História do novo sobrenome
Capítulo 60
Os dias seguintes deixaram a situação cada vez mais clara. Nino tinha o costume de chegar com um jornal, um livro: isso não acontecia mais. As conversas animadas sobre a condição humana arrefeceram, se reduziram a frases distraídas rumo a palavras mais íntimas. Lila e Nino passaram a nadar juntos demoradamente, até se tornarem pontos indistintos da praia. Ou então nos impunham longas caminhadas que consolidaram nossa divisão em casais. E nunca, absolutamente nunca, eu fui acompanhada por Nino, ou Lila por Bruno. Tornou-se natural que os dois caminhassem mais atrás. Nas vezes em que eu me virava de repente, tinha a impressão de ter causado uma ferida dolorosa. As mãos, as bocas se retraíam como por um choque.
Sofri muito, mas — devo admitir — com um fundo permanente de incredulidade que fazia o sofrimento chegar em ondas. Tinha a impressão de assistir a um teatrinho sem substância: brincavam de representar dois namorados, ambos sabendo que não o eram e não podiam ser; um já tinha namorada, a outra era mesmo casada. Às vezes os olhava como divindades decaídas: antes tão maravilhosos, tão inteligentes, e agora tão idiotas, empenhados num jogo idiota. Eu planejava dizer a Lila, a Nino, a ambos: o que vocês pensam que são, voltem a pôr os pés no chão.
Não consegui dizer nada. Em dois ou três dias as coisas mudaram ainda mais. Começaram a andar de mãos dadas sem se esconder, com um despudor ofensivo, como se tivessem decidido que não valia a pena fingir diante de nós. Muitas vezes brigavam de brincadeira, só para se agarrarem, se estapearem, se abraçarem, rolarem juntos na areia. Ao passear, assim que avistavam uma barraca abandonada, um velho estabelecimento reduzido a ruínas, uma trilha que se perdia entre a vegetação selvagem, decidiam explorar a área como crianças, sem nos convidar a acompanhá-los. Afastavam-se ele na frente, ela atrás, em silêncio. Quando se estendiam ao sol, encurtavam as distâncias o mais possível. No início lhes bastava um leve contato de ombros, um roçar de braços, de pernas, de pés. Depois, ao voltarem das intermináveis nadadas diárias, se espichavam um ao lado do outro na toalha de Lila, que era maior, e imediatamente, com naturalidade, Nino lhe passava um braço nos ombros, ela apoiava a cabeça em seu peito. Uma vez chegaram até a se beijar na boca, rindo, um beijo alegre e fugaz. Eu pensava: ela é louca, os dois são loucos. E se alguém de Nápoles, um conhecido de Stefano, os encontrar? E se passar o revendedor que nos conseguiu a casa? Ou se neste momento Nunzia decidir dar um pulo na praia?
Não podia acreditar em tanta inconsciência, mas a cada vez eles superavam os limites. Ver-se apenas de dia já não lhes bastava, e Lila decidiu que agora precisava ligar para Stefano toda noite, mas rejeitou com maus modos a oferta de Nunzia de nos acompanhar. Após o jantar, ela me obrigava a ir a Forio. Fazia uma ligação rapidíssima ao marido e depois era só passear, ela e Nino, eu e Bruno. Nunca voltávamos para casa antes da meia-noite, e os dois rapazes nos acompanhavam a pé pela praia escura.
Na sexta à noite, ou seja, um dia antes de Stefano voltar, ela e Nino de repente brigaram não de brincadeira, mas a sério. Nós três estávamos tomando um sorvete na mesa, Lila tinha ido telefonar. Nino, taciturno, tirou do bolso umas folhas escritas dos dois lados e começou a ler sem dar explicações, isolando-se da conversa sem graça entre mim e Bruno. Quando ela voltou, ele nem se dignou a olhá-la, não guardou os papéis no bolso e continuou lendo. Lila esperou meio minuto e então perguntou num tom alegre:
“Isso é tão interessante assim?”
“É”, disse Nino sem levantar os olhos.
“Então leia em voz alta, queremos ouvir.”
“É coisa minha, não diz respeito a vocês.”
“O que é?”, perguntou Lila, mas estava na cara que ela já sabia.
“Uma carta.”
“De quem?”.
“De Nadia.”
Com um gesto fulminante, imprevisível, ela se inclinou e lhe arrancou as folhas dos dedos. Nino estremeceu como se um grande inseto o tivesse picado, mas não fez nada para recuperar a carta, mesmo quando Lila começou a lê-la com ares declamatórios, em voz altíssima. Era uma carta de amor um tanto infantil, avançava linha após linha com variações açucaradas sobre o tema da falta. Bruno escutou calado, com um sorriso constrangido, e eu, ao ver que Nino não parecia tomar a coisa como uma brincadeira, fixando carrancudo os pés escuros listrados pelas sandálias, sussurrei a Lila:
“Chega, devolva para ele.”
Assim que intervim, ela interrompeu a leitura, mas deixou no rosto a expressão de deboche e não devolveu a carta.
“Você está com vergonha, não é?”, perguntou a ele. “Culpa sua. Como é que pode ser namorado de uma que escreve desse jeito?”
Nino não disse nada, continuou de olhos fixos nos pés. Bruno atalhou, também em tom divertido:
“Vai ver que, quando alguém se apaixona por uma pessoa, antes não a submete a uma prova para ver se ela sabe escrever cartas de amor.”
Mas Lila nem se virou para olhá-lo, continuou se dirigindo a Nino como se ambos estivessem travando sob nossos olhos uma discussão secreta:
“Você gosta dela? Por quê? Explique para nós. Será porque ela mora no Corso Vittorio Emanuele, numa casa cheia de livros e quadros antigos? Porque fala com uma voz de nhenhenhém, nhenhenhém? Porque é a filha da professora?”
Finalmente Nino despertou e disse:
“Me devolva esses papéis.”
“Só devolvo se você os rasgar aqui, imediatamente, diante de nós.”
Ao tom divertido de Lila Nino opôs monossílabos seríssimos, com evidentes vibrações agressivas.
“E depois?”
“Depois escrevemos juntos uma carta para Nadia, em que você vai dizer que a está deixando.”
“E depois?”
“Hoje mesmo a colocamos no correio.”
Por um instante ele não disse nada; por fim, concordou.
“Vamos fazer isso.”
Incrédula, Lila apontou as folhas.
“Você vai rasgar de verdade?”
“Vou.”
“E vai deixá-la?”
“Sim. Mas com uma condição.”
“Pois então diga.”
“Que você deixe seu marido. Agora. Vamos todos juntos até o telefone e você comunica a ele.”
Aquelas palavras me causaram uma emoção fortíssima, no momento não entendi por quê. Ele as pronunciou aumentando a voz tão de repente que o timbre rachou. Ao ouvi-lo, os olhos de Lila se reduziram imediatamente a uma fissura, de um jeito que eu conhecia bem. Agora ela mudaria de tom. Agora, pensei, vai se tornar cruel. De fato, lhe respondeu: como você se permite? Disse: com quem pensa que está falando? Disse: “Como lhe passou pela cabeça pôr no mesmo nível esta carta, suas idiotices com aquela cadela de boa família, e eu, meu marido, meu casamento, minha vida inteira? Você se acha o máximo, mas não é capaz de entender uma brincadeira. Aliás, não entende nada. Nada, ouviu bem? E não faça essa cara. Vamos dormir, Lenu”.
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