História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 6 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 5

Caí numa prostração que, por mais que eu tentasse repousar, não queria ir embora. Pela primeira vez cabulei a escola. Acho que me isolei por uns quinze dias, e nem a Antonio eu disse que não aguentava mais os estudos, que estava pensando em desistir. Saía na hora de sempre, perambulava a manhã inteira pela cidade. Aprendi muito de Nápoles naquele período. Vasculhava os livros usados das banquinhas de Port’Alba, assimilava involuntariamente títulos, nomes de autores, prosseguia rumo a Toledo e o mar. Subia ao Vomero pela Via Salvator Rosa, chegava a San Martino, descia pelo Petraio. Ou explorava a Doganella, alcançava o cemitério, vagava pelas alamedas silenciosas, lia os nomes dos mortos. Às vezes jovens desocupados, velhos babacas e até senhores distintos me abordavam com propostas obscenas. Eu apertava o passo olhando para baixo, escapava sentindo o perigo, mas não desistia. Aliás, quanto mais eu evitava o colégio, mais aquelas longas manhãs de vagabundagem alargavam o rasgo na rede de obrigações escolares que me aprisionava desde que eu tinha seis anos. Na hora prevista eu voltava para casa e ninguém suspeitava que eu, logo eu, não tivesse ido ao colégio. Passava a tarde lendo romances, depois corria aos pântanos com Antonio, que estava contentíssimo com minha disponibilidade. Ele queria me perguntar se eu tinha visto o filho de Sarratore. Eu lia a indagação em seus olhos, mas ele não ousava formulá-la, temia a discussão, temia que eu ficasse com raiva e lhe negasse os poucos minutos de prazer. Então me abraçava para me sentir solícita contra seu corpo e expulsar qualquer dúvida. Naqueles momentos, excluía que eu fosse capaz de lhe fazer a afronta de encontrar o outro.

Errava: na realidade, mesmo me sentindo culpada, eu só fazia pensar em Nino. Desejava muito encontrá-lo, conversar com ele, mas por outro lado morria de medo. Temia que me humilhasse com sua superioridade. Temia que de algum modo voltasse aos motivos pelos quais o artigo sobre meu confronto com o professor de religião não tinha sido publicado. Temia que me relatasse o parecer cruel da redação. Eu não suportaria isso. Seja enquanto vagava pela cidade, seja à noite na cama, quando o sono não vinha e eu notava nitidíssima minha insuficiência, preferia acreditar que meu texto tinha sido descartado por pura e simples falta de espaço. Atenuar, deixar que se apagasse. Mas era difícil. Eu não estivera à altura de Nino, portanto não podia estar ao lado dele, pretender que me ouvisse, dizer-lhe meus pensamentos. Mas que pensamentos, se eu não tinha nenhum? Melhor me autoexcluir, chega de livros, de notas e de elogios. Esperava esquecer tudo aos poucos: as noções que me abarrotavam a cabeça, as línguas vivas e mortas, o próprio italiano que se insurgia em minha boca até com meus irmãos. É culpa de Lila, eu pensava, se tomei esse caminho, preciso esquecê-la também: Lila sempre soube o que queria e o conseguiu; eu não quero nada, eu sou feita de nada. Esperava acordar de manhã sem desejos. Uma vez esvaziada — calculava —, o afeto de Antonio e meu afeto por ele bastarão.

Depois, um dia, voltando para casa, topei com Pinuccia, a irmã de Stefano. Soube por ela que Lila voltara da viagem de núpcias e que fizera um banquete para festejar o noivado da cunhada com o irmão dela.

“Você e Rino estão noivos?”, perguntei me fazendo de surpresa.

“Estamos”, respondeu radiante, me mostrando a aliança que ele lhe dera.

Lembro que, enquanto Pinuccia falava, eu tive um único pensamento tortuoso: Lila fez uma festa na casa nova e não me convidou, mas melhor assim, estou contente, chega de me confrontar com ela, não quero mais vê-la. Somente quando cada detalhe do noivado foi passado em revista, perguntei cautelosamente sobre minha amiga. Pinuccia deu um risinho pérfido e respondeu com uma fórmula dialetal: tá aprendendo. Não perguntei o quê. Quando cheguei em casa, dormi a tarde inteira.

No dia seguinte saí como sempre às sete da manhã para ir ao colégio, ou melhor, para fazer de conta que ia. Tinha acabado de atravessar o estradão quando vi Lila sair do conversível e entrar direto em nosso pátio, sem nem sequer se virar para se despedir de Stefano, que estava ao volante. Estava vestida com esmero, usava grandes óculos escuros mesmo sem fazer sol. Chamou-me a atenção uma echarpe de véu azul escuro, ajeitada de modo a lhe cobrir até a boca. Pensei com rancor que fosse um novo estilo dela, não mais a la Jacqueline Kennedy, mas mais para a senhora tenebrosa que desde pequenas imaginávamos nos tornar. Segui em frente sem me dirigir a ela.

No entanto, após alguns passos, voltei atrás, mas não com um propósito claro, apenas porque não pude agir de outro modo. Meu coração batia forte, os sentimentos eram confusos. Talvez a intenção fosse lhe pedir que me dissesse na cara que nossa amizade tinha terminado. Talvez quisesse lhe gritar na cara que eu decidira parar de estudar e também me casar, ir viver na casa de Antonio com a mãe dele e os irmãos, lavar as escadas como Melina, a louca. Atravessei o pátio a passos rápidos e a vi entrando pelo portão onde a sogra morava. Subi as escadas, as mesmas que tínhamos enfrentado juntas na infância quando fomos pedir a dom Achille que nos devolvesse nossas bonecas. Eu chamei, ela se virou.

“Você voltou”, eu disse.

“Sim.”

“E por que não me procurou?”

“Não queria que me visse.”

“Os outros podem vê-la e eu não?”

“Não me importo com os outros, com você, sim.”

Então a examinei, indecisa. O que eu não devia ver? Subi os degraus que nos separavam e afastei com delicadeza a echarpe, levantei seus óculos.

 

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