História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 101 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 100

Teve início um período complicado. Rino parou de ir à casa da irmã, mas Lila não quis deixar de cuidar de Rinuccio e Dino, e assim pegou o hábito de ir ela mesma à casa do irmão, mas escondida de Stefano. Pinuccia aceitava de malgrado, enfezada, e Lila a princípio buscou lhe explicar o que estava tentando fazer: exercícios de reatividade, brincadeiras de adestramento, chegou até a confidenciar que gostaria de envolver todas as crianças pequenas do bairro. Mas Pinuccia simplesmente lhe respondeu: “Você é uma louca, e não estou nem aí para as tontices que você faz. Quer pegar o menino para você? Quer matá-lo, quer comê-lo como as bruxas? Faça isso, eu não o quero nem nunca quis, seu irmão foi a desgraça de minha vida, e você é a desgraça da vida de meu irmão”. Então gritou: “Aquele pobre coitado faz muito bem em lhe meter chifres”.

Lila não reagiu.

Não perguntou o que significava aquela frase, ao contrário, fez um gesto involuntário, um desses gestos que se fazem para enxotar uma mosca. Pegou Rinuccio e, embora insatisfeita de privar-se do sobrinho, não voltou mais.

Mas na solidão de seu apartamento descobriu que tinha medo. Não se importava minimamente que Stefano pagasse alguma prostituta, aliás ficava até contente, não precisava suportá-lo à noite quando se aproximava dela. Mas depois daquela frase de Pinuccia começou a se preocupar pelo menino: se o marido estivesse com outra mulher, se a desejasse todo dia e toda hora, podia ficar louco e expulsá-la de casa. Até aquele momento a possibilidade de uma ruptura definitiva do casamento lhe parecera uma redenção, agora, ao contrário, temia perder a casa, os meios, o tempo, tudo o que lhe permitia criar o menino do melhor modo.

Começou a não dormir direito. Talvez os ataques de Stefano não fossem apenas o sintoma de um desequilíbrio constitucional, o sangue ruim que fazia saltar pelos ares a capa de comportamento cordial: talvez estivesse realmente apaixonado por outra, como ocorrera entre ela e Nino, e não suportasse continuar na gaiola do casamento, da paternidade, até das charcutarias e dos outros negócios. Lila refletia, mas não sabia o que fazer. Sentiu que devia enfrentar a situação, nem que fosse só para controlá-la, e no entanto protelava, desistia, contava com que Stefano desfrutasse sua amante e a deixasse em paz. No fim das contas, pensava, basta resistir uns dois anos, o suficiente para o menino crescer e se formar.

Organizou seus dias de modo que ele sempre encontrasse a casa em ordem, o jantar pronto, a mesa posta. Porém, depois daquela cena com Rino, ele não voltou mais à antiga docilidade, estava sempre carrancudo, sempre preocupado.

“O que é que não vai bem?”

“O dinheiro.”

“Somente o dinheiro?”

Stefano se enfurecia:

“O que significa somente?”

Para ele não havia outro problema na vida a não ser o dinheiro. Depois do jantar fazia contas e esbravejava o tempo todo: a charcutaria nova não faturava mais como antes; os dois Solara, especialmente Michele, se comportavam com os sapatos como se tudo fosse deles e não houvesse mais a necessidade de dividir os lucros; sem dizer nada a ele, a Rino e a Fernando, encomendavam a fabricação dos velhos modelos Cerullo a sapateiros da periferia por poucos trocados, enquanto mandavam desenhar os novos modelos Solara por artesãos que, na verdade, se limitavam a variar levemente os de Lila; desse modo a pequena empresa do sogro e do cunhado estava de fato afundando, arrastando também a ele, que tinha investido no negócio.

“Entendeu?”

“Entendi.”

“Então veja se não enche o saco.”

Mas Lila não se convencia. Tinha a impressão de que o marido ampliava habilmente problemas reais, mas de velha data, só para ocultar as verdadeiras e novas razões de seus desequilíbrios e da hostilidade cada vez mais explícita em relação a ela. Atribuía-lhe culpas de todo tipo, principalmente a de ter complicado as relações com os Solara. Uma vez gritou a ela:

“O que você fez com aquele escroto do Michele, se pode saber?”

E ela respondeu:

“Nada.”

E ele:

“Não pode ser, a cada discussão ele saca você da cartola, mas ferra é comigo: veja se fala com ele e tenta entender o que ele quer, caso contrário, vou ter de quebrar a cara de vocês dois.”

E Lila, de pronto:

“E se ele quiser me comer, o que faço, deixo ele me comer?”

Um instante depois se arrependeu de ter gritado assim com ele — em certas ocasiões, o desprezo prevalecia sobre a prudência —, mas agora já estava feito, e Stefano lhe deu uma bofetada. A bofetada contou pouco, nem foi com a mão cheia como de costume, atingiu-a com a ponta dos dedos. Pesou mais o que ele lhe disse logo em seguida, desgostoso:

“Você lê, estuda, mas é vulgar: não suporto essas como você, me dão nojo.”

A partir daquele momento, passou a voltar cada vez mais tarde. No domingo, em vez de dormir até o meio-dia como de costume, saía cedo e desaparecia pelo dia inteiro. Se ela fizesse o mínimo aceno a problemas concretos do cotidiano da família, ele se aborrecia. Por exemplo, quando começou o calor do verão, ela se preocupou com as férias no mar para Rinuccio e perguntou ao marido como poderiam se organizar. Ele lhe respondeu:

“Você vai pegar um ônibus até Torregaveta.”

Ela arriscou:

“Não seria melhor alugar uma casa?”

Ele:

“Para quê? Para você bancar a cachorra o dia inteiro?”

Saiu, voltou tarde da noite.

Tudo se esclareceu dali a pouco. Lila foi ao centro com o menino, procurava um livro que tinha visto citado em outro livro, mas não o encontrou. Gira daqui e dali, foi até a Piazza dei Martiri para perguntar a Alfonso, que continuava à frente da loja com satisfação, se poderia procurá-lo para ela. Topou com um jovem muito bonito, extremamente bem-vestido, um dos rapazes mais lindos que ela já tinha visto, chamado Fabrizio. Não era cliente, era um amigo de Alfonso. Lila parou para conversar com ele e descobriu que ele sabia um monte de coisas. Discutiram intensamente sobre literatura, história de Nápoles, sobre como se ensina às crianças, assunto sobre o qual Fabrizio era muito informado — trabalhava com isso na universidade. Alfonso ficou escutando em silêncio durante todo o tempo, e quando Rinuccio começou a se queixar foi ele quem o acalmou. Depois chegaram uns clientes, e Alfonso se dedicou a eles. Lila conversou mais um pouco com Fabrizio, fazia um bom tempo que não experimentava o prazer de uma conversa que lhe estimulasse a cabeça. Quando o jovem teve de ir embora, beijou-a nas bochechas com entusiasmo infantil, depois fez o mesmo com Alfonso, dois grandes estalos. Gritou para ela da soleira:

“Foi uma conversa maravilhosa.”

“Para mim também.”

Lila ficou melancólica. Enquanto Alfonso prosseguia seu trabalho com as clientes, lembrou-se das pessoas que tinha conhecido naquele lugar e de Nino, a porta abaixada, a penumbra, as conversas prazerosas, ele entrando furtivamente à uma em ponto e desaparecendo depois do amor, às quatro. Pareceu-lhe um tempo imaginado, uma fantasia bizarra, e olhou ao redor incomodada. Não sentiu saudades daquele período, não sentiu saudades de Nino. Sentiu apenas que o tempo havia passado, que aquilo que tinha sido importante não era mais, que o cipoal na cabeça continuava e não queria se desatar. Pegou o menino e se preparou para ir embora, quando Michele Solara entrou.

Cumprimentou-a com entusiasmo, brincou com Gennaro, disse que era idêntico a ela. Convidou-a ao bar, ofereceu-lhe um café, decidiu acompanhá-la ao bairro de carro. Quando já estavam no automóvel, lhe disse:

“Deixe seu marido, imediatamente, hoje mesmo. Eu fico com você e com seu filho. Comprei uma casa no Vomero, na Piazza degli Artisti. Se quiser, vamos agora mesmo para lá, você vai ver, peguei a casa pensando em você. Ali você pode fazer o que quiser: ler, escrever, inventar coisas, dormir, rir, conversar e estar com Rinuccio. Eu só quero poder olhar para você e ficar ouvindo.”

Pela primeira vez na vida Michele se expressou sem seu tom gozador. Enquanto guiava e falava, lançou a ela olhares oblíquos e ansiosos para conferir sua reação. Lila fixou o tempo todo a pista à sua frente, tentando enquanto isso tirar a chupeta da boca de Gennaro, que segundo ela a usava demais. Mas o menino afastava sua mão com energia. Quando Michele se calou — não o interrompeu em nenhum momento —, ela perguntou:

“Já terminou?”

“Sim.”

“E Gigliola?”

“O que Gigliola tem a ver com isso? Basta você me dizer sim ou não, e depois veremos.”

“Não, Miché, a resposta é não. Não quis seu irmão e também não quero você. Primeiro, porque nem você nem ele me agradam; e segundo, porque vocês pensam que podem fazer tudo e pegar tudo sem nenhum respeito.”

Michele não reagiu logo, resmungou alguma coisa sobre a chupeta, do tipo: dê logo a ele, não o faça chorar. Depois disse taciturno:

“Pense bem, Lina. Pode ser que já amanhã você se arrependa e venha implorar a mim.”

“Duvido.”

“É mesmo? Então me escute bem.”

Revelou-lhe o que todos já sabiam (“Até sua mãe, seu pai e aquele idiota do seu irmão, mas não lhe falam nada por comodidade”): Stefano era amante de Ada, e não há pouco tempo. A coisa tinha começado antes mesmo das férias em Ischia. “Quando você estava na praia”, disse, “ela ia todas as noites para sua casa.” Com a volta de Lila, os dois tinham parado por um tempo. Mas não conseguiram resistir: recomeçaram, se deixaram de novo, voltaram a ficar juntos quando ela sumiu do bairro. Recentemente Stefano tinha alugado um apartamento no Rettifilo, os dois se encontravam lá.

“Acredita em mim?”

“Acredito.”

“E então?”

Então o quê. Lila não ficou muito surpresa com o fato de seu marido ter uma amante ou de a amante ser Ada, mas com o absurdo de cada palavra ou gesto dele quando fora buscá-la em Ischia. Voltaram-lhe à memória os berros, a surra, a partida. Disse a Michele:

“Sinto nojo de você, de Stefano, de todo mundo.”

 

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