História do novo sobrenome
Capítulo 81
Começou uma fuga de dias agitados. Poucos trapos a levar, pouquíssimos livros. As palavras enfezadas de minha mãe: “Se conseguir dinheiro, me mande pelo correio; agora quem vai ajudar seus irmãos nas tarefas? Eles irão mal na escola por culpa sua. Mas vá, pode ir, quem se importa: sempre soube que você se achava melhor que eu e que todo mundo”. E depois as palavras hipocondríacas de meu pai: “Estou sentindo uma dor aqui, vai saber o que é, venha para perto do papai, Lenu, que eu não sei se quando você voltar ainda vai me ver vivo”. E depois as palavras insistentes de meus irmãos: “Se a gente lhe fizer uma visita, vamos poder dormir com você, podemos comer com você?”. E depois Pasquale, que me disse: “Veja lá aonde te leva todo esse estudo, Lenu. Lembre-se de quem você é e de que lado está”. E depois Carmen, que não conseguia superar a morte da mãe e estava abatida, me fez um sinal de despedida e desandou a chorar. E depois Alfonso, que ficou pasmo e murmurou: “Eu sabia que você continuaria estudando”. E depois Antonio, que, em vez de prestar atenção ao que eu dizia e aonde ia, e ao que estava indo fazer, me repetiu várias vezes: “Agora estou me sentindo muito bem, Lenu, tudo aquilo passou, era o serviço militar que me fazia mal”. E depois Enzo, que se limitou a me estender a mão e a apertá-la tão forte que ficou dolorida por dias. E por fim Ada, que só me fez uma pergunta: “Você já contou a Lina, hein, já contou?”, e deu um sorrisinho, e insistiu: “Conte, ela vai explodir”.
Imaginei que Lila já tivesse sabido por Alfonso, por Carmen, pelo próprio marido — a quem Ada com certeza falara — que eu estava indo para Pisa. Se não veio me dar os parabéns, pensei, é provável que a notícia de fato a tenha perturbado. Por outro lado, admitindo que ela não soubesse de nada, ir de propósito e lhe dar a notícia quando há mais de um ano mal nos cumprimentávamos me pareceu descabido. Não queria jogar na sua cara uma sorte que ela não tinha tido. Então afastei a questão e me dediquei às últimas coisas antes da partida. Escrevi a Nella para lhe contar o que tinha acontecido e pedir o endereço da professora Oliviero, a quem eu queria dar a notícia. Visitei um primo de meu pai, que prometera me dar uma velha mala que ele tinha. Dei uma passada por algumas casas onde eu tinha dado aulas e onde tinha os últimos pagamentos a receber.
Pareceu-me uma boa ocasião para dar uma espécie de adeus a Nápoles. Atravessei a Via Garibaldi, subi pelos Tribunali, peguei um ônibus na Piazza Dante. Fui até o Vomero, primeiro na Via Scarlatti, depois na Santarella. Depois desci de funicular até a Piazza Amedeo. Todas as vezes fui recebida com lamentos pelas mães dos alunos, em alguns casos com grande afeto. Além do dinheiro, me ofereceram café e quase sempre uma lembrancinha. Quando meu giro terminou, percebi que estava a pouca distância da Piazza dei Martiri.
Peguei a Via Filangieri, incerta sobre o que fazer. Me voltou à mente a inauguração da sapataria, Lila vestida de grande dama e a ansiedade que a tomara por achar que não tinha mudado de verdade, que não tinha a mesma elegância das jovens daquele bairro. Quanto a mim, pensei, realmente mudei. Me visto sempre com os mesmos trapos, mas tirei o diploma do liceu e estou indo estudar em Pisa. Mudei não na aparência, mas em profundidade. A aparência virá logo, e não será mais aparência.
Aquele pensamento, aquela constatação me deixou contente. Parei na frente de uma ótica, examinei as armações. Sim, eu preciso mudar de óculos, os que eu tenho comem meu rosto, seria melhor uma armação mais leve. Pus os olhos numa armação redonda, círculos grandes e finos. Prender os cabelos. Aprender a me maquiar. Deixei a vitrine e cheguei à Piazza dei Martiri.
Naquele horário muitas lojas estavam com as portas semicerradas, a dos Solara estava três quartos fechada. Olhei ao redor. O que eu sabia dos novos hábitos de Lila? Nada. Quando ela trabalhava na charcutaria nova, não voltava pra casa na hora do almoço, mesmo a casa estando a poucos passos. Ficava na loja comendo alguma coisa com Carmen ou conversando comigo nas vezes em que eu passava depois da escola. Agora que trabalhava na Piazza dei Martiri era ainda mais improvável que voltasse para casa na hora do almoço, um cansaço inútil, além de que o tempo à disposição era insuficiente. Talvez estivesse em algum bar, talvez passeasse à beira-mar com alguma ajudante que certamente tinha. Ou talvez estivesse descansando lá dentro. Bati na porta de metal com a mão aberta. Nenhuma resposta. Bati de novo. Nada. Chamei, ouvi passos lá dentro, a voz de Lila perguntou:
“Quem é?”
“Elena.”
“Lenu”, ouvi-a exclamar.
Levantou a porta e surgiu na minha frente. Fazia muito tempo que não a encontrava, nem de longe, e me pareceu mudada. Estava com uma camiseta branca e uma saia azul justa, bem penteada e bem maquiada como sempre. Mas o rosto tinha como que alargado e achatado, todo o corpo me pareceu mais largo e mais chapado. Ela me puxou para dentro e tornou a baixar a porta. O ambiente, luxuosamente iluminado, tinha mudado muito, de fato parecia não uma sapataria, mas uma sala de recepções. Falou com um tom tão autêntico que acreditei nela: “Que coisa maravilhosa lhe aconteceu, Lenu, e como estou alegre de você ter vindo se despedir”. Naturalmente ela sabia de Pisa. Me abraçou com muita força, me deu dois grandes beijos nas bochechas, os olhos se encheram de lágrimas, repetiu: “Estou alegre de verdade”. Então gritou, dirigindo-se à porta do banheiro:
“Venha, Nino, pode sair, é Lenuccia”.
Fiquei sem ar. A porta se abriu e Nino de fato apareceu com seu jeito habitual, cabeça baixa, mãos nos bolsos. Mas o rosto estava escavado pela tensão. “Oi”, murmurou. Não soube o que dizer e lhe estendi a mão. Ele a apertou sem energia. Então Lila começou a me contar muitas coisas importantes em poucas frases: eles se viam às escondidas havia quase um ano; para o meu bem, tinha decidido não me envolver ainda mais num imbróglio que, se descoberto, teria consequências até para mim; estava grávida de dois meses e prestes a confessar tudo a Stefano: queria deixá-lo.
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