lhe fizera tempos atrás: “Comprei uma casa no Vomero, na Piazza degli Artisti. Se quiser, vamos agora mesmo para lá, você vai ver, peguei a casa pensando em você. Ali você pode fazer o que quiser: ler, escrever, inventar coisas, dormir, rir, conversar e estar com Rinuccio. Eu só quero poder olhar para você e ficar ouvindo”. Balançou a cabeça, incrédula, e disse ao marido:

“Você é mesmo um omm’e mmerd.”

 

OceanofPDF.com