História do novo sobrenome
Capítulo 57
Eu tinha certeza de que ele não viria e, no entanto, quando cheguei à praia, ele já estava lá, e sem Bruno. Mas percebi que não tinha vontade de se embrenhar pela montanha, de percorrer trilhas desconhecidas. Falou que estava pronto para ir, se eu quisesse, mas com o calor que fazia me fez ver que seria um cansaço no limite do suportável, excluindo que houvesse algo melhor que um bom banho de mar. Comecei a me preocupar, temi que estivesse a ponto de me dizer que voltaria para estudar. Em vez disso, de surpresa, me propôs que pegássemos um barco. Contou e recontou o dinheiro que tinha, tirei do bolso meus trocados. Ele sorriu e disse com gentileza: “Você já trouxe os sanduíches, deixe comigo”. Minutos depois estávamos no mar, ele remando, eu sentada na popa.
Me senti melhor. Pensei que talvez Lila tivesse mentido para mim, que ele não a beijara. Mas em alguma parte de mim eu sabia que estava enganada: eu, sim, às vezes mentia, até (ou especialmente) a mim mesma; já Lila, pelo que eu conseguia me lembrar, nunca fizera isso. De resto, bastou esperar um pouco e o próprio Nino esclareceu tudo. Quando estávamos no meio do mar, ele abandonou os remos, mergulhou, e eu fiz o mesmo. Não nadou como de costume, até se confundir com o leve ondejar do mar. Em vez disso, desceu até o fundo, desapareceu, reapareceu mais adiante, imergiu de novo. Eu, perturbada com a profundidade, fiquei dando voltas em torno do barco sem ousar me afastar muito, depois me cansei e subi desajeitadamente. Logo em seguida ele me alcançou, segurou os remos e se pôs a remar com energia, seguindo uma linha paralela à costa, rumo a Punta Imperatore. Até aquele momento tínhamos conversado apenas sobre os sanduíches, o calor, o mar, sobre como tínhamos agido bem ao desistirmos de enfrentar as trilhas para o Epomeu. Para meu crescente espanto, ele ainda não tinha recorrido às questões que estava lendo nos livros, nas revistas, nos jornais, ainda que eu de vez em quando, temendo o silêncio, lançasse frases que pudessem servir de estopim à sua paixão pelas coisas do mundo. Mas nada, sua cabeça estava tomada por outras coisas. De fato, a certa altura soltou os remos, fixou por um instante a parede rochosa, o voo de uma gaivota, e então disse:
“Lina lhe falou alguma coisa?”
“O quê?”
Apertou os lábios incomodado e disse:
“Tudo bem, eu conto o que aconteceu: ontem eu dei um beijo nela.”
O início foi esse. Passou o resto do dia falando apenas deles dois. Demos outros mergulhos, ele foi explorar escolhos e grutas, comemos os sanduíches, bebemos toda a água que eu levara, ele quis me ensinar a remar, mas nossas conversas se limitaram sempre ao mesmo tema. E o que mais me surpreendeu: em nenhum momento ele tentou transformar, como de regra tendia a fazer, sua questão privada numa questão geral. Somente ele e Lila, Lila e ele. Não disse nada sobre o amor. Não disse nada sobre os motivos que levam alguém a se apaixonar por uma pessoa, e não por outra. No entanto me indagou obsessivamente sobre ela e sobre sua relação com Stefano.
“Por que se casou com ele?”
“Porque se apaixonou.”
“Não pode ser.”
“Garanto que foi assim.”
“Ela se casou por dinheiro, para ajudar a família, para arranjar a vida.”
“Se fosse só por isso, poderia ter se casado com Marcello Solara.”
“Quem é?”
“Um cara que tem muito mais grana que Stefano e que fez loucuras para ficar com ela.”
“E ela?”
“Não quis ficar com ele.”
“Então, segundo você, ela se casou com o salsicheiro por amor.”
“Sim.”
“E que história é essa de que precisa tomar banho de mar para ter filhos?”
“Foi o médico que disse.”
“Mas ela quer ter filhos?”
“No início, não; agora não sei.”
“E ele?”
“Ele quer.”
“E é apaixonado por ela?”
“Muitíssimo.”
“E você, vendo de fora, acha que tudo vai bem entre eles?”
“Com Lina nada nunca vai bem.”
“Ou seja?”
“Tiveram problemas desde o primeiro dia do casamento, mas por culpa de Lila, que não sabe se adaptar.”
“E agora?”
“Agora vai melhor.”
“Não acredito.”
Deu voltas ao redor daquele ponto, cada vez mais cético. Mas eu insisti: Lila nunca havia amado o marido como naquela fase. E quanto mais ele se mostrava incrédulo, mais eu carregava na dose. Disse-lhe de maneira clara que entre eles nada podia acontecer, não queria que alimentasse ilusões. Mas isso não bastou para esgotar o assunto. Tive cada vez mais clareza que aquele dia passado entre mar e céu seria tão mais agradável para ele quanto mais eu lhe falasse detalhadamente de Lila. Não importava que cada palavra minha o fizesse sofrer. O que ele queria é que eu lhe contasse tudo o que sabia, o bem e o mal, e que preenchesse nossos minutos e nossas horas com o nome dela. Coisa que eu fiz; e, se a princípio aquilo me trouxe dor, lentamente as coisas mudaram. Naquele dia percebi que falar de Lila com Nino podia ser, nas próximas semanas, uma nova modalidade de relação entre nós três. Nem eu nem ela jamais o teríamos. Mas ambas poderíamos obter sua atenção durante todas as férias, ela como objeto de uma paixão sem saída, eu como sábia conselheira que mantinha sob controle tanto a loucura dele quanto a dela. Me consolei com essa hipótese de centralidade. Lila viera correndo me contar do beijo de Nino; ele, partindo da confissão daquele beijo, agora me entretinha com aquilo um dia inteiro. Eu me tornaria necessária a ambos.
De fato, Nino já não podia prescindir de mim.
“Na sua opinião, ela nunca vai gostar de mim?”, me perguntou a certa altura.
“Ela já tomou uma decisão, Nino.”
“Qual?”
“Amar o marido, ter um filho com ele. Está aqui para isso.”
“E meu amor por ela?”
“Quando se é amado, se tende a amar de volta. É provável que ela se sinta gratificada. Mas, se não quiser sofrer ainda mais, não espere nada além disso. Quanto mais Lina é cercada de afeto e de estima, mais tende a se tornar cruel. Ela sempre foi assim.”
Nos despedimos depois do pôr do sol e, por um momento, tive a impressão de ter passado um belo dia. Mas já a caminho de casa me voltou o mal-estar. Como eu podia achar que suportaria aquele tormento, falar de Lila com Nino, de Nino com Lila, e assistir a partir de amanhã às suas disputas, às brincadeiras, aos abraços, às carícias? Entrei em casa decidida a anunciar que minha mãe me queria de volta ao bairro. No entanto, assim que entrei, Lila me atacou duramente:
“Onde você esteve? Nós fomos procurá-la. A gente precisava de você, de sua ajuda.”
Soube que não tinham passado um bom dia. Culpa de Pinuccia, que atormentara todo mundo. Por fim, começara a gritar dizendo que se o marido não a queria em casa era porque não gostava mais dela, e então preferia morrer junto com a criança. Naquela altura Rino cedeu e a levou de volta para Nápoles.
OceanofPDF.com