História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 117 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 116

Vivi a volta para Nápoles como quando se tem um guarda-chuva defeituoso que um golpe de vento fecha em nossa cabeça de repente. Cheguei ao bairro em pleno verão. Gostaria de ter procurado logo um trabalho, mas minha condição de recém-formada tornava impensável que eu circulasse em busca dos pequenos empregos de antes. Por outro lado, estava sem dinheiro e era humilhante pedir a meu pai ou minha mãe, que já tinham se sacrificado bastante por mim. Logo fiquei nervosa. Tudo me irritava, as ruas, as feias fachadas dos prédios, o estradão, os jardinzinhos, embora a princípio cada pedra, cada cheiro me comovesse. Se Pietro encontrar outra, se eu não passar no concurso, o que vou fazer? Não é possível que eu fique para sempre prisioneira deste lugar e desta gente.

Meus pais e meus irmãos estavam orgulhosíssimos de mim, mas, como eu percebia, não sabiam por que motivo: para que eu servia, por que tinha voltado, como faziam para demonstrar à vizinhança que eu era a glória da família? Olhando bem, eu só estava complicando a vida deles, lotando ainda mais o pequeno apartamento, tornando mais árdua a organização das camas à noite, atravancando um espaço que já não me previa. Além disso, estava sempre de olhos grudados num livro, em pé, sentada em um canto, em outro, um monumento inútil aos estudos, uma pessoa esnobemente pensativa que todos se obrigavam a não perturbar, mas sobre quem se perguntavam: que intenções ela tem?

Minha mãe resistiu um tempo antes de me perguntar pelo meu noivo, cuja existência ela deduzira mais pelo anel que eu trazia no dedo que por minhas confidências. Queria saber o que fazia, quanto ganhava, quando se apresentaria na casa acompanhado dos pais, onde eu viveria depois de casada. A princípio lhe dei poucas informações: era um professor universitário, por enquanto não ganhava nada, estava publicando um livro considerado muito importante por outros docentes, nos casaríamos em dois anos, a família dele era de Gênova, era provável que eu fosse morar naquela cidade ou onde ele conseguisse uma vaga. Porém, pelo modo como me olhava atenta, como voltava a me fazer sempre as mesmas perguntas, tinha a impressão de que não me escutava, presa demais a seus preconceitos. Eu estava noiva de um sujeito que não viera e não vinha pedir minha mão, que vivia longíssimo, que ensinava, mas sem receber, que publicava um livro, mas não era famoso? Ficou nervosa como de hábito, apesar de agora não fazer mais cenas. Tentava conter sua discordância, talvez nem se sentisse mais capaz de comunicá-la a mim. De fato, a própria língua se tornara um sinal de estranhamento. Eu me expressava de modo complexo demais para ela, mesmo me esforçando para falar em dialeto, e quando me dava conta e simplificava as frases, a simplificação as tornava artificiais e por isso mesmo confusas. Além disso, o esforço que eu fizera para apagar de minha voz o sotaque napolitano não tinha convencido os pisanos, mas estava convencendo a ela, meu pai, meus irmãos, todo o bairro. Na rua, nas lojas, na entrada do prédio as pessoas me tratavam com um misto de respeito e deboche. Por trás, começaram a me chamar de a pisana.

Naquele período escrevi longas cartas a Pietro, que me respondia com cartas ainda mais longas. No início esperei que ele fizesse pelo menos uma menção a meu caderno, depois eu mesma me esqueci. Não nos falávamos nada de concreto, e ainda guardo essas cartas: não há nem sequer um detalhe útil para reconstituir a vida cotidiana da época, qual era o preço do pão ou de uma entrada de cinema, quanto ganhava um contínuo ou um professor. A gente se concentrava, sei lá, em um livro que ele tinha lido, num artigo interessante para os nossos estudos, sobre alguma elucubração dele ou minha, sobre certas turbulências dos estudantes nas universidades, em temas da neovanguarda sobre os quais eu não sabia nada, mas que ele surpreendentemente conhecia bem e que o divertiam a ponto de levá-lo a escrever: “Faria com prazer um livrinho com papéis amassados, desses em que você começa uma frase, não funciona e joga no lixo. Estou recolhendo alguns, gostaria de mandá-lo imprimir assim como está, amarfanhado, com a ramificação casual das dobraduras que se cruzam com frases esboçadas, interrompidas. Talvez a única literatura hoje possível seja de fato essa”. Esta última anotação me chocou. Suspeitei — me lembro — de que aquele fosse seu modo de me comunicar que tinha lido meu caderno e que o presente literário que eu lhe dera parecera a ele um produto vencido.

Naquelas semanas de calor extenuante o cansaço de anos me envenenou o corpo, e me senti sem energia. Recolhi aqui e ali informações sobre o estado de saúde da professora Oliviero, torci para que estivesse bem, que eu pudesse encontrá-la e tirar de sua satisfação pelo meu bom desempenho nos estudos um pouco de força. Soube que a irmã tinha vindo buscá-la e a levara para Potenza. Me senti muito só. Cheguei a sentir falta de Lila, dos nossos embates turbulentos. Me veio a vontade de procurá-la e medir a distância que agora havia entre nós. Mas me limitei a uma cavilosa investigação sobre o que se pensava dela no bairro, sobre os comentários que circulavam a seu respeito.

Procurei primeiramente Antonio. Não estava, diziam que tinha ficado na Alemanha, alguns até falavam que se casara com uma alemã linda, de um louro platinado, cheia, os olhos azuis, e que era pai de gêmeos.

Então falei com Alfonso, fui várias vezes encontrá-lo na loja da Piazza dei Martiri. Ele se tornara realmente um homem bonito, parecia um refinadíssimo fidalgo, exprimia-se em um italiano muito acurado, com estudadas inserções dialetais. Graças a ele a loja dos Solara ia de vento em popa. O salário era satisfatório, tinha alugado uma casa em Ponte di Tappia e não sentia falta do bairro, dos irmãos, do cheiro e da gordura das charcutarias. “No próximo ano me caso”, me anunciou sem muito entusiasmo. A relação com Marisa tinha durado, se consolidara, só bastava dar o passo final. Saí algumas vezes com eles, estavam bem juntos, ela havia perdido a antiga vivacidade cheia de palavras e agora parecia sobretudo atenta a não dizer coisas que pudessem contrariá-lo. Não lhe perguntei sobre seu pai, a mãe, os irmãos. Não perguntei nem de Nino, nem ela me disse nada, como se também tivesse saído para sempre de sua vida.

Vi também Pasquale e Carmen: ele sempre fazia serviços de pedreiro aqui e ali, em Nápoles e na província, e ela continuava trabalhando na charcutaria nova. Mas o que logo quiseram me comunicar era que ambos tinham novos amores: Pasquale estava namorando às escondidas com a primeira filha, novíssima, da dona do armarinho; Carmen estava noiva do frentista do estradão, um bom homem de uns quarenta anos que a amava muito.

Também fui encontrar Pinuccia, que estava quase irreconhecível: desmazelada, nervosa, magérrima, resignada com a própria sorte, tinha marcas de surras que Rino continuava lhe dando para se vingar de Stefano, e traços ainda mais vistosos de uma infelicidade sem saída, toda dentro dos olhos e nas rugas profundas em torno da boca.

Por fim tomei coragem e fui ver Ada. Imaginei encontrá-la mais desfeita que Pina, humilhada em seu papel de concubina. No entanto vivia na casa que tinha sido de Lila e estava linda, parecia serena, tinha recentemente dado à luz uma menina chamada Maria. Mesmo durante a gravidez não parei de trabalhar, ela disse orgulhosa. E vi com meus olhos que era a verdadeira dona das duas charcutarias, corria de uma para outra, se ocupava de tudo.

Cada um dos meus amigos de infância me disse algo sobre Lila, mas Ada me pareceu a mais informada. Acima de tudo foi quem me falou dela com mais compreensão, quase com simpatia. Estava feliz, feliz com a menina, com o conforto, com o trabalho, com Stefano, e me pareceu que estivesse sinceramente agradecida a Lila por toda aquela felicidade. Exclamou admirada:

“Eu fiz coisas de louca, reconheço. Mas Lina e Enzo se comportaram de maneira ainda mais maluca. Se mostraram tão desinteressados de tudo, até de si mesmos, que meteram medo em mim, em Stefano e até naquele escroto do Michele Solara. Sabe que ela não levou nada? Sabe que me deixou todas as joias? Sabe que deixaram escrito num pedaço de papel o local onde iam morar, o endereço exato, número, tudo, como se dissessem: venham nos procurar, façam o que quiserem, não estamos nem aí”.

Pedi o endereço, anotei. Enquanto eu escrevia, ela me disse:

“Se encontrá-la, diga que não sou eu que impeço Stefano de ver o menino: é ele que anda muito ocupado e, mesmo que lamente, não tem podido ir. Diga também que os Solara não se esquecem de nada, especialmente Michele. Diga que não confie em ninguém.”

 

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