História do novo sobrenome
Capítulo 79
Mas não consegui resistir. Adiei longamente e depois acabei cedendo: perguntei a Alfonso se num domingo podíamos dar um passeio, eu, ele e Marisa. Alfonso ficou contente, fomos a uma pizzaria de Via Foria. Perguntei sobre Lidia, sobre os meninos, especialmente sobre Ciro, e então perguntei o que Nino andava fazendo de bom. Ela me respondeu sem interesse, falar do irmão a deixava nervosa. Disse que ele tinha tido um longo período de loucura, e o pai, que ela adorava, havia passado por maus momentos, Nino chegara a partir para cima dele. Nunca se soube qual seria a causa dessa loucura: não queria mais estudar, queria ir embora da Itália. Depois tudo passou de repente: voltou a ser como era antes e estava recomeçando a prestar os exames.
“Então ele está bem?”
“Sei lá.”
“Está contente?”
“Na medida em que alguém como ele é capaz de estar contente, sim.”
“E só estuda?”
“Você quer saber se ele tem namorada?”
“Não, imagine, só quero saber se ele sai, se se diverte, se sai para dançar.”
“E eu sei lá, Lena? Ele está sempre fora. Agora está obcecado com cinema, com romances, com arte, e nas raras vezes em que aparece em casa começa logo a discutir com papai, só para ofendê-lo, para arranjar briga.”
Me senti aliviada por Nino ter se recuperado, mas também fiquei triste. Cinema, romances, arte? Como as pessoas mudavam depressa, seus interesses, seus sentimentos. Frases bem organizadas são substituídas por frases bem organizadas, o tempo é um fluxo de palavras coerentes só na aparência, quem mais tem mais acumula. Me senti uma idiota, tinha menosprezado as coisas de que gostava só para me adequar ao que agradava a Nino. Sim, sim, resignar-se àquilo que se é, cada qual pelo seu caminho. Torci apenas para que Marisa não mencionasse que tinha me encontrado e que eu perguntara por ele. Depois daquela noite, não me referi mais a Nino ou a Lila nem com Alfonso.
Me fechei ainda mais em minhas obrigações, comecei a multiplicá-las para ocupar meu dia e minha noite. Naquele ano estudei obsessiva, cavilosamente, e ainda aceitei outra aula particular por bastante dinheiro. Me impus uma disciplina férrea, muito mais dura que aquela à qual me habituara desde a infância. Tempo escandido, uma linha reta que corria desde o amanhecer até a noite funda. No passado havia Lila, um desvio contínuo e feliz rumo a territórios surpreendentes. Agora tudo o que eu era queria extrair de mim. Tinha quase dezenove anos, nunca dependeria de ninguém, e nunca mais sentiria a falta de ninguém.
O terceiro ano de liceu passou num piscar de olhos. Pelejei com a geografia astronômica, com a geometria, com a trigonometria. Foi uma espécie de corrida para saber tudo, quando de fato eu dava por certo que minha insuficiência era constitutiva e, portanto, incancelável. No entanto eu gostava de fazer o possível. Não tinha tempo de ir ao cinema? Assimilava apenas os títulos e as tramas. Nunca tinha ido ao Museu Arqueológico? Passava ali um meio período, às pressas. Nunca tinha visitado a pinacoteca de Capodimonte? Dava um pulo por lá, duas horinhas, e ia embora. Enfim, eu tinha coisas demais a fazer. Que me importavam os sapatos e a loja da Piazza dei Martiri? Nunca mais fui lá.
Às vezes encontrava Pinuccia, acabada, empurrando Fernando no carrinho. Parava um segundo, escutava distraidamente as lamúrias sobre Rino, Stefano, Lila, Gigliola, todo mundo. Às vezes encontrava Carmen, cada vez mais desesperada com a situação na charcutaria nova desde que Lila tinha ido embora, abandonando-a aos abusos de Maria e Pinuccia, e a deixava desabafar por uns minutos sobre a saudade que sentia de Enzo Scanno, como ela contava os dias para que ele voltasse do serviço militar, como seu irmão Pasquale penava entre o trabalho nos canteiros de obra e a militância comunista. Às vezes encontrava Ada, que passara a detestar Lila, ao passo que estava muito contente com Stefano, falava dele com ternura, e não só porque ele aumentara ainda mais seu salário, mas também porque era um grande trabalhador, disponível com todos, e não merecia aquela mulher que o tratava que nem cachorro.
Foi ela quem me disse que Antonio tinha sido dispensado antecipadamente por causa de um terrível esgotamento nervoso.
“Como assim?”
“Você sabe como ele é, já com você dava sinais de esgotamento.”
Uma frase ruim, que me feriu, mas tentei não pensar nisso. Num domingo de inverno encontrei Antonio por acaso e quase não o reconheci, de tanto que estava magro. Dei um sorriso esperando que ele parasse, mas ele pareceu nem se dar conta de mim e seguiu adiante. Então o chamei, e ele se virou com um sorriso alheado.
“Oi, Lenu.”
“Oi. Estou tão contente de ver você.”
“Eu também.”
“O que tem feito?”.
“Nada.”
“Não vai voltar para a oficina?”
“Não há mais vaga.”
“Você é bom, vai encontrar emprego em outro lugar.”
“Não, se eu não me curar, não vou conseguir nada.”
“O que você teve?”
“Medo.”
Falou exatamente assim: medo. Em Cordenons, numa noite, enquanto estava de sentinela, se lembrou de uma brincadeira que o pai fazia quando ainda estava vivo e ele era bem pequeno: desenhava com uma caneta olhos e bocas nos cinco dedos da mão esquerda e depois os mexia e falava com eles como se fossem pessoas. Era uma brincadeira tão bonita que só de lembrar ele chorava. Mas naquela noite, durante o turno de guarda, ele teve a impressão de que a mão de seu pai havia entrado na dele e que agora ele tinha dentro dos dedos gente de verdade, miúda, miúda, mas toda bem formada, que ria e cantava. O medo lhe viera por esse motivo. Batera a mão contra a guarita até sangrar, mas os dedos continuaram rindo e cantando, sem parar um segundo. Só ficou bem quando o turno terminou e ele foi dormir. Um pouco de descanso e, na manhã seguinte, não tinha mais nada. Mas permanecera o terror de que a doença na mão voltasse. E de fato voltou, cada vez mais frequente, os dedos passaram a rir e a cantar até de dia. Até que ele pirou, e o levaram ao médico.
“Agora passou”, disse, “mas sempre pode recomeçar.”
“Me diga como eu posso ajudar.”
Pensou um pouco, como se de fato estivesse avaliando uma série de possibilidades. Então murmurou:
“Ninguém pode me ajudar.”
Entendi imediatamente que ele não sentia mais nada por mim, eu saíra definitivamente de sua cabeça. Por isso, depois daquele encontro, peguei o hábito de todo domingo ir até sua janela e chamá-lo. Dávamos um passeio no pátio, falávamos disso e daquilo e, quando ele dizia que estava cansado, nos despedíamos. Às vezes ele descia com Melina, vistosamente maquiada, e passeávamos eu, ele e a mãe. Às vezes nos encontrávamos com Ada e Pasquale e dávamos uma volta mais longa, mas em geral só nós três conversávamos, Antonio ficava mudo. Em suma, isso se tornou um hábito tranquilo. Fui com ele ao enterro de Nicola Scanno, o verdureiro, que morreu de repente com uma pneumonia, e Enzo veio de licença, mas não chegou a tempo de encontrá-lo vivo. Juntos também fomos consolar Pasquale, Carmen e a mãe deles, Giuseppina, quando se soube que o pai, o ex-marceneiro que matara dom Achille, tinha morrido de infarto na prisão. E também estávamos juntos quando recebemos a notícia de que dom Carlo Resta, o vendedor de sabão e outros artigos domésticos, tinha sido assassinado a pauladas dentro de sua lojinha. Falamos longamente sobre isso, todo o bairro comentou, as conversas difundiram verdades e fantasias cruéis, alguém contou que as pauladas não tinham sido suficientes e que lhe meteram uma lima no nariz. Atribuiu-se o crime a um bandido qualquer, alguém que roubara o faturamento do dia. Mas depois Pasquale nos contou que ouvira conversas segundo ele muito mais plausíveis: dom Carlo estava endividado com a mãe dos Solara porque era viciado em baralho e recorria a ela para as dívidas de jogo.
“E daí?”, perguntou Ada, que sempre era cética quando o namorado vinha com hipóteses mirabolantes.
“E daí que ele não quis dar o que devia à agiota e então o trucidaram.”
“Que nada, você sempre falando bobagens.”
É provável que Pasquale estivesse exagerando, mas, em primeiro lugar, nunca se soube quem matou dom Carlo Resta, em segundo, a lojinha foi arrematada justamente pelos Solara, com toda a mercadoria que havia dentro, e por uma ninharia, embora eles tenham deixado a viúva de dom Carlo e o filho mais velho cuidando do negócio.
“Por generosidade”, disse Ada.
“Porque é gente de merda”, respondeu Pasquale.
Não lembro se Antonio fez comentários sobre esse episódio. Estava esmagado pelo mal-estar, que as conversas de Pasquale de algum modo aguçavam. Tinha a impressão de que a desordem de seu corpo estivesse se alastrando pelo bairro e se manifestasse pelos casos horrorosos que se sucediam.
Para nós, o fato mais terrível aconteceu num domingo tépido, primaveril, quando eu, ele, Pasquale e Ada estávamos no pátio esperando Carmela, que subira para pegar um agasalho em casa. Passaram cinco minutos e Carmen apareceu na janela, gritando para o irmão:
“Pasquá, não estou achando mamãe: a porta do banheiro está trancada por dentro, mas ela não responde.”
Pasquale subiu as escadas aos saltos, e nós atrás. Encontramos Carmela ansiosa, em frente à porta do banheiro, e Pasquale bateu constrangido, educadamente, várias vezes, mas de fato ninguém respondeu. Então Antonio disse ao amigo, acenando para a porta: não se preocupe, depois eu conserto, e, agarrando a maçaneta, quase a arrancou fora.
A porta se abriu. Giuseppina Peluso tinha sido uma mulher radiosa, enérgica, trabalhadora, afável, capaz de enfrentar todas as adversidades. Nunca deixara de cuidar do marido preso e, quando ele foi detido — me lembro bem —, acusado de ter assassinado dom Achille Carracci, ela se opôs com todas as forças. Quatro anos atrás, aceitara com refletida adesão o convite de Stefano para passarmos juntos a noite de Ano Novo e foi à festa com os filhos, contente por aquela reconciliação entre as famílias. E ficou feliz quando a filha, graças a Lila, conseguiu um emprego na charcutaria do bairro novo. Mas agora, morto o marido, ela evidentemente se cansara, em pouco tempo se tornara uma mulher frágil, sem a energia de antigamente, só pele e osso. Tinha retirado a luminária do banheiro, um prato metálico pendurado por uma corrente, e amarrara ao gancho fixado no teto o cabo de aço do varal. Depois se pendurou pelo pescoço.
Antonio a viu antes de todos e caiu no choro. Foi mais fácil acalmar os filhos de Giuseppina, Carmen e Pasquale, do que ele. Repetia para mim horrorizado: você viu que ela estava com os pés descalços e que as unhas eram compridas e que em um pé havia esmalte vermelho fresco e no outro não? Eu não tinha percebido, mas ele, sim. Apesar da doença dos nervos, tinha voltado do serviço militar mais convencido que nunca de que sua missão era agir como o macho que se lança ao perigo antes de todos, sem medo, e consegue resolver todos os problemas. Mas era frágil. Depois daquele episódio, durante semanas viu Giuseppina em todos os cantos escuros da casa e ficou ainda pior, de modo que deixei de lado todas as minhas obrigações para ajudá-lo a se acalmar. Foi a única pessoa do bairro que frequentei com certa continuidade, até prestar os exames finais. Quanto a Lila, mal a vi ao lado do marido no enterro de Giuseppina, enquanto abraçava Carmen aos soluços. Ela e Stefano tinham mandado uma grande coroa de flores, em cuja fita roxa se liam as condolências do casal Carracci.
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