História do novo sobrenome
Capítulo 68
Eu estava com raiva, aterrorizada, descontente com cada palavra e cada gesto meu. Assim que Michele estava longe o suficiente, disse a Lila, de modo que Nino também escutasse:
“Ele viu vocês.”
Nino perguntou incomodado:
“Quem é ele?”
“Uma camorrista de merda que se acha grande coisa”, disse Lila com desprezo.
Eu a corrigi imediatamente, Nino precisava saber:
“É sócio de seu marido. Vai contar tudo a Stefano.”
“Tudo o quê?”, reagiu Lila, “não há nada a contar.”
“Você sabe muito bem que eles vieram para espionar.”
“É? E quem está se fodendo para eles?”
“Eu estou me fodendo.”
“Paciência. De todo modo, mesmo que você não me ajude, as coisas vão acontecer como têm que ser.”
E, quase como se eu não estivesse presente, passou a combinar com Nino o dia seguinte. No entanto, ao passo que graças justamente àquele encontro com Michele Solara ela parecia ter centuplicado as próprias energias, ele parecia um brinquedinho sem corda. Murmurou:
“Tem certeza de que não vai se meter em encrencas por minha culpa?”
Lila fez um carinho em sua bochecha:
“Não quer mais?”
O toque pareceu reanimá-lo:
“Só estou preocupado com você.”
Deixamos Nino logo e voltamos para casa. Durante o caminho, tracei cenários catastróficos — “Michele vai falar com Stefano esta noite, Stefano vai correr para cá amanhã de manhã, não vai te encontrar em casa, Nunzia o mandará até Barano, não te encontrará em Barano, você vai perder tudo, Lila, escute o que estou lhe dizendo, desse jeito não só você se desgraça, mas eu também, minha mãe vai me moer os ossos” —, mas ela se limitou a me ouvir distraída, a sorrir, a me repetir de várias maneiras um único conceito: eu gosto muito de você, Lenu, e vou gostar sempre; por isso espero que você experimente pelo menos uma vez na vida isto que estou experimentando neste momento.
Então pensei: pior para você. Passamos a noite em casa. Lila foi gentil com a mãe, quis ela mesma cozinhar, quis servir os pratos, tirou a mesa, lavou a louça, chegou a se sentar nos joelhos da mãe, a lhe abraçar o pescoço, a apoiar a testa em sua testa com uma repentina melancolia. Nunzia, que não era acostumada àquelas gentilezas e deve ter achado a situação embaraçosa, a certa altura começou a chorar e lhe disse entre lágrimas uma frase que a ansiedade tornou tortuosa:
“Por favor, Lila, você é uma filha que nenhuma mãe tem outra igual, não me faça morrer de desgosto.”
Lila caçoou dela com afeto e acompanhou-a até o quarto de dormir. De manhã foi ela quem me tirou da cama, uma parte de mim estava tão sofrida que não queria acordar e se dar conta do dia. Enquanto a carroça motorizada nos levava a Forio, previ outros cenários terríveis que a deixaram numa absoluta indiferença: “Nella teve de sair”, “Nella está com hóspedes e não tem lugar para mim”, os “Sarratore decidem de repente vir a Forio para visitar o filho”. Ela replicou sempre em tom brincalhão: “Se Nella não estiver, a mãe de Nino hospedará você”; “se não tiver lugar, você vem dormir com a gente”; “se toda a família Sarratore vier bater na porta de Bruno, não abrimos”. E continuamos assim até que, pouco antes das nove, chegamos ao destino. Nino estava à espera na janela, correu para abrir o portão. Me fez um sinal de despedida e puxou Lila para dentro.
O que até aquele portão ainda podia ser evitado, a partir daquele momento se tornou um mecanismo irrefreável. Às custas de Lila, com a mesma condução, tomei o rumo de Barano. Ao longo do percurso percebi que não conseguia realmente odiá-los. Sentia rancor em relação a Nino, seguramente nutria por Lila sentimentos hostis, podia até desejar a morte de ambos, mas quase como uma magia capaz paradoxalmente de salvar a nós três. Odiar, não. Odiava sobretudo a mim mesma, me desprezava. Eu estava ali, ali na ilha, o ar agitado pela motoneta me atingia trazendo os cheiros intensos da vegetação de onde a noite estava evaporando. Mas era um estar ali mortificado, dobrado às razões alheias. Eu vivia neles, em surdina. Já não conseguia expulsar as imagens dos abraços, dos beijos na casa vazia. A paixão deles me invadia, me perturbava. Eu amava a ambos e por isso não conseguia amar a mim mesma, me sentir, afirmar uma minha necessidade de vida que tivesse a mesma força cega e surda da deles. Me parecia assim.
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