História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 76 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 75

 

Stefano chegou na hora de sempre. Nós três o recebemos com falsa alegria, e ele foi gentil, mas estava um pouco tenso, como se por trás da face benévola houvesse uma preocupação. Como a partir daquele dia começava seu período de férias, fiquei surpresa de que não tivesse trazido bagagem. Lila não pareceu se dar conta, mas Nunzia percebeu e perguntou: “Você parece com a cabeça meio no ar, Sté. Alguma preocupação? Sua mãe está bem? E Pinuccia? E como vão os sapatos? O que os Solara acharam? Estão contentes?”. Ele respondeu que estava tudo certo e jantamos, mas a conversa não engrenou. No início Lila tentou se mostrar de bom humor, mas, como Stefano respondia com monossílabos e sem sinais de afeto, ela se contrariou e não falou mais. Somente eu e Nunzia tentamos de todos os modos evitar que o silêncio se tornasse estável. Quando a fruta foi servida, Stefano disse à esposa com um meio sorriso:

“Você tem ido à praia com o filho de Sarratore?”

Perdi o fôlego. Lila lhe respondeu irritada:

“Às vezes. Por quê?”

“Quantas vezes? Uma, duas, três, cinco, quantas? Lenu, você sabe?”

“Uma vez”, respondi, “ele passou dois ou três dias atrás e ficamos na praia todos juntos.”

Stefano continuou com o meio sorriso na cara e se voltou para a esposa:

“E você e o filho de Sarratore ficaram tão íntimos que, quando voltam do banho, se dão as mãos?”

Lila o mirou direto na cara:

“Quem lhe disse isso?”

“Ada.”

“E quem disse a Ada?”

“Gigliola.”

“E a Gigliola?”

“Gigliola viu você, sua idiota. Veio aqui com Michele, vieram encontrar vocês. E não é verdade que você e aquele bosta tomavam banho com Lenuccia, tomavam banho sozinhos e estavam de mãos dadas?”

Lila se levantou, disse com calma:

“Vou sair para um passeio.”

“Você não vai a lugar nenhum: fique sentada e responda.”

Lila continuou de pé. Disse de improviso, em italiano e com uma ostensiva expressão de cansaço que, no entanto — me dei conta —, era de desprezo:

“Como eu fui estúpida em me casar com você, você não vale nada. Sabe que Michele Solara quer que eu trabalhe na loja dele, sabe que, por esse motivo, Gigliola me mataria se pudesse. E você faz o quê? Acredita nela? Não quero mais ouvir suas bobagens, você se deixa manipular como uma marionete. Lenu, você me acompanha?”

Encaminhou-se para a porta, e eu já estava me levantando, mas Stefano deu um pulo, a agarrou pelo braço e disse:

“Você não vai a lugar nenhum. Precisa me dizer se é verdade ou não que tomou banho sozinha com o filho de Sarratore, se é verdade ou não que vocês andam por aí de mãos dadas.”

Lila tentou se soltar, mas não conseguiu. Sibilou:

“Solte meu braço, você me dá nojo.”

Neste ponto Nunzia se intrometeu. Censurou a filha, disse que ela não podia se permitir falar assim com Stefano. Mas logo em seguida, com uma energia surpreendente, quase gritou ao genro que ele devia parar com aquilo, que Lila já tinha respondido, que foi por inveja que Gigliola disse aquelas coisas, que a filha do confeiteiro era desleal, que tinha medo de perder o lugar na Piazza dei Martiri, que queria expulsar de lá até Pinuccia e ficar como a única senhora e dona da loja, ela, que de sapatos não entendia nada, ela, que nem doces sabia fazer, enquanto tudo, tudo, tudo era mérito de Lila, inclusive a prosperidade da nova charcutaria, e portanto a filha não merecia ser tratada daquele modo, não, não merecia.

Foi um verdadeiro acesso: o rosto se inflamou, os olhos se arregalaram, a certa altura pareceu sufocar de tanto somar frases sem tomar fôlego. Mas Stefano não escutou nem uma palavra sequer. A sogra ainda falava quando ele puxou Lila para o quarto de casal e lhe gritou: “Agora você vai me responder, já”, e, como ela o insultou com palavras ainda mais pesadas e se agarrou à portinha de um móvel para resistir, ele a arrastou com tal força que a portinhola se abriu, o móvel vacilou perigosamente produzindo um barulho de pratos e copos agitados, e Lila quase voou pela cozinha e foi bater contra a parede do corredor que levava ao quarto. Um instante depois o marido tornou a agarrá-la e, segurando-a pelo braço, mas como se fosse uma xícara erguida pela alça, a empurrou para o quarto e fechou a porta atrás de si.

Ouvi a chave girando na fechadura, e aquele ruído me aterrorizou. Naqueles segundos intermináveis, vi com meus próprios olhos que Stefano era realmente habitado pelo fantasma do pai, que de fato a sombra de dom Achille podia inchar as veias de seu pescoço e a ramificação azul sob a pele da fronte. Mas, embora assustada, senti que não podia ficar parada, sentada à mesa, como Nunzia. Grudei na maçaneta da porta e comecei a sacudi-la, a bater o punho contra a madeira, implorando: “Stefano, por favor, não é verdade, deixe Lila em paz. Stefano, não faça mal a ela”. Mas ele já estava encerrado dentro da própria raiva, não parava de gritar que queria a verdade e, como Lila não falava, aliás, parecia nem estar mais no quarto, por um momento era como se ele falasse sozinho enquanto se esbofeteava, se esmurrava, quebrava coisas.

“Vou chamar a dona da casa”, disse a Nunzia, e corri escada abaixo. Queria perguntar à proprietária se havia outra chave ou se o sobrinho dela estava lá, um homenzarrão que saberia como arrombar a porta. Mas bati inutilmente, a dona não estava e, se estava, não abriu. Enquanto isso os urros de Stefano faziam as paredes vibrar, se expandiam pela estrada, pelo juncal, em direção ao mar, e no entanto pareciam não encontrar outros ouvidos além dos meus, ninguém que aparecesse nas janelas das casas vizinhas, ninguém que acorresse. Apenas se ouviam, mas em tom menor, as súplicas de Nunzia alternadas à ameaça de que, se Stefano continuasse machucando a filha, ela contaria tudo a Fernando e a Rino e, tão certo quanto Deus existe, eles o matariam.

Voltei para cima correndo, não sabia o que fazer. Me joguei com todo o peso do corpo contra a porta, gritei que tinha chamado a polícia, que os guardas estavam chegando. Depois, visto que Lila continuava sem dar sinais de vida, comecei a berrar: “Lila, você está bem? Por favor, Lila, me diga como você está”. Somente então escutamos sua voz. Não se dirigia a nós, mas ao marido, gélida:

“Quer saber a verdade, quer? Sim, eu e o filho de Sarratore fomos tomar banho de mãos dadas. Sim, fomos para o alto mar e nos beijamos e nos bolinamos. Sim, deixei que ele me fodesse mil vezes e assim descobri que você é um merda, que não vale nada, que só quer de mim coisas nojentas, que me fazem vomitar. Está bem assim? Está contente?”

Silêncio. Depois daquelas palavras, Stefano não deu um pio, eu parei de bater na porta, Nunzia parou de chorar. Os rumores externos foram voltando, os carros que passavam, alguma voz distante, o bater de asas das galinhas.

Alguns minutos se passaram e foi Stefano quem recomeçou a falar, mas num tom tão baixo que não conseguimos ouvir o que ele dizia. De todo modo, entendi que estava buscando uma maneira de se acalmar: frases breves e desconexas, deixe ver o que você se fez, fique tranquila, pare com isso. A confissão de Lila deve ter lhe parecido tão insuportável que acabara a recebendo como uma mentira. Entendera aquilo como um meio ao qual ela recorrera para machucá-lo, um exagero equivalente a uma bofetada para que ele voltasse a si, frases que queriam dizer mais ou menos: se você ainda não se deu conta dos absurdos de que me acusa, agora sou eu quem vai esclarecer suas ideias, ouça bem.

Para mim, no entanto, as palavras de Lila me pareceram tão terríveis quanto as porradas de Stefano. Percebi que, se me aterrorizava a violência sem limites que ele represava por trás de maneiras gentis e do rosto afável, por outro lado eu não suportava a coragem de Lila, aquela sua audácia temerária que lhe permitia gritar a verdade como se fosse uma mentira. Cada palavra que ela dirigira a Stefano o fizera recobrar o juízo, por considerá-las falsas, e feriram dolorosamente a mim, que conhecia a verdade. Quando a voz do salsicheiro se tornou mais clara, tanto eu quanto Nunzia sentimos que o pior tinha passado, dom Achille estava se retirando de seu filho e o devolvendo a seu lado benévolo, flexível. E Stefano, restituído àquele aspecto que fizera dele um comerciante de sucesso, agora estava perdido, já não entendia o que acontecera com sua voz, com as mãos, os braços. Mesmo que provavelmente a imagem de Lila e Nino de mãos dadas ainda estivesse em sua mente, o que Lila lhe evocara com aquela saraivada de palavras só podia apresentar os traços evidentes da irrealidade.

A porta não se abriu, e a chave só girou na fechadura quando amanheceu. Mas o timbre de Stefano se tornou triste, parecia uma súplica deprimida, e eu e Nunzia esperando do lado de fora por horas, fazendo companhia uma à outra com frases desanimadas, quase imperceptíveis. Sussurros dentro, sussurros fora. “Se eu contar a Rino”, murmurava Nunzia, “ele vai matá-lo, com certeza vai matá-lo”. E eu sussurrava, como se acreditasse nela: “Por favor, não diga nada a ele”. Mas por dentro pensava: depois do casamento, nem Rino nem Fernando moveram um dedo por Lila; sem falar que, desde que ela nasceu, a espancaram todas as vezes que quiseram. E então me dizia: os homens são todos farinha do mesmo saco, só Nino é diferente. Eu suspirava, e o rancor ganhava nova força: agora está mais do que claro que Lila o tomará para si, mesmo sendo casada, e os dois, juntos, vão se livrar desta miséria, enquanto eu ficarei aqui para sempre.

 

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