História do novo sobrenome
Capítulo 22
Como costumava acontecer, já descendo as escadas comecei a ouvir suas razões, ou assim me pareceu: ela estava isolada no bairro novo, fechada em sua casa moderna, maltratada por Stefano, empenhada em sabe-se lá que luta misteriosa com o próprio corpo para que não concebesse filhos, invejosa de meus sucessos escolares até o ponto de me fazer ver, com aquela aposta maluca, que ela gostaria de retomar os estudos. Além disso, era provável que me visse muito mais livre que ela. O rompimento com Antonio e minhas dificuldades no colégio lhe pareciam ninharias se comparadas às suas. Passo a passo, sem me dar conta, primeiro me senti propensa a uma adesão amuada, depois, a uma renovada admiração por ela. Mas é claro, seria muito bom se ela voltasse a estudar. Retornar aos tempos da escola fundamental, quando ela era sempre a primeira, e eu, sempre a segunda. Conferir um novo sentido aos estudos, porque ela sabia lhe dar um sentido. Acompanhar de perto sua sombra e, assim, me sentir forte e em segurança. Sim, sim, sim. Recomeçar.
A certo ponto, durante o percurso para casa, tornou a voltar à minha mente aquela mistura de sofrimento, espanto e desgosto que eu tinha visto em seu rosto. Por quê? Repensei no corpo em desordem da professora, no corpo desgovernado de Melina. Sem uma razão evidente, comecei a olhar com atenção para as mulheres ao longo da estrada. De repente me veio a impressão de ter vivido com uma espécie de limitação do olhar: como se só fosse capaz de focalizar nosso grupo de meninas, Ada, Gigliola, Carmela, Marisa, Pinuccia, Lila, a mim mesma, minhas colegas de escola, e jamais tivesse realmente notado o corpo de Melina, o de Giuseppina Peluso, o de Nunzia Cerullo, o de Maria Carracci. O único corpo de mulher que eu tinha examinado com crescente preocupação era a figura claudicante de minha mãe, e apenas por aquela imagem me sentira perseguida, ameaçada, temendo até agora que ela se impusesse de chofre à minha própria imagem. Naquela ocasião, ao contrário, vi nitidamente as mães de família do bairro velho. Eram nervosas, eram aquiescentes. Silenciavam de lábios cerrados e ombros curvos ou gritavam insultos terríveis aos filhos que as atormentavam. Arrastavam-se magérrimas, com as faces e os olhos encavados, ou com traseiros largos, tornozelos inchados, as sacolas de compra, os meninos pequenos que se agarravam às suas saias ou que queriam ser levados no colo. E, meu Deus, tinham dez, no máximo vinte anos a mais do que eu. No entanto pareciam ter perdido os atributos femininos aos quais nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com as roupas, com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com o trabalho doméstico? Com as gestações? Com os espancamentos? Lila se deformaria como Nunzia? De seu rosto delicado despontaria Fernando, seu andar elegante se transmutaria nas passadas abertas e braços afastados do tronco, de Rino? E também meu corpo, um dia, cairia em escombros, deixando emergir não só o de minha mãe, mas ainda o do pai? E tudo o que eu estava aprendendo na escola se dissolveria, o bairro tornaria a prevalecer, as cadências, os modos, tudo se confundiria numa lama escura, Anaximandro e meu pai, Folgóre e dom Achille, as valências e os pântanos, os aoristos, Hesíodo e a vulgaridade arrogante dos Solara, como de resto há milênios acontecia na cidade, sempre mais decomposta, sempre mais degradada?
Num instante percebi que, sem me dar conta, eu tinha interceptado os sentimentos de Lila e os estava somando aos meus. Era por isso que ela estampava aquela expressão, aquele mau humor? Acariciava a própria perna, os quadris, como uma espécie de adeus? Apalpava-se ao falar como se sentisse os confins de seu corpo assediados por Melina, por Giuseppina, e estivesse em pânico, nauseada? Tinha procurado nossos amigos por necessidade de reação?
Recordei seu olhar, ainda pequena, sobre Oliviero caída da cátedra como uma boneca em frangalhos. Recordei seu olhar sobre Melina comendo ao longo da estrada o sabão amolecido que acabara de comprar. Recordei-me de Lila enquanto narrava a nós, meninas, o homicídio, o sangue escorrendo na panela de cobre, e defendia que o assassino de dom Achille não era um homem, mas uma mulher, como se ela mesma tivesse visto e ouvido, na história que nos contava, a forma de um corpo feminino desfazer-se por força de ódio, por urgência de vingança ou de justiça, e perder sua constituição.
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