História do novo sobrenome
Capítulo 91
A convivência durou vinte e três dias. De hora em hora ela viu crescer o alívio por ter deixado tudo. Não lamentou nenhum dos confortos que tinha desfrutado depois do casamento, não se entristeceu por se separar dos pais, dos irmãos, de Rino, do sobrinho. Nunca se preocupou com o fato de que o dinheiro acabaria. Tinha a impressão de que a única coisa importante era acordar com Nino e dormir com ele, estar ao lado dele quando lia ou escrevia, travar discussões animadas dentro das quais desaguavam as turbulências de sua cabeça. À noite saíam juntos, iam ao cinema ou escolhiam o lançamento de um livro, um debate político, e frequentemente ficavam até tarde, voltavam para casa a pé, bem agarrados um ao outro para se protegerem do frio ou da chuva, se pegando, brincando.
Certa vez foram ouvir um autor que escrevia livros e também fazia filmes; se chamava Pasolini. Tudo o que se referia a ele suscitava um pandemônio, e Nino não gostava dele, torcia a boca, dizia: “É uma bicha, faz mais confusão que outra coisa”, tanto é que opôs uma certa resistência, preferia ter ficado em casa estudando. Mas Lila estava curiosa e o arrastou. O encontro seria no mesmo local em que uma vez, quando eu obedecia à professora Galiani, a arrastara para ir comigo. Ela saiu entusiasmada, impeliu Nino até o escritor, queria falar com ele. Mas Nino ficou nervoso e fez de tudo para tirá-la de lá, especialmente quando se deu conta de que, na calçada em frente, havia rapazes gritando insultos. “Vamos embora”, falou preocupado, “não gosto dele e também não gosto de fascistas.” Mas Lila crescera em meio à pancadaria, não tinha nenhuma intenção de sair de fininho, e assim ele tentava puxá-la para uma ruela e ela se desvencilhava, ria, respondia aos insultos com insultos. Só cedeu a Nino, bruscamente, quando no momento em que ia começar o confronto reconheceu Antonio entre os agressores. Seus olhos e dentes brilhavam como se fossem de metal, mas diferentemente dos outros não gritava. Pareceu-lhe empenhado demais em distribuir porradas para ter notado a presença dela, mas de todo modo o fato estragou sua noite. Na rua houve alguma tensão com Nino: discordavam sobre várias coisas que Pasolini dissera, parecia que tinham ido a lugares diferentes e escutado pessoas diferentes. Mas não foi só isso. Naquela noite ele sentiu saudade do longo e excitante período dos encontros furtivos na loja da Piazza dei Martiri e, ao mesmo tempo, intuiu que alguma coisa em Lila o perturbava. Ela percebeu sua distração entediada e, para evitar mais tensões, não disse que entre os agressores tinha visto um amigo do bairro, o filho de Melina.
Já no dia seguinte Nino se mostrou cada vez menos propenso a levá-la para fora. Primeiro falou que precisava estudar, e era verdade; depois deixou escapar que em várias ocasiões públicas ela era muitas vezes excessiva.
“Em que sentido?”
“Você exagera.”
“Ou seja?”
Ele fez uma lista, irritado:
“Faz comentários em voz alta; se alguém lhe pede silêncio você começa a brigar; importuna os conferencistas com perguntas demais. Isso não se faz.”
Lila sempre soubera que isso não se fazia, mas tinha se convencido de que agora, com ele, tudo era possível, até superar as distâncias com um pulo, até falar de igual para igual com quem importava. Não tinha sido capaz de entreter gente importante na loja dos Solara? Não foi graças a um dos clientes que ele tinha publicado seu primeiro artigo no Mattino? E então? “Você é tímido demais”, disse a ele, “ainda não entendeu que é melhor do que eles e que vai fazer coisas bem mais importantes.” Depois lhe deu um beijo.
Mas nas noites seguintes, ora com uma desculpa, ora com outra, Nino começou a sair sozinho. E, se por acaso ficava em casa estudando, se queixava dos barulhos produzidos pela vizinhança. Ou então bufava porque precisava ir pedir dinheiro ao pai, que o atormentaria com perguntas do tipo: onde você tem dormido, onde está vivendo, está estudando? Ou, diante daquela capacidade de Lila de articular coisas muito distantes, em vez de se entusiasmar como de costume, ele sacudia a cabeça, ficava nervoso.
Depois de um tempo ele estava tão de mau humor, tão atrasado com os exames, que para continuar estudando parou de ir para a cama com ela. Lila dizia: “Está tarde, vamos dormir”, e ele respondia com um tom distraído: “Vá você, depois eu vou”. Olhava o relevo de seu corpo debaixo das cobertas e desejava sentir seu calor, mas também tinha medo. Ainda não me formei, pensava, não tenho um trabalho; se eu não quiser jogar minha vida fora, preciso me esforçar muito; em vez disso estou aqui, com essa pessoa casada, que está grávida, que vomita todas as manhãs, que me impede toda disciplina. Quando soube que o Mattino não publicaria seu artigo, sofreu muito. Lila o consolou, disse a ele que o mandasse para outros jornais. Mas depois acrescentou:
“Amanhã eu ligo.”
Queria telefonar para o redator que tinha conhecido na loja dos Solara e entender o que havia de errado. Ele esbravejou:
“Não ligue para ninguém.”
“Por quê?”
“Porque aquele babaca nunca esteve interessado em mim, mas em você.”
“Não é verdade.”
“É claro que é verdade, não sou cretino, você só me arranja problemas.”
“O que você está querendo dizer?”
“Eu não devo cair na sua conversa.”
“O que é que eu fiz?”
“Você me confundiu as ideias. Porque você é que nem uma gota d’água: ploc, ploc, ploc. Enquanto não se faz do seu jeito, não para nunca.”
“Foi você quem pensou e escreveu o artigo.”
“Justamente. Então por que me fez refazê-lo quatro vezes?”
“Foi você que quis reescrevê-lo.”
“Lina, vamos ser claros: escolha uma coisa que lhe agrade, volte a vender sapatos, volte a vender salames, mas não queira ser o que não é arruinando comigo.”
Fazia vinte e três dias que viviam juntos, uma nuvem dentro da qual os deuses os haviam escondido para que pudessem gozar um ao outro sem serem perturbados. Aquelas palavras a atingiram profundamente, e ela disse:
“Suma daqui.”
Ele vestiu furioso o casaco sobre a malha e bateu a porta atrás de si.
Lila se sentou na cama e pensou: vai estar aqui de novo em dez minutos; deixou os livros, os apontamentos, a espuma de barbear e a navalha. Depois começou a chorar: como eu pude pensar em viver com ele, que poderia ajudá-lo? É culpa minha: querendo soltar meus pensamentos, acabei o levando a escrever algo errado.
Deitou-se na cama e esperou. Esperou a noite inteira, mas Nino não voltou nem na manhã seguinte, nem depois.
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