História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 118 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 117

Enzo e Lila se transferiram para San Giovanni a Teduccio numa Seicento usada que ele havia comprado recentemente. Durante todo o percurso não trocaram uma palavra, mas combateram o silêncio falando ambos com o menino, Lila como se dirigisse a um adulto, Enzo, com monossílabos do tipo bem, que, sim. Ela conhecia pouquíssimo San Giovanni. Certa vez tinha ido até lá com Stefano, pararam no centro para um café e tivera uma boa impressão. Mas Pasquale, que estava sempre por ali seja como pedreiro, seja como militante comunista, uma vez lhe falara de lá muito descontente, descontente como trabalhador e como militante. “É um lixo”, dissera, “um esgoto: quanto mais se produz riqueza, mais cresce a miséria, e não conseguimos mudar nada, apesar de sermos fortes.” Mas Pasquale era sempre muito crítico em relação a tudo e, por isso, pouco confiável. Enquanto a Seicento avançava pelas ruas irregulares, por edifícios arruinados e grandes prédios de construção recente, preferiu se convencer de que estava levando o menino a um gracioso vilarejo perto do mar e só pensou no que pretendia dizer — por clareza, por honestidade — a Enzo assim que chegassem.

Mas de tanto pensar acabou não dizendo nada. “Mais tarde”, disse a si mesma. Assim chegaram ao apartamento que Enzo tinha alugado, no segundo andar de um prédio novo e no entanto já deteriorado. Os cômodos estavam semivazios, ele disse que tinha comprado o indispensável, mas que a partir do dia seguinte providenciaria todo o necessário. Lila o tranquilizou, tinha feito até demais. Somente quando parou diante da cama de casal decidiu que era hora de falar. Disse-lhe com um tom afetuoso:

“Eu o estimo demais, Enzo, desde quando éramos pequenos. Admiro muito uma coisa que você fez: começou a estudar sozinho, tirou um diploma, e eu sei quanta disciplina isso exige, eu nunca a tive. Você também é a pessoa mais generosa que conheço, ninguém teria feito o que você está fazendo por Rinuccio e por mim. Mas não posso dormir com você. Não é porque nos vimos sozinhos no máximo duas ou três vezes. Não é nem sequer porque você não me agrada. É que não tenho mais sensibilidade, sou como essa parede ou essa mesinha. Por isso, se conseguir viver na mesma casa comigo sem me tocar, bem; se não conseguir, eu entendo e amanhã de manhã vou procurar outro lugar. Mas leve em conta que serei sempre agradecida pelo que fez por mim.”

Enzo ficou ouvindo sem a interromper em nenhum momento. Por fim disse, apontando a cama de casal:

“Fique você aqui, eu me ajeito na cama dobrável.”

“Prefiro a cama dobrável.”

“E Rinuccio?”

“Vi que há outra caminha.”

“Ele dorme sozinho?”

“Dorme.”

“Você pode ficar quanto quiser.”

“Tem certeza?”

“Absoluta.”

“Não quero coisas ruins, que estraguem nossa amizade.”

“Não se preocupe.”

“Me desculpe.”

“Está bem assim. Se por acaso sua sensibilidade voltar, você sabe onde estou.”

 

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